sábado, 16 de janeiro de 2021

Transposição
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Transposição: municípios ainda vão esperar pelas águas do Velho Chico

Aline Martins / 10 de março de 2017
Na prática, nem todos os municípios que estão entre os beneficiados pelo Projeto de Integração do Rio São Francisco, na Paraíba, que fazem parte do Eixo-Leste, receberão as águas imediatamente. São João do Tigre, São Sebastião de Umbuzeiro e Zabelê, na região da Borborema, por exemplo, dependem da conclusão das obras de uma adutora que está parada há mais de dois anos, segundo revelaram os gestores dessas cidades. Mesmo os municípios que recebam as águas de imediato, ainda vão precisar elaborar projetos para expandir a água para os demais habitantes, principalmente os que ficam na zona rural. Além disso, também vão continuar dependendo dos carros-pipa que abastecem as cidades.

O prefeito de São João do Tigre, José Mauricélio Barbosa, cobra a conclusão da adutora, que está sendo feita através de uma parceria dos governos do Estado e Federal. Ele clama às autoridades agilidade na finalização dessa obra. “Se for beneficiado tem que pegar em Camalaú com um dique e isso não conta. O que nos resta é cobrar das autoridades a conclusão”, frisou, acrescentando que até participou de uma reunião com as bancadas federal e estadual para que tomem providências com relação a essa situação, mas até agora não obteve resposta.

Além de São João do Tigre, a adutora deve beneficiar a população de São Sebastião de Umbuzeiro, de Zabelê e do distrito de Cacimbinha. “Em São João do Tigre nós já não temos água encanada. Estamos seis anos aqui nessa situação. O município é abastecido por poço e carro-pipa. O lençol freático daqui é péssimo. Cerca de 70% dos poços que você fura é seco”, revelou o prefeito. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), São João do Tigre tem uma população estimada de 4.427 habitantes.



Se na cidade acima a água já não passa pelas torneiras, em São Sebastião de Umbuzeiro, o prefeito Adriano Wolff, revelou que a população está consumindo água imprópria e a reserva está praticamente seca. Ele também cobra a conclusão da obra da adutora. Por enquanto, a cidade só será beneficiada indiretamente. “Eu estou me empenhando muito nessa cobrança para que seja retomada imediatamente essa adutora que está parada há uns dois anos e a água daqui a pouco está chegando a Camalaú e não vai chegar para a gente. As nossas reservas estão sem água. O nosso reservatório que é o açude está praticamente seco, a água que tem está imprópria até para tomar banho. O pessoal ainda usa, mas é imprópria”, afirmou, acrescentando que está esperando chuva, mas isso não depende de nenhum governante.

Ainda de acordo com o prefeito Adriano Wolff, o município distribui gratuitamente água captada pelo açude de Santo Antônio, que está a 0,7% de sua capacidade total, e por dois carros-pipas, através de uma parceria com o Governo do Estado e um carro-pipa que tem convênio com o PAC, que abastece a zona rural. “A gente também tinha um outro açude onde os carros-pipa pegavam água e já não tem mais como pegar. A gente está indo no município vizinho, Zabelê, para pegar água”, afirmou, acrescentando que na zona urbana havia um dessalinizador, mas parou de funcionar por falta de manutenção. “O pessoal de baixa renda que pegava essa água para beber não pega mais porque nem serve para beber e nem tomar café”, afirmou.

O gestor de São Sebastião de Umbuzeiro informou que busca um segundo equipamento para a cidade, mas que também pretende recuperar o já existente. Em relação à adutora, disse que nenhuma informação foi passada ao município de como seria o funcionamento e da gerência dela. A cidade vive há oito anos na seca. “A última chuva boa foi em 2009”, lembrou, ressaltando que muitas pessoas venderam seus rebanhos para poder sobreviver. Falou também que na zona rural tem como perfurar poços artesianos para retirar água, mas na cidade não há condições favoráveis para isso.



“A gente está com dificuldade de ter água de beber. A gente está tentando um dessalinizador para abastecer a zona rural. A única saída é essa água dessa adutora que vai chegar através da transposição, mas só se a obra da adutora for concluída” - Adriano Wolff – prefeito de São Sebastião de Umbuzeiro.

De acordo com o secretário de Agricultura de Zabelê, Gerson Magdiel Souza Santos, a cidade também depende dessa adutora para ter água. “Teria outra forma que é construir uma adutora até Monteiro porque só é 20 km. A de Camalaú é mais distante, a água vai percorrer muito para poder chegar em Zabelê, ou seja, 60 km”, observou. Ele informou que nada foi feito na adutora que irá beneficiar essas três cidades. Hoje a cidade ainda tem água encanada, mas está com péssima qualidade. Também são abastecidos por carros-pipa. 

Ainda vai precisar de carros-pipa

O município de Camalaú será beneficiado com o Projeto de Integração do Rio São Francisco. No entanto, a cidade continuará dependendo do abastecimento por carros-pipa. De acordo com o secretário de Agricultura, Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Auricelmo Bezerra dos Santos, mesmo que água do rio chegue ao município, não vai atender a toda população. “Na cidade a gente já tem adutora. A gente vai precisar fazer projeto para possivelmente abastecer a zona rural onde tiver. Por exemplo, aqui a gente tem um sítio bastante povoado (Madeira e Poeiras) tentar uma adutora para abastecer esses povoados nos sítios”, afirmou.

O açude de Camalaú está com capacidade de 6,5%. Também é abastecido por carros-pipas que retiram água de outras cidades. “Só vai deixar de usar carro-pipa se chover em todos os lugares. Senão vai ser indispensável o carro-pipa”, ressaltou o secretário. “Essa água vai até Boqueirão. Vai passar pelos municípios banhando os sítios Salgadinho, Madeira, Porteira e fica o outro trecho que pega a região do Congo que está seco”, lembrou.

60% de obra de saneamento já estão prontas em Monteiro

O secretário de Planejamento de Monteiro Clênio Nóbrega informou que a parte que competia ao município, a etapa útil do esgotamento sanitário, já foi concluída em 28 de janeiro deste ano. “Com o recebimento das águas, a gestão anterior da prefeitura, criou o distrito mecânico e industrial onde estamos dando continuidade nessa nova gestão oferecendo a contrapartida que é o terreno para que gere novos empregos para toda a população”, afirmou, acrescentando que a gestão continua incentivando a compra dos produtos da agricultura familiar. “Porque todos os agricultores por onde passa o leito da transposição vai ser feito um abastecimento completo, já para evitar que aconteça algum desvio”, ressaltou e destacou que o número de agricultores familiares também vai aumentar a partir de uma chamada pública. Atualmente 100 são beneficiados.

Ainda segundo o secretário, após a conclusão das obras de saneamento, a cidade vai ficar 98% saneada. Ele explicou que já foram concluídas as lagoas de tratamentos (etapa útil), fundamentais para poder a água do Rio São Francisco passar, e a construção de três estações elevatórias. Falta também a implantação de mais duas estações elevatórias e o restante das ligações domiciliares. Até agora foram concluídas 60% da obra. A previsão é que em junho ou julho esteja tudo concluído. Clênio Nóbrega destacou que as obras não vão atrapalhar a qualidade das águas da transposição. Em relação ao esgoto que havia na entrada do canal da cidade informou que seria retirado na sexta-feira.

Boqueirão. Após a chegada a cidade de Monteiro, as águas do Rio São Francisco vão ser despejadas pela Aesa no leito do Rio Paraíba. Na sequência, elas vão abastecer os açudes São José, Poções e Camalaú, antes de chegar ao Epitácio Pessoa. Popularmente conhecido como Boqueirão. O açude abastece Campina Grande e outras 18 cidades. Ele tem capacidade para 411 milhões de metros cúbicos, mas atualmente possui apenas 3,8% deste volume.

Obra deve ser retomada este mês



O secretário de Estado dos Recursos Hídricos, do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia, João Azevêdo, informou que a adutora citada na matéria é uma parceria do Governo Federal com o Governo do Estado. “Houve um problema com a empresa que começou a executar a obra. Houve paralisações e será retomada agora em março. Já houve a solução do problema. A empresa teve problemas financeiros, administrativos. A obra tem recursos e não tem nenhum problema relativo à geração de pagamentos", explicou.

Com a entrega do Eixo Leste, com as obras já concluídas e os sistemas existentes no Estado, de imediato, 900 mil pessoas serão beneficiadas. No entanto, a perspectiva é aumentar a quantidade de habitantes atendidos. “Há uma perspectiva de ampliação dos sistemas como se pretende fazer na Paraíba a partir da elaboração do projeto do sistema adutor da Borborema, que a gente chama de trans Paraíba e que tem possibilidade de levar para um número maior de pessoas porque vai levar água para todo o Cariri e Curimataú”, frisou, acrescentando que caso a obra não retorne neste mês, o contrato será reincidido e nova licitação será feita.

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