segunda, 18 de janeiro de 2021

História
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A coragem das mulheres na “revolução” de 1817

Adelson Barbosa dos Santos / 07 de março de 2017
Foto: Rafael Passos
Nas comemorações dos 200 anos da “revolução” de 1817, o Correio aborda hoje a participação das mulheres no movimento dos patriotas. Trabalho de pesquisa da professora Serioja Rodrigues Cordeiro Mariano aborda a coragem que algumas mulheres tiveram e a importante participação delas na “revolução” enquanto seus maridos, pais, irmãos e filhos estavam no campo de batalha.

O assunto é abordado pela professora Serioja no capítulo V do livro “A Paraíba no Século XIX: Sociedade e Culturas Políticas”, cujo título é “Mulheres que Lutam... Mulheres Silenciosas: Representação Feminina no Movimento de 1817 na Paraíba”.

Destaca que as mulheres se viram obrigadas a manter o patrimônio familiar confiscado pela Coroa Portuguesa. Segundo o livro, no mês de maio de 1817, as mulheres da cidade da Parahyba do Norte estavam em pavorosa com as prisões dos seus maridos, filhos, pais e irmãos.Para piorar a situação, sustenta Serioja, o governo monárquico decretou que todos os envolvidos na “revolução” teriam seus bens confiscados e leiloados em praça pública.

No dia 6 de março de 1817, os patriotas pernambucanos mataram o brigadeiro Manoel Joaquim Barbosa de Castro e conseguiram expulsar o governador da capitania, Caetano Pinto Montenegro. Era o início da revolução, que teve repercussão imediata na Paraíba.

Surgem em momentos estratégicos

No início de suas pesquisas, quando ela se debruçou na documentação para trabalhar com a família, política e relações de poder na Paraíba, com a documentação específica da insurreição de 1817, observou como as mulheres aparecem em momentos estratégicos. A historiografia, segundo ela, silenciou a história das mulheres na insurreição de 1817 e até a década de 1970 e não havia interesse em escrever sobre elas.

Sem entrar nas especificidades da insurreição, a doutora em História mostra a representação das mulheres no contexto de 1817, “os momentos em que elas têm vida e aparecem nos documentos”.

Serioja fala no livro sobre as mulheres que fugiam à regra da etiqueta do século XIX, do espaço privado da casa, e lutaram ao lado dos maridos. Ela destaca o exemplo de Ana Clara Coutinho, esposa de Estevam Carneiro da Cunha, que ofereceu sua propriedade (Engenho do Meio) com tudo o que tinha dentro- 40 escravos, 40 bois e utensílios importantes- para as despesas dos revolucionários. “Uma mulher considerada poderosa”, que passou a apoiar o movimento para ficar “ao lado do seu marido”, afirma Serioja, para quem Ana Clara tomou uma atitude radical.

Também cita Bárbara Pereira de Alencar, a matriarca da família que ficou conhecida como “República dos Alencar”. Nos documento oficiais da época, segundo a professora, consta o relato da prisão de Barbara Alencar e da Negra Vicência, sua criada. Bárbara era na Vila do Crato (CE). Foi presa, junto com a Negra Vicência na Fortaleza do Brum, em Recife.

Participação especial no processo

Quando os patriotas era presos, seus bens eram confiscados e leiloados em praça pública. Isso causou, segundo Serioja, desespero em algumas mães, a exemplo de uma senhora de Mamanguape, que escrevera para o filho na prisão, indignada porque, após a chagada dos realistas, “a primeira coisa que fizeram, foi mandarem sequestrar nossos bens”. Na carta, ela diz que pediu aos padres do governo restaurados para soltarem os negros e liberaram o restante dos bens.

“As esposas tiveram um papel essencial nesse processo, como aconteceu com as cônjuges de Amaro Gomes Coutinho e Estevam carneiro da Cunha, que conseguiram arrematar suas propriedades (co9nfirscadas) em 1819, com apoio financeiro de parentes e amigos”, frisa o livro de Serioja.

Em 1819, segundo ela, Ana Clara Coutinho conseguiu arrematar o Engenho do Meio, propriedade do seu marido por 2 contos e 130 mil réis. Na família Freire, narra Serioja, a esposa de João Luiz Freire alegara que era a principal arrematante de gado sequestrado no Engenho Avudinha, “e, dessa forma, justificava que, como os bens lhe pertenciam, o juiz não poderia levá-los a leilão”.

Na Família Albuquerque Maranhão, os bens pertencentes a José Olanda foram sequestrados, segundo Serioja, em 24 de maio de 1817. Porém não se fez arrematação alguma “por ter justificado a mulher do reo que os escravos e rossados sequestrados fazião parte da Fábrica do Engenho Espírito Santo”, conforme documento da época. Justificou que era fiadora idônea e que qualquer prejuízo cabia a ela.

Em maio de 1819, Maria Francisca Pereira da Cunha e Inácia Francisca de Albuquerque Maranhão arremataram o Engenho Espírito Santo, pertencente à família delas, por 2 contos e 103 mil réis.

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