terça, 25 de junho de 2019
Saúde
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Parto humanizado se torna realidade nas maternidades da PB

Lucilene Meireles / 31 de março de 2019
Assim como em todo o período de gravidez, a hora do parto também é uma etapa da gestação em que a sensibilidade da mulher é mais intensa. Afloram as preocupações com o nascimento do bebê, cresce a insegurança, bate o medo. Mas o parto, por mais que assuste principalmente as mamães de primeira viagem pode – e deve – ser um acontecimento prazeroso. Por isso, para amenizar essa tensão natural que toda gestante vivencia e tornar a hora de dar à luz um momento só de boas lembranças, o parto humanizado vem se tornando uma realidade gradativa nas maternidades, inclusive públicas, como o Instituto Cândida Vargas (ICV), em João Pessoa.

O parto humanizado ou humanização do parto, porém, ainda gera muitas dúvidas entre as mulheres, mas, em síntese, de acordo com especialistas na área da Obstetrícia, é a conduta dos profissionais que não realizam o procedimento com violência, que oferecem um atendimento, de fato, humano, respeitando a mulher e o seu tempo.

E, para ser humanizado, não é necessário que seja um parto natural. Uma cesariana também pode ser cercada de todo o cuidado e atenção que a gestante precisa. Esse acompanhamento ‘especial’, inclusive, começa ainda durante a gestação, no pré-natal e se estende a todos os atendimentos, inclusive após o nascimento da criança.

O obstetra e especialista em Medicina Fetal, Paulo Noronha, esclareceu que o parto humanizado não é um tipo de parto, mas sim uma assistência específica oferecida à gestante e ao recém-nascido durante o pré-natal, parto e pós-parto.

“Essa assistência fundamenta-se em dois fatores: o primeiro é a valorização do protagonismo da mulher em sua gestação e parto, entendendo que isso significa respeitar suas escolhas. Já o segundo, é a busca por um manejo do pré-natal e parto pautado por evidências científicas, com o objetivo de garantir condutas que impliquem menor risco e maior benefício para a saúde da mãe e do bebê”, explicou.

“As gestantes precisam ter a liberdade de decidir qual tipo de parto se encaixa melhor nas suas expectativas e de acordo com a sua saúde. A sociedade tem debatido questões sobre autonomia da mulher, direitos sexuais e reprodutivos. E tendo conhecimento sobre parto humanizado, a mulher pode compreender melhor que essa prática é sim muito segura”, complementou Paulo Noronha.

Humanização em qualquer tipo de parto

A preparação para o parto humanizado começa com a busca de informações sobre o assunto. “A gestante também deve discutir com a equipe e ir, aos poucos, montando todo o seu plano de parto para vivenciar a experiência com toda autonomia”, aconselhou Mariana Chagas, enfermeira obstétrica e sócia fundadora do Espaço Mãe, em São Paulo.

Ela observou que essas informações e a preparação não valem somente para o parto ‘normal’. “A assistência humanizada é independente da via de parto. Porém dependente da verdade. Se a mulher precisou de uma cesárea, pois era a via de parto mais saudável para ambos, então ela deve ter uma assistência humanizada”, enfatizou.

Um dos entraves para que essa melhora na assistência alcance todas as mulheres, conforme Mariana Chagas, é que muitos hospitais ainda não realizam o parto humanizado. Isso acontece, segundo ela, porque muitos profissionais de saúde ainda não têm formação humanizada. “Então, esse tipo de assistência, onde a mulher tem autonomia nas decisões e onde o tempo do bebê e da mulher é respeitado - estando tudo bem e com monitorização - acaba sendo visto com preconceito, acrescentou”.

Vantagens para a mãe e o bebê

- A mulher participa das decisões baseadas nas pesquisas mais atuais.

- Como resultado, vive uma experiência mais positiva do parto.

- Tem menos chances de depressão pós-parto.

- Tem menos chances de passar por procedimentos sem necessidade (cirurgia, corte na vagina e utilização de medicação).

- O bebê nasce no seu tempo e com o mínimo de intervenções possíveis.

- Por isso, tem menos riscos de ser encaminhado para a UTI-neo.

- Há melhora na imunidade para o resto da vida.

- O bebê pode mamar na primeira hora de vida, fortalecendo o vínculo materno.

O tempo e a dor

Nem sempre o parto humanizado é mais demorado. Mas, é no tempo que mãe e bebê precisam para que ele aconteça. “Uma mulher com medo demora mais para parir que uma mulher à vontade, pois seus hormônios serão alterados por esse sentimento”, explicou a enfermeira obstétrica Mariana Chagas. A cesariana, por outro lado, é um tipo de parto sempre mais rápido.

No parto natural, mesmo contando com o trabalho humanizado da equipe, é provável também que a mulher sinta dor. “A maioria sente, mas não é uma dor de doença. É uma dor nunca experimentada na vida. A dor do parto violento é muito diferente da dor de uma assistência respeitosa”, frisou. Ela lembrou que existem opções de uso de analgesia para parto, caso a mulher opte por esse procedimento, após ser esclarecida sobre o assunto.

Humanização deve existir em todas as maternidades

O parto humanizado tem relação direta com o tratamento prestado à gestante e deve existir em todas as maternidades da Paraíba desde que foi instituída a Rede Cegonha, segundo a coordenadora da Saúde da Mulher, da Secretaria de Estado da Saúde (SES), Fátima Morais.

“Existem alguns serviços que têm, por exemplo, uma enfermaria de acordo com todas as diretrizes, organizadas estruturalmente. Mas, parto humanizado é para ter em todos os nossos serviços”, enfatizou.

Em alguns, há toda uma estrutura para proporcionar o parto humanizado da melhor forma possível. No município de Mamanguape, por exemplo, há doulas, assim como na cidade de Queimadas. “Em Queimadas, temos uma enfermaria de parto humanizado. Em Mamanguape tem, em Patos também tem a enfermaria, mas o parto humanizado é para acontecer em todos os serviços”, reforçou.

Outros municípios, como Cajazeiras e Guarabira contam com essa estrutura. Em Campina Grande, existe um centro de parto normal onde todas as PPPs (pré-parto, parto e pós-parto) contam com parto humanizado. Durante esse período de acompanhamento, antes do parto, as mulheres contam ainda com rodas de gestante e orientações.

Cândida Vargas foi uma das pioneiras na Paraíba

O Instituto Cândida Vargas (ICV) é referência em gestação de risco. Para a maternidade, vão mulheres de todo o Estado e, por ser uma das principais da Paraíba, foi também uma das pioneiras a realizar o parto humanizado. Desde 2012, a unidade conta com doulas voluntárias, fisioterapia, direito a acompanhante desde o pré-parto até o pós-parto.

“Temos trabalhado nesse sentido de humanização, que a gente sabe que é um dos fatores que melhora muito o desenvolvimento do trabalho de parto. Gradativamente, estamos avançando”, destacou José Paulo Gomes, obstetra e diretor clínico do ICV.

Ele observou, no entanto, que o trabalho para garantir o melhor atendimento possível é constante. “A conscientização (dos profissionais) tem que ser um trabalho cotidiano. É uma mudança de postura. Hoje temos um quadro clínico de obstetras, a maioria já com 30 anos de formação, e temos gradativamente quebrado essas barreiras para conseguir implantar”, disse.

O trabalho educativo envolve todo o corpo clínico, além de outros funcionários, começando no momento de fazer a ficha da paciente, passando pelo vigilante e todos os demais setores. “É um trabalho contínuo.

Quando a paciente chega, ela passa por vários profissionais. A enfermeira dá apoio, a doula contribui com o trabalho de parto, a fisioterapeuta e o pessoal de apoio tentam tranquilizar a paciente para que tenha um trabalho de parto de sucesso. Se um deles falhar nesse processo, compromete todo o trabalho”, constatou.

ICV realiza até 800 partos por mês

Em média, o ICV realiza entre 600 e 800 partos mensais de mulheres que vêm de todo o Estado. A maternidade é referência no atendimento de gestação de risco na Paraíba. Por isso, todas as pacientes nessa condição são encaminhadas para lá.

Dignidade e respeito 

“Posso dizer que só há benefícios quando se tem uma maternidade que acolhe com dignidade e respeito. É o momento mais bonito que uma mãe poderá registrar em sua memória e é valoroso que esse momento seja com respeito e amor, principalmente por aqueles que lhe acompanharão”. O depoimento é da engenheira ambiental Lívia Pais Lagares, que deu à luz à filha Sofia há dois meses, no Hospital Geral de Mamanguape (HGM).

O desejo dela era ter um parto natural. Contudo, por falta de dilatação, precisou fazer uma cesariana. “No decorrer do trabalho de parto, houve a decisão médica e familiar de que o melhor para o meu parto seria uma cesárea. Esse é um ponto importante de se relatar, pois esse contato, para mim, também foi humanizado”.

Lívia não teve indução com remédios para acelerar a dilatação ou qualquer outra intervenção até a constatação de que seria necessário ser encaminhada para o bloco cirúrgico. Ela relatou que a equipe, de forma muito respeitosa, lhe auxiliou com informações desde os primeiros instantes até a conclusão da cirurgia.

Toda a gestação foi acompanhada pela doula Ana Carolina Mendonça, que esteve presente até a antessala do bloco cirúrgico e pós-cirurgia. Nesse contato com a doula, Lívia afirmou que pôde se conhecer melhor e se tranquilizar quanto ao nascimento da filha. A doula a ajudou ainda a se posicionar, principalmente quando chegasse a hora de parir.

“É notório a não humanização das maternidades ainda nos dias de hoje. E foi por esse motivo que escolhemos o HGM, que desde a ida para conhecer a maternidade e sua equipe médica, nos foi acolhedor e humanizado. Daí, com o plano de parto visto e acolhido pelo hospital, tive a certeza de que seria o melhor local para dar à luz”, elogiou.

Parto domiciliar 

Um dos propósitos do parto domiciliar – aquele realizado na casa da gestante – acompanhado por um profissional, é humanizar o atendimento à mulher, proporcionando a ela um ambiente familiar, propício para que esteja tranquila e pronta para o momento de parir. Apesar de ser realizado fora do ambiente hospitalar, é seguro, desde que tenha o acompanhamento adequado. Essa assistência começa antes mesmo do início da gravidez, envolve a família e se estende até depois do nascimento da criança.

Lia Haikal é parteira tradicional e realiza partos domiciliares através do Movimento Lua Cheia, um coletivo de parteiras, doulas, casais e famílias que procuram essa assistência. Médica em Espiritualidade e Saúde, com atuação nas áreas de Saúde da Mulher e da Criança, ela também apóia e acompanha o movimento de humanização nas maternidades. “É uma política que vem dentro da política nacional de humanização. Na questão do parto, discute a prevenção de violência obstétrica, propõe boas práticas de autonomia da mulher, das condutas baseadas em evidências, do respeito às escolhas da família”, observou.

Ela destacou que, no coletivo Lua Cheia, há rodas de gestantes e casais, encontros apenas com os homens e ainda a rodinha com mães e bebês até o segundo ano de vida. Há também acompanhamento com doula, em maternidade.

“Tenho quatro filhos e todos nasceram em casa. É maravilhoso e, para mim, sempre foi a primeira escolha. É um parto seguro quando está dentro de alguns critérios de avaliação. Nos critérios de segurança de um parto em casa, a primeira coisa é que seja vontade da mulher. É uma questão dela se sentir mais segura em casa do que no hospital. O segundo é ter uma equipe qualificada, pronta para atender o parto”, explicou.

Ter filho em casa sozinha é arriscado

Ter um filho em casa, com parto feito por alguém que acudiu é arriscado e pode ter consequências graves para a mãe e o bebê. “Se a mulher está sozinha ou quem está com ela não é apto, é um risco. Tem que ter equipe qualificada, gravidez de baixo risco, que a mulher e o bebê estejam saudáveis, e os exames dentro da normalidade”, destacou Lia Haikal.

Outro critério de segurança, segundo ela, é ter um plano B bem pensado. “O plano A é em casa, mas mesmo ela querendo, se sentindo segura, com a equipe, o pré-natal, às vezes, é preciso encaminhar ao hospital e, portanto, é necessário saber qual a maternidade de referência. Isso tudo deve estar organizado pela equipe”, enfatizou.

O parto em casa é considerado pela médica uma opção muito boa, tão ou mais segura do que num hospital. Segundo ela, no hospital é muito mais fácil ter uma intervenção médica desnecessária. “O parto humanizado nos hospitais tem ajudado a mudar o cenário da violência obstétrica. percebo avanço nos relatos das doulas, das mulheres, percebo melhora. nessa discussão da violência”.

O que mudou

Há uma década, a questão da violência obstétrica não era discutida. Pelo contrário, a médica Lia Haikal analisou que era natural e banalizada. “Não se reconhecia como violência a prática rotineira de episiotomia. Lembro de vários relatos de mulheres que não reconheciam isso como uma violência”, analisou.

Hoje, segundo Lia, elas já têm uma apropriação enorme dessa discussão. Antes, não aconteciam rodas de gestantes, não tinha doulas, hoje tem várias, tem cursos, rodas de gestantes e casais. “Os casais têm outra apropriação da gravidez e dos partos. Têm aparecido profissionais mais jovens, com as práticas mais repensadas, que já vêm nessa humanização”, analisou.

Apesar dos avanços, ela ainda vê desafios. “Observando de longe, vejo que um deles é não humanizar demais o parto, elaborar demais, e vemos um pouco isso na construção de muita coisa em cima do parto. Um dos aspectos principais é respeitar o mistério do parto, acolher a mulher ao invés de ficar fazendo planos, idéias e construções da mente”, opinou.

Benefícios do parto em casa

Os benefícios do parto domiciliar são muitos. “Os membros da família estão no ambiente deles, em casa, com lençol limpo e preparado para o parto, dentro dos germes que a mãe já conhece. É importante até em termos de bactérias, de infecção. O parto que a gente assiste é familiar, é uma celebração, um evento de alegria. Muita coisa boa que está chegando para a família, um ambiente onde a mulher se sente bem, o parceiro se sente incluído. É uma outra história”, comentou Lia Haikal.

Em termos de infecções, ela observou que o bebê nasce e já está em casa. “Nesse período, nos primeiros 20 minutos de vida, o bebê tem um nível de atenção que ele só vai voltar a ter com dois meses. É um momento importante de reconhecer a mãe, o pai. Não tem a pressa de dar banho. É um momento de emoção. O bebê se sente amado, pertencendo àquela família. Ele vai levar isso para a vida toda”, constatou.

Geralmente, conforme Haikal, as mulheres querem parir de novo. “É uma experiência de prazer, entrega, acolhimento. É um momento que reverenciamos muito. Nós cantamos, oramos, utilizamos chás, sabedorias ancestrais, uma reconexão com as famílias da mulher. O foco maior é o bebê que vai levar essa experiência para o resto da vida dele, mesmo que de uma forma inconsciente”, acrescentou.

A enfermeira obstétrica Mariana Chagas, concorda que o parto domiciliar é seguro, mas faz uma ressalva. “Desde que realizando um bom planejamento e obedecendo todas as recomendações. É importante saber, porém, que não existem escolhas ‘risco zero’ na medicina”, concluiu.

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