sábado, 06 de março de 2021

Paraíba com memória
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‘Guerra’ entre católicos e protestantes em Patos

Adelson Barbosa dos Santos / 25 de junho de 2017
Foto: Arquivo
O ano era 1958. A cidade era Patos. O dia era 29 de junho, que, no calendário da Igreja Católica, é dedicado a São Pedro e São Paulo. Naquele 29 de junho, um fato ocorrido na cidade de Patos ganhou repercussão nacional e internacional, conforme alguns historiadores da região: o ataque a dois templos protestantes (um da Igreja Presbiteriana e outro da Igreja Batista) por católicos supostamente incentivados pelo padre Manoel Dutra e por Frei Damião, de linha ultraconservadora.

A depredação das duas igrejas protestantes teria ocorrido numa noite de pregação de Frei Damião, que ficou famoso em toda a região Nordeste pelas suas missões que reuniam multidões por onde ele passava. O registro do fato está no livro “Na Rota do Tempo”, de autoria do escritor e ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Flávio Sátiro Fernandes, que é natural da cidade de Patos.

A narrativa que consta no livro de Flávio Sátiro diz o seguinte: “29 de junho: grave acidente, de repercussão internacional” ocorreu naquela noite “envolvendo católicos e protestantes”, quando duas igrejas protestantes teriam sido “depredadas por católicos”.

Segundo a narrativa, os católicos acusaram “os irmãos separados de perturbarem missões” que estavam sendo realizadas na cidade de Patos.

A perturbação, segundo a narrativa, teria se dado pelo fato de os protestantes terem difusoras ligadas no volume máximo no momento em que era realizada a pregação católica na voz de Frei Damião. Mostra a narrativa uma provocação por parte dos evangélicos, que causou uma reação violenta por parte de um grupo de católicos.

“Ambas as facções se preocuparam nos dias seguintes em tentar esclarecer, mediante suas próprias versões, através da imprensa falada e escrita, as origens do conflito e as responsabilidades pela ocorrência”, diz a narrativa do livro de Flávio Sátiro.

O ano de 1958, segundo o site da Igreja Ação Evangélica (Acev), “começou um terrível e intenso período de perseguição em Patos”. O texto publicado no site da Igreja acusa diretamente o padre Manoel Dutra e o frade Damião de Bozzano de incitarem a violência contra os protestantes que se estabeleciam na cidade de Patos.

“Eram (Pe. Dutra e Frei Damião) figuras chaves na incitação à violência contra os evangélicos. Eram dias que exigiam muita coragem para ser crente, mas pela graça de Deus, o trabalho continuou firme”, diz o texto. Segundo o mesmo texto, os jornais que relataram os acontecimentos da época “de perseguição intensa, estão guardados nos arquivos da Acev”.

Atuação de autoridades britânicas

A violência só diminuiu, segundo a Acev, “quando as autoridades britânicas tomaram conhecimento da violência através de um missionário canadense, Dionísio Pape, que passou por Patos”. “As autoridades britânicas comunicaram-se com a Polícia Federal Brasileira e tudo mudou”, diz o texto.

E acrescenta: “Assim, o trabalho pode voltar a crescer. Cartas de 1959 falam dos pastores Eduardo e Frank pregando em lugares como Tavares, Água Branca, Santa Terezinha, Imaculada e Juru. Em 1960, eles foram à Brasília, que estava em construção, para examinar a possibilidade de iniciar uma Igreja lá também”. O texto não cita o ataque aos templos protestantes.

O jornalista e historiador Damião Lucena, no portal “Patos em Revista” (www.patosemrevista.com) faz um histórico da presença dos protestantes na cidade de Patos e também aborda o conflito com os católicos, a partir do que foi publicado pelos jornais da época e pelo testemunho de pessoas ainda vivas.

“O ano de 1958 foi de enorme dificuldade para os evangélicos de Patos, em virtude da perseguição de grupos católicos, fato documentado em jornais da época e hoje sob os cuidados da missionária Elizabeth Medcraft, da Ação Evangélica (conhecida como Igreja Pentecostal)”, afirma Damião Lucena.

Segundo ele, as publicações guardadas pela missionária Elizabeth Medcraft, sustentam que as investidas de católicos contra protestantes teriam sido lideradas pelo padre Manoel Dutra. “Chegaram a provocar revolta em parte dos seguidores da religião Católica, durante a celebração de missões do Frei Damião”, frisa Lucena.

Igreja Presbiteriana incendiada

Naquele período, segundo o jornalista patoense, “a Igreja Presbiteriana foi incendiada e tiros chegaram a ser disparados contra o templo dos Batistas”.

“O grave incidente foi registrado em 29 de junho e teve repercussão internacional. Paralelo a isso, os evangélicos eram apedrejados e insultados com frequência.

Tais iniciativas não chegaram a provocar desânimo nos seguidores da doutrina que permaneceram firmes e não pararam de crescer”, frisa o jornalista e historiador.

Em seu portal, Damião Lucena cita a defesa do padre Manoel Dutra, que também isentou frei Damião de qualquer participação no ataque às duas igrejas protestantes. “Em reiterados artigos, o padre Manoel Dutra, já falecido, deixou claro que em momento algum incentivou os cristãos mais eufóricos a tais práticas, assim como Frei Damião”, diz Lucena.

E continua: “Acrescentava (o padre) que a revolta dos católicos teria ocorrido pelo fato de protestantes (da Igreja Presbiteriana) terem utilizado alto-falantes nas proximidades das missões e que só não teria acontecido o mesmo (ataque imediato) à Igreja Batista, por conta da interferência do capuchinho”. Capuchinho é uma referência a Frei Damião, membro da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, criada em 1517, como braço da Ordem criada por São Francisco de Assis.

“Dos lados evangélicos, os questionamentos continuam e se baseiam nos acontecimentos relatados em jornais da época, a exemplo do Correio da Paraíba, publicações evangélicas e testemunhas. Relembram ainda que coisas do tipo aconteceram em diversas regiões do País, na tentativa de manter o domínio católico”, frisa Lucena em seu portal.

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