sábado, 23 de fevereiro de 2019
Preconceito
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Autoestima: número de auto declarados negros cresce na Paraíba

Lucilene Meireles / 20 de novembro de 2018
Foto: Assuero Lima
“Não é moreno, é preto”. Esta é a frase com que a população negra tem se autodeclarado em todo o País. Na Paraíba, o percentual aumentou de 4% para 5,1%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A mudança, na opinião de representantes do movimento negro no Estado, é resultado das lutas encabeçadas pelos movimentos sociais, e é também um dos motivos de comemoração nesta terça-feira (20), Dia da Consciência Negra.

“Há uma negação histórica, e a gente avalia isso como fruto da luta dos movimentos sociais, e isso é muito significativo”, observou Terlúcia Silva, que é assistente social e ativista do Grupo de Mulheres Negras da Paraíba – Bamidelê. Ela afirmou que o movimento negro vem lutando de forma mais contundente em relação à afirmação da identidade desde a década de 70, sempre lembrando que é importante se autodeclarar, fortalecer a identidade.

Para ela, assumir a cor, a raça, aumenta a importância no processo de elaboração de políticas públicas voltadas a esta população. “Quando a gente consegue contar a população negra e saber quantos somos, temos mais possibilidade de reivindicar direitos e podemos cobrar melhorias específicas”.

“Aqui havia uma negação muito forte. As pessoas tinham mais facilidade em termos de compreender a questão indígena do que a negra. A gente ainda vive um processo de negação histórica e isso ainda permanece em diversos segmentos. Até uma criança de 3 anos chega e pergunta: quando crescer eu vou ser branca?”, constatou.

Em 2010, segundo a ativista, já era possível perceber uma diferença em João Pessoa, com base nos dados do Censo do IBGE.

Aceitação libertadora

Aceitar a própria cor diante do preconceito é um processo difícil, mas quando alguém consegue assumir que, de fato, é negro e isso não significa ser diferente dos demais, é libertador. O pensamento compartilhado pela fisioterapeuta Ângela Pereira, que é responsável técnica pelo Centro Especializado de Reabilitação Física e Auditiva de Conde, mostra como, apesar dos avanços, ainda é difícil para muitos assumir sua identidade.

“Eu acho que o processo de autodeclaração é muito difícil, porque a gente vive ainda sequelas da escravidão e negação dessa identidade, o que acontece porque foi dito o tempo todo para as pessoas negras que ser negro é ruim. Tanto que muitas pessoas evitam dizer que alguém é negro com medo de agredir. Existe uma falsa democracia racial e afirmo isso com toda convicção”, declarou.

Hoje, Ângela se autodeclara negra, mas por conta de todo esse histórico, nem sempre foi fácil se aceitar. Durante um tempo, ela se colocava como parda, mas depois foi se reconhecendo, assumindo a identidade de cor e passando a amar seus traços. “O nosso cabelo é tido como feio e, para muitos, precisa ser alisado para entrar nos padrões. Meus lábios, só fui aceitar que eram bonitos depois de um longo processo”, relatou.

Ângela acredita que sua beleza negra misturada aos traços europeus herdados do avô paterno são bem características da raça. “Nariz achatado, lábios mais grossos... Esse processo de assimilação, de enxergar e valorizar a estética negra é difícil, e eu fui percebendo ao longo da minha vida algumas expressões de racismo”, lembrou. Porém, a fisioterapeuta decidiu mudar. A mulher que sempre havia chamado a atenção pelos cabelos alisados, assumiu a identidade.

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