quinta, 21 de janeiro de 2021

Política
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Entrevista: O mundo depois da ascensão de Donald Trump à presidência dos EUA

Luiz Carlos Sousa / 05 de fevereiro de 2017
Foto: Rafael Passos
O professor Fredys Sorto, do Centro de Ciências Jurídicas da UFPB é mais uma voz a se levantar contra decisões que o novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump tem tomado. Fredys chega a considerar as iniciativas que agridem os direitos humanos, como o veto a imigração como um holocausto.  Nessa conversa com o Correio, Fredys Sorto, que é professor titular da UFPB e ensina de Direito Internacional diz que o Brasil pode se beneficiar das políticas de exclusão de Trump se apresentando como alternativa comercial e que a Europa vai retomar uma posição de protagonista no cenário internacional se algo não mudar. Para ele só após os cem primeiros dias de governo se terá uma impressão mais clara do que será a administração de Donald Trump.

- O que muda no equilíbrio de poder no mundo depois da ascensão de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos?

- Eu acredito que esse equilíbrio vai mudar, possivelmente, para pior. Minha impressão, pelas declarações e atitudes e pelo que vem sendo feito pelo novo governo, é de muita preocupação e nos encaminhamos para um mundo mias instável.

- Há sinais que indiquem essa instabilidade maior?

- Se olharmos os grandes estados com poder de destruição como a China, Rússia, Índia e Paquistão e o novo governo norte-americano fazendo declarações, comentários e contatos antes impensáveis – estou falando das declarações de Trump sobre Taiwan, algo preocupante porque a China é uma grande potência.

- A mudança será apenas do ponto de vista geopolítico?

- Não. Muda em quase todas as áreas, direitos humanos – as declarações do governo Trump são preocupantes com relação à tortura. Ele faz uma apologia ao crime, a tortura é crime. A questão do Acordo Transpacífico, que levou 4, 5 anos para ser selado e ele retirou os Estados Unidos numa canetada só.

- Há também a questão dos refugiados...

- É outro problema, uma questão gravíssima do ponto de vista humanitário, um holocausto. A Europa – como é um mosaico tem diferentes posições -, mas a posição da Alemanha é altamente elogiável, como é a posição do Canadá, que se manifestou publicamente abrindo as portas, como deve ser feito. Nesse pequeno espaço de tempo, Donald Trump conseguiu, ao Norte com o Canadá e ao Sul com o México, criar problemas.

- O caso do México é emblemático?

- Criou problemas com o México principalmente. E fez declarações extremamente agressivas e difíceis de serem executadas como ele quer. Obrigar os mexicanos a pagarem pelo muro,o que não foi aceito e depois dizer que os produtos mexicanos que entrarem nos Estados Unidos, país com o qual o México tem a maior relação comercial,  seriam taxados em 20%. Quem paga a conta? O consumidor norte-americano.

- O senhor acredita que em quanto tempo se terá uma ideia definitiva de como será o governo Trump?

- Em cem dias nós vamos ter uma posição mais clara sobre esse governo.

- O senhor acredita que um homem é capaz de mudar radicalmente a estrutura de poder em uma democracia como a dos Estados Unidos?

- Ele está levando a questão comercial para outros campos em que nem sempre a soma é como na Matemática. Mas veja que ele já tem um problema sério: aprovou um decreto proibindo a entrada nos EUA de pessoas de cidadãos a sete países e o que aconteceu? Primeiro houve uma reação internacional de rejeição o que é péssimo para um país  que precisa de alianças.



- A ONU considerou a medica como holocausto...

- Pois é. Isso por um lado. De outro já houve a primeira manifestação do Judiciário. É preciso lembrar que os Estados Unidos são o primeiro País que conseguiu fazer a engrenagem da teoria da separação dos poderes funcionar. Foi lá que começou a ser implantada a teoria que nasceu com John Locke e que passa por Charles Montesquieu – esse controle do poder pelo próprio poder. Ele já começou a perder. E é preciso lembrar que dentro dos Estados Unidos nem o próprio Partido Republicano, em peso, apóia a política dele.

- Quer dizer que as medidas correm risco?

- Agora que ele tem crédito com seu eleitorado, mas esse capital pode vir a sofrer danos, um desgaste muito grande e ele vai ter que enfrentar o Congresso.

- O que explica o eleitorado norte-americano ter feito essa opção por ele?

- Não houve tanto encantamento do eleitorado pelas propostas dele. O que houve foi uma estratégia bem montada por parte da equipe, pelo menos em estados – alguns deles eram decisivos e eram democratas. Ele foi esperto. São estados que perderam indústrias, que as pessoas perderam empregos, o nível de vida que antes tinham, então é muito fácil falar: os Estados Unidos em primeiro lugar, os empregos vão voltar. Agora é complicado, porque o País vive do comércio e é preciso que alguém compre. Saindo dos acordos comerciais e impor é complicado. O que faz a grandeza é o diálogo.

- E diálogo é algo que ele não quer?

- Ele na verdade está desconstruindo. A relação com a Europa não está boa. E isso pode não ser bom para os Estados Unidos, porque a Europa pode reivindicar um protagonismo que há muito tempo ela não tem. É prematuro para a gente fazer afirmações, mas o cenário é muito preocupante. Essas atitudes são o preâmbulo de uma tragédia, de militarização, de guerras. Se os Estados Unidos continuarem com essa política vai chegar  momento em que sentiremos pena do Trump.

- Por que pena?

- Porque, não é só a credibilidade internacional que foi construída durante décadas que está sendo desmontada, mas ele está desmontando acordos comerciais, está se lixando para o que dizem as normas do Direito Internacional em relação a Direitos Humanos. Fazer uma declaração de que a tortura pode ser uma boa maneira para ser resolver as coisas é de uma gravidade.

- É quase um salvo conduto para o crime oficial...

- E quando ele aprova essas normas, ele na verdade converte os funcionários da Alfândega em grandes autoridades, porque são eles que decidem: você vai entrar porque eu fui com a sua cara.  Ver pessoas já com o Greencard não poderem entrar – como foi dito num primeiro momento e não se confirmou por causa do Judiciário. Acredito que se a política continuar nessa direção, o Judiciário terá um papel muito importante para delimitar o poder dele.

- Como ficam as relações do Brasil com os Estados Unidos?

- Não saberia dizer se o Brasil seria prejudicado ou beneficiado. Pode ser beneficiado. O Brasil é diferente da China, da Rússia. Temos uma democracia que merece muitas críticas, mas é um País que está na linha democrática. Mas acho que é uma incógnita. O Brasil não é o México, não está em um acordo comercial. E O Brasil também tem diversos parceiros comerciais, como a China, o Mercosul  e a Europa. Então, se o Brasil diversificou o comércio, fica menos vulnerável a essas políticas do Trump

- O México será mesmo o grande prejudicado?

- O comércio do México é quase que unicamente com os Estados Unidos e construir muros não resolve. Muros caem. E lembrem-se: se há muros, também há túneis. E para se chegar aos Estados Unidos não é preciso ir por terra. As pessoas vão mudar a rota. Não é preciso ir pelo México. Vai por outros países e pelo mar. Veja que a imigração na Europa não é por terra, mas pelo mar. Essa ideia do muro é desnecessária, agressiva a tudo que foi construído em termos de Direitos Humanos, de civilização. Nós progredimos muito – claro que não estamos no ideal -  mas houve muitos progressos. Aqui na América mesmo temos a Corte Interamericana de Direitos Humanos – que não é ao ideal, mas tem uma importância significativa na proteção e no controle das garantias fundamentais.



- As ideias de Trump de re-industrialização não são um retrocesso ao patamar que os Estados Unidos alcançaram de protagonistas de conhecimento e não mais de parques fabris?

- A indústria automobilística estadunidense não é o paradigma, já que quem quer comprar um bom carro pensa num carro japonês.

- Pode até voltar a ser um paradigma, mas com uma tecnologia nova?

- Pode ser o carro movido a energia limpa. Aí é outra história. Mas trazer os empregos da maneira que ele quer. O que vai acontecer? Se ele fizer isso vai encarecer os produtos, uma vez que a mão de obra norte-americana é muito mias cara. E com essa retirada dos Estados Unidos dos acordos de comércio, o que vai fazer é abrir as portas para outros atores internacionais, inclusive Brasil e China.

- O senhor acredita que surgirá alguém para dizer que não é bem assim?

- Acho que a Europa, a Angela Merkel . Agora depende muito das eleições. Ela fez uma aposta muito forte com a questão dos imigrantes, que eu acho louvável. Há um perigo, porque não se deixa passar apenas as pessoas que estão precisando. Há os que passam para fazer danos, como é o caso dos terroristas. Mas ela fez uma aposta louvável e a Alemanha que tem o passado nazista está dando uma demonstração de grandeza.

- Como o senhor avalia as posições da Rússia e da China?

- São estados mais cautelosos. A China, mesmo com aquele telefonema do Trump para a líder de Taiwan, não foi para cima. Eu acho que há outros estados mais perigosos, como a Coreia do Norte.

- Um País que parece tão insignificante?

- Exatamente por isso. Um País fechado que tem um arsenal militar capaz de atingir os Estados Unidos e de destruir a Coreia do Sul e outros vizinhos. Nesse campo, o papel da China é muito importante como mediadora. Não apostaria minhas fichas de que o líder norte-coreano vai ficar de braços cruzados se for posto em xeque.

- E a Rússia?

- Sempre foi uma política de “bate e assopra” entre Estados Unidos e Rússia, a guerra fria, a ideia de nunca ir além de determinado ponto, porque as lideranças sabem das conseqüências e há diplomatas competentes nas negociações. Além do que são países que, do ponto de vista jurídico têm direito de veto no Conselho de Segurança da ONU. Outra coisa importante: o Putin está muito mais próximo do Trump do que da própria Hillary. Próximos no sentido de interesses  políticos e econômicos .

- Como o senhor vê essa “onda conservadora” em vários países?

- Se fosse uma “onda conservadora” no sentido político até que não seria tão danosa, mas vai além disso. É de ódio, de aversão, vai de encontro ao direito das pessoas circularem pelo mundo. Estamos, infelizmente, com essa ascensão em alguns países europeus.

- Tende a incentivar o afastamento e não o congraçamento entre os povos...

- No caso da Europa é preciso lembrar algumas coisas: se nós compararmos a União Europeia com um trem, a Grã-Bretanha nunca foi a locomotiva. As locomotivas sempre foram a Alemanha e a França. E eu acredito que a Alemanha tem um papel importante na preservação do que foi essa construção, porque a Europa nasce dos acordos comerciais, mas é presa a essa questão da livre circulação de pessoas.

- Em relação ao Oriente Médio, como o senhor imagina que será o governo Trump?

- Não vejo solução a curto prazo. Com  ascensão do Trump, acho que as coisas pioram. Veja o que está acontecendo na Síria. É algo impressionante e parece que não é com esse mundo, são notícias de Marte, pessoas morrendo aos montes, crianças. Isso é de partir o coração. Isso é um verdadeiro holocausto e os líderes mundiais fazem de conta que não é com eles. Estamos vivendo num mundo muito caótico.

- E Israel?

- Israel é um problema por conta das lideranças. O primeiro-ministro está soltando foguetes com a eleição de Trump, que é diferente do Obama, cuja posição era muito mais firme em relação a essas políticas de exclusão. Não vejo uma solução para o caso entre palestinos e israelenses a curto prazo. Tudo preocupa.

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