sábado, 08 de maio de 2021

Saúde
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Depressão afeta 20 em cada 100 paraibanos

Lucilene Meireles / 20 de maio de 2018
Foto: Rafael Passos
“Quando se está com depressão tudo perde sentido e você se sente incapaz de qualquer coisa. Fiquei três semanas trancado num quarto. Não saía de casa, não tinha lazer. Ia para a aula e ficava como um zumbi. Chorava direto e não sentia nenhuma vontade. A única era de morrer e acabar com aquela dor que me destruía por dentro... Quando percebi, estava com uma faca na mão, pronto para me matar”. O depoimento é do estudante Mikael Lucas Gomes de Freitas, 23, que está tratando de depressão há dois anos, mas poderia resumir o que sente a maioria dos pacientes, cerca de 20 em cada 100 pessoas na Paraíba, segundo estimativa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Os dramas são parecidos, mas a doença, velha conhecida da humanidade, tem apresentado sintomas que não eram associados a ela. Os médicos já reconhecem que quadros de dor e agressividade estão entre os sinais que se agravam diante dos inevitáveis fatores estressantes do dia a dia. As alterações na antiga classificação ampliaram as características do transtorno que afeta 20 em cada 100 pessoas na Paraíba. E o pior: muitos não sabem que têm a doença, não procuram ajuda e não têm acesso ao tratamento.

O vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e professor do Departamento de Ciências Médicas da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Alfredo Minervino, observou que a depressão vem desde os tempos de Hipócrates, com a teoria dos humores que diz que o indivíduo era composto de líquidos e, quando preponderava a bile negra, esta pessoa era chamada de melancólica, melan - escuro, colia – cor. Possivelmente, segundo ele, são os deprimidos da atualidade, mas o que se vê hoje – acrescentou - são talvez nosologias (classificações) antigas com nosografias (descrições) novas.

“Temos hoje, através da melhor avaliação da etiologia bioquímica da doença, a oportunidade de verificar que, na depressão, alguns clusters têm aparecido como dor, ansiedade, irritabilidade, agressividade, agitação psicomotora entre outros, e isso determina de pronto algumas nosologias novas, com obviamente nosografias novas”, observou o psiquiatra.

Influência do dia a dia

O surgimento da depressão tem uma relação estreita com as tensões do dia a dia, mas sua evolução pode ser freada quando se busca tratamento no início dos sintomas.

“Um dos fatores mais importantes da etiologia depressiva, é a reação individual do homem aos fatores estressantes diários, e a forma como ele encara isso. Com o aumento ou a constância destes, o indivíduo pode sim ser levado a quadros de desânimo, desprazer, cansaço ou outros sintomas que, se mantidos, podem gerar depressão”, explicou o psiquiatra Alfredo Minervino. Ele ensina que a melhor forma de reagir é reconhecer isso e procurar ajuda. Essa situação, segundo ele, evidencia que a qualidade de vida e o cuidado individual determinam, por vezes, uma profilaxia, ou seja, medidas para prevenir e evitar que o problema se instale. Porém, o especialista afirma que ainda não há uma profilaxia bem estabelecida.

Pressão psicológica na universidade, ter que se desdobrar para dar conta das demandas universitárias, ficar longe dos pais e sofrer bullying por causa do peso. A soma de tantos problemas levou o estudante Mikael Lucas Gomes de Freitas, 23, a um quadro que nem ele compreendia, com sintomas como irritabilidade e agressividade. “Não queria ter que ficar falando para todo mundo, quando notaram algo estranho em mim, que estava tudo bem, porque não estava. Chegava em casa e ia chorar”, relatou.

O estudante, que tentou tirar a vida por duas vezes, está em tratamento psiquiátrico e psicológico há dois anos, mas só decidiu buscar ajuda quando chegou ao fundo do poço.

Perda foi agota d’água

A agente de saúde Anna Lima, 49, sempre foi uma pessoa alegre, que gostava de sair, ouvir música, se divertir com os amigos. Quando a mãe foi diagnosticada com câncer, seu mundo começou a desabar. No meio do caminho, com o tratamento, a cirurgia, as esperanças se renovaram. Porém, o tempo foi passando e, ao contrário, do que Anna acreditava, ou queria acreditar, como ela mesma diz, o quadro se agravou.

“Perdi minha mãe há quatro anos, no Dia das Mães, e isso me machuca muito. A data é dolorosa, assim como a minha vida passou a ser depois que ela se foi. Choro todos os dias. Não sinto vontade de fazer nada. Em resumo, perdi o ânimo de viver”, relatou.

Anna é acompanhada por um psiquiatra e se trata com medicação, mas afirma que não é um problema fácil de ser compreendido.

Incapaz de uma reação

O processo depressivo é um transtorno do humor que gera a incapacidade de reagir aos mínimos estímulos, como sair da cama, até a falta total de reação. Por conta do risco de suicídio que está sempre a rondar o paciente, tem que ser tratada com psicofármaco e psicoterapia, de acordo com o psiquiatra Alfredo Minervino.

Ele lembrou que o diagnóstico é clínico e os déficits cognitivos de pacientes com depressão são importantes. “São alterações de neurotransmissores e na modulação destes, que podem e levam a uma lesão tecidual cerebral já há muito conhecida”, enfatizou.

A depressão, conforme o médico, pode ser desencadeada por fatores hereditários, estressantes, alterações na modulação e na quantidade de neurotransmissores, fatores psicológicos, além de uma possível personalidade pré-mórbida.

O apoio da família é essencial durante o tratamento de um paciente com depressão.

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