quinta, 15 de abril de 2021

Política
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Operação Calvário provoca saída de secretários

André Gomes / 01 de maio de 2019
Foto: Assuero Lima
A quarta fase da Operação Calvário deflagrada ontem atingiu em cheio o coração da administração pública estadual ao realizar o cumprimento de mandados de busca e apreensão na Secretaria da Administração e na Procuradoria Geral do Estado, tendo como alvos os ex-auxiliares Gilberto Carneiro da Gama e Livânia Farias. Além das buscas, a Polícia Rodoviária Federal e o Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco) executaram o mandado de prisão da servidora Maria Laura Caldas de Almeida Carneiro.

Foram ainda expedidos mandados de busca e apreensão em João Pessoa, Santa Terezinha e Pitimbu, tendo como alvos Geo Luiz de Souza Fontes, Livânia Maria da Silva Rodrigues, Maria Laura Caldas de Almeida Carneiro, Ricardo Jorge Castro Madruga, Ronaldo Prazeres Chaves de Lemos, Severino dos Santos Silva, Sanderlândia Bezerra Secundino, Maria do Socorro Vilar, Jefferson Vilar Coelho, Layane Lygia de Araújo Vilar e José Vilar do Nascimento.

Os pedidos do Ministério Público da Paraíba (MPPB) foram deferidas pelo desembargador Ricardo Vital de Almeida.

De acordo com o Ministério Público, a nova fase da Operação Calvário busca obter provas da atuação de Gilberto Carneiro junto à Organização Criminosa sob investigação, a qual teria como um dos operadores Geo Luiz de Souza Fontes. Também pretende demonstrar a aquisição de patrimônio ilícito por Maria Laura Caldas de Almeida Carneiro, ocupante do cargo comissionado de assistente de gabinete com lotação na Procuradoria-Geral do Estado, a qual pode estar ocultando bens pertencentes a ela e/ou terceiros integrantes da ORCRIM.

Segundo relata o MPPB, com a permanência de Gilberto Carneiro à frente da Procuradoria-Geral do Estado, Maria Laura permaneceu intocável, a pesar de existirem elementos indiciários de nunca haver ela efetivamente exercido o cargo, tratando-se de mera acomodação administrativa.

Mesmo após a deflagração da Operação Calvário, no Rio de Janeiro, a investigada se manteve no cargo. O órgão ministerial estuda ainda a possibilidade de Maria Laura ter exercido funções semelhantes as que Leandro Azevedo exercia para Livânia Farias, ex-secretária de Administração do Estado, como as de realizar as operações de coleta e ocultação de valores, afirmando ser ela ligada administrativamente a Gilberto Carneiro.

Para o desembargador Ricardo Vital, o deferimento da medida cautelar se mostra conveniente para a elucidação dos fatos em toda a sua extensão, mormente para a coleta de provas essenciais a comprovar a prática, ou não, das condutas criminosas sob apuração; e para, além disso, corroborar elementos de provas já angariados. “Há, sem dúvida, indícios, sobejos, como mínimo, da participação dos investigados em práticas ligadas à corrupção em sentido amplo”, ressaltou.

Prisão

O MPPB investiga se Maria Laura exercia a mesma função de Leandro Azevedo, arrecadador.

Investigações começaram no Rio



As investigações tiveram início a partir do compartilhamento de parte do acervo probatório da Operação Calvário, desempenhada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro contra a Cruz Vermelha do Brasil – filial do Rio Grande do Sul (CVB/RS), Organização Social contratada pelo Governo da Paraíba e que teria sido utilizada como instrumento para a operacionalização de uma organização criminosa em diversos estados, dentre eles o paraibano.

O compartilhamento de provas, realizado mediante autorização judicial, apontou o recebimento de propina na gestão feita pela Cruz Vermelha no Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena, um dos hospitais de referência, no Estado da Paraíba, na área de traumatologia, queimados e outros serviços de urgência e emergência clínico-cirúrgica, de baixa, média e alta complexidade.

A ex-secretária Livânia Farias chegou a ser presa e liberada depois de colaborar.

Investigados são exonerados



No dia da deflagração da quarta fase da Operação Calvário, o Diário Oficial do Estado (DOE) trouxe a exoneração do então procurador-geral do Estado, Gilberto Carneiro, do secretário de Planejamento, Orçamento e Gestão, Waldson de Souza, e da secretária de Saúde, Cláudia Veras. Esta última nomeada para assumir a Secretaria Executiva de Articulação Municipal.

Na mesma edição, o governador João Azevêdo (PSB) nomeou os substitutos para as pastas. Na saúde assumiu o médico Geraldo Medeiros que já foi diretor do Hospital de Trauma de Campina Grande e ocupava o cargo de secretário-executivo.

No Planejamento, Orçamento e Gestão assumiu interinamente Fábio Maia que já era integrante do governo. E no cargo de procurador assumiu o advogado Fábio Andrade que ocupava a superintendência da Sudema.

O governador também promoveu outras mudanças em cargos considerados estratégicos na estrutura administrativa do Governo da Paraíba. O detalhe é que as alterações aconteceram em funções até então ocupadas por pessoas ligadas ao ex-governador Ricardo Coutinho (PSB).

Amanda Rodrigues, esposa do ex-governador socialista, foi exonerada pelo governador João Azevedo da Secretaria Executiva do Empreendedorismo. Em seu lugar assume Fabrício Feitosa Bezerra, que deixa o cargo de Chefe de Gabinete.

O secretário executivo de Administração de Suprimentos e Logística, José Arthur Viana, foi exonerado do cargo e nomeado como Coordenador de Metrologia Legal do Instituto de Metrologia e Qualidade Industrial da Paraíba (IMEQ).

Ele também ocupou cargos na gestão de Ricardo Coutinho desde sua passagem pela Prefeitura de João Pessoa. Para o seu lugar, João Azevêdo nomeou Gabriel dos Santos Souza Gomes, que antes exercia o cargo de gerente de Gestão Pactuada da Secretaria de Estado da Educação e da Ciência e Tecnologia.

Em nota, por meio de seus advogados, o ex-secretário Waldson Souza disse que pediu seu afastamento do cargo de forma serena e tranqüila entendendo ser, a priori, medida sensata para a garantia da Governabilidade da Paraíba, para a salvaguarda da Ordem Pública e para contribuição com os trabalhos do Ministério Público no curso das investigações.

Como parte requerida, Waldson disse que pediu afastamento da função pública para “cumprir seu amplo exercício do direito de defesa e comprovação da, segundo ele, sua proba conduta e da licitude dos seus atos praticados no exercício de todas as funções até aqui desempenhadas”.

Mudança

O governador João Azevêdo também afastou pessoas ligadas a Ricardo Coutinho.

Repercussão na ALPB



A nova fase da Operação Calvário repercutiu na Assembleia Legislativa da Paraíba (ALPB) entre deputados de oposição. Alguns parlamentares que compõem a base do Governo do Estado na Casa, como Pollyanna Dutra (PSB) e Chió (Rede), preferiram não falar sobre o assunto. Para o líder da bancada oposicionista, Raniery Paulino (MDB), os mandados de busca e apreensão e os afastamentos de secretários de Estado deixaram a Paraíba mais próxima de passar a limpo a história envolvendo a Cruz Vermelha e o Governo do Estado.

“Também não podemos deixar de estranhar a conhecidência com o desmonte do atual governo, quando os principais secretários foram exonerados no mesmo dia de uma nova fase da Operação Calvário. Precisamos discutir e debater esse problema na Assembleia Legislativa”, exclamou o parlamentar.

O deputado estadual Tovar Correia Lima (PSDB) criticou a exoneração tardia de auxiliares do governo supostamente envolvidos na Operação Calvário. “Acordamos com uma nova fase da operação e coincidentemente com a exoneração de auxiliares que estariam envolvidos nessa organização criminosa, que é o caso Gilberto Carneiro e Waldson Sousa. O Governo age tardiamente, notadamente com base em informações vazadas para exonerar auxiliares de primeiro escalão na madrugada”, disse.

O parlamentar solicitou ainda que o Ministério Público apure o suposto vazamento de informações, pois isso pode acabar prejudicando essa operação.

Tovar afirmou também que a Calvário deve chegar ao ex-governador Ricardo Coutinho, que foi o articulador para trazer a organização criminosa Cruz Vermelha para a Paraíba. “O nosso estado está sendo passado a limpo. Nossas instituições, nossa justiça, que tenho ampla confiança, estão mostrando que quem comete crime é punido, independentemente do cargo que ocupa”, disse.

A deputada estadual Camila Toscano (PSDB) lamentou o desvio de recursos da saúde na Paraíba que está sendo revelada dentro da Operação Calvário. Para a parlamentar, a nova fase desencadeada ontem comprova que existe uma organização criminosa dentro do Governo da Paraíba responsável pelo desvio do dinheiro do povo.

“A Operação chega ao coração do Governo com mandados de busca e apreensão no Centro Administrativo e na Procuradoria Geral e isso mostra todo o envolvimento do Executivo nesse esquema criminoso que rouba dinheiro da saúde”, destacou a deputada.

Segundo a parlamentar, essa nova fase deixa muito claro o que já tinha sido revelado e também seus envolvidos no desvio de milhões do dinheiro dos paraibanos que estão nos hospitais em filas esperando por atendimento, esperando por uma cirurgia. “É de causar indignação como essa organização socialista roubava o povo na maior cara de pau. Por outro lado, é muito bom ver que a Justiça está sendo feita por meio de homens e mulheres íntegras”, disse.

Votações

Os deputados só voltam a se reunir agora na próxima semana com o retorno das sessões.

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