sexta, 22 de janeiro de 2021

Transposição
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À espera da tão sonhada água do Rio São Francisco agora é realidade

Renata Fabrício / 10 de março de 2017
Foto: Chico Martins
As águas que vão chegar pelos canais da Transposição à Paraíba são o sonho do pescador José de Deus, 60. Em Camalaú, cidade do Cariri onde mora, uma colônia de pescadores de dez municípios está na expectativa para ver água nova entrando no açude. No último bom inverno em 2009, foram 240 toneladas de peixes vendidas para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Com a estiagem dos últimos sete anos, a pesca chegou a um índice centenas de vezes menor atingindo agora em média uma tonelada.

Na associação que José de Deus coordena são 196 pescadores, de 10 municípios do Estado. Só de Camalaú são 60, mas o número já foi de quase 100. A crise da água fez com que pescadores abandonassem a atividade e migrassem para a construção civil. Com a água do São Francisco chegando em Monteiro, antigos pescadores que trocaram de profissão estão retornando à colônia com o sonho de ver água nova. “Tem um pescador que já está deixando a construção civil para voltar a pescar de olho na água do São Francisco. Ele é de Sumé e está voltando com a ideia de que as coisas vão melhorar”, conta.

Filho de pescador e casado com uma pescadora, “Deusin” como é conhecido por outros também pescadores, diz que a água traz o sonho de novas espécies serem vendidas. “Hoje o pescador tira água de pedra para atender o Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar). A atividade hoje dá uma quantidade muito pequena, cerca de 1 tonelada de pescado. É uma diferença muito grande para o que tivemos em 2009. A diversidade de peixes é grande. Temos Traíra, Curimatã, Piau, Corvina, Tucunaré. Temos muitos peixes e já estamos na expectativa de que a água traga novas espécies. A renovação da água é boa”, sonha João.

Uma parceria da colônia de pescadores com engenheiros pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) está desenvolvendo novas formas de produzir isca barata e testes rápidos para avaliar a qualidade da água para a criação do pescado.

“A gente já firmou uma parceria com a UFPB para ter um suporte e a partir de março trabalhar com alimentação orgânica para o peixe. Já tivemos as primeiras reuniões e um curso rápido de como fazer a ração, utilizando coisas muito simples como sangue de boi triturado com resto de legumes. A qualidade da espécie é a mesma. Técnicos e engenheiros estarão conosco durante oito meses nos ensinando a fazer os testes na água com aquilo que a gente tem que melhorar para que o peixe se alimente melhor. Estamos muito animados. Está todo mundo na expectativa. E eu sou sonhador sabe? Era sempre o pessoal dizendo que não ia dar certo e eu sempre apostando que ia dar certo”, relembra o pescador.

"A gente espera que chegue"

Longe do Centro de Camalaú, moradores da zona rural também anseiam pela água do Velho Chico. Dona Cândida Alves, 68, que mora no Sítio Caruá, viu a vida ser modificada por causa da seca. A estiagem prolongada fez com que o marido deixasse a família para tentar a vida em São Paulo, e ela ficou à frente dos trabalhos na lavoura.

De tempos em tempos, quando voltava para o sítio do Meio, onde moravam à época, o marido de Cândida já encontrava um novo filho. E assim foram oito filhos, todos agricultores. Todos à espera de chuva. O milho e o feijão que a família plantava eram para o próprio consumo. Como chefe da família e com vários filhos pequenos para dar de comer, dona Cândida fazia de tudo nas terras.

“Ele ia para São Paulo e eu ficava com meus filhos pequenos. Limpava mato, tirava ração pra bicho. Eu que plantava, eu que colhia. Ele precisava trabalhar porque aqui a gente não tinha ganho de nada. Eu fazia até mesmo renascença para ajudar. Eu trabalhava tanto, e meus filhos tudo pequeno. Às vezes a gente perdia a lavoura inteira. Dessa transposição eu sempre acreditei, e desejo que chegue”, conta.

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