terça, 19 de janeiro de 2021

Política
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Desistência de Cartaxo o governo pode ter elo com o passado

Adelson Barbosa dos Santos / 04 de março de 2018
Foto: Assuero Lima
A decisão do prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo (PSD), de não realizar o sonho de disputar o Governo da Paraíba, tem um elo com o passado até certo ponto recente, quando outros políticos, igualmente competitivos, abriram mão da disputa alegando, por exemplo, falta de apoio, ausência de unidade partidária, esfacelamento do grupo político, mágoas em disputas acirradas, ações na justiça, entre outros motivos.

Foi e assim com Humberto Lucena, em 1986; com Ronaldo Cunha Lima, em 1998 (ambos para governador); com Lúcia Braga, em 1992 (para prefeita de João Pessoa), que foi impugnada pela Justiça porque queria perpetuar a família no poder.

Em 1988, seu marido, Wilson Braga, havia sido eleito. O PMDB entrou na Justiça e impugnou a candidatura alegando que ela, como esposa de Braga, se eleita, teria um governo de continuidade. Foi obrigada a desistir e colocou Chico Franca na cabeça de chapa. Foi vitorioso. Foi assim também em 2012, com Luciano Agra, então prefeito de João Pessoa. Em 1985, o PMDB era o maior e mais influente partido da Paraíba. Reunia as maiores lideranças: Antônio Mariz, Humberto Lucena, Ronaldo Cunha Lima, Ivandro Cunha Lima, Roberto Paulino, Edvaldo Motta, José Maranhão, entre outras. O governador era Wilson Braga (PDS). A sucessão estadual, cujas eleições ocorreram no ano seguinte, 1986, estava sendo gestada.

Humberto Lucena tinha a chance de realizar o sonho de ser governador da Paraíba, assim como foi seu avô, Solon de Lucena, em 1916. O nome de Humberto era unanimidade no partido. No entanto, alguns peemedebistas achavam que ele não tinha a simpatia do eleitorado.

Fora

Histórico no PMDB, Humberto Lucena seria a bola da vez nas eleições de 1986. Não teve espaço.

Senador deixou pela unidade

Humberto, lembra sua filha a ex-deputada Iraê Lucena, só abriria mão da candidatura para Antônio Mariz. Mas foi convencido de que Tarcísio Burity reunia as melhores condições de vitória.



Em nome da unidade, Humberto desistiu e Burity foi eleito. “Humberto era o candidato natural do PMDB em 1986 ao Governo. Mas ele foi convencido a abrir mão do sonho para Tarcísio Burity”, destacou Iraê Lucena.



Há quem diga que, em 1998, a Paraíba não teve disputa eleitoral. Na época, o governador era José Maranhão. Ele foi vice de Antônio Mariz, eleito quatro anos antes, em 1994, ao derrotar Lúcia Braga,que teve a campanha envolvida em um esquema de carros roubados, cujo comando foi atribuído a um candidato a deputado federal chamado Gesner Caetano. Mariz morreu oito meses após ser empossados e Maranhão assumiu. Como tinha direito à reeleição, lançou seu nome em 1998, mas tinha uma pedra no sapato: Ronaldo Cunha Lima. Aliado de Maranhão, ele resolveu enfrentá-lo nas convenções do PMDB e levou pior.



O grupo Cunha Lima, rompido com Maranhão, ficou impedido de lançar candidatos e de fazer campanha contra. Se fizesse, os Cunha Lima poderiam ser acusados de infidelidade partidária e, se fossem expulsos do PMDB, poderiam ter prejuízos eleitorais grandes. Resultado: um aliado dos Cunha Lima, Gilvan Freire, então filiado ao PSB, resolveu enfrentar Maranhão na disputa e levou uma surra de votos.



O caso mais recente se deu em 2012. Em 2010, Ricardo Coutinho era prefeito e rompeu com José Maranhão, então governador, para enfrentá-lo nas urnas.

Desconfortáveis

Maranhão tirou Ronaldo da disputa em 1998 e ficou praticamente sem concorrente e com a legislação a seu favor. Os Cunha Lima foram obrigados a dizer que o apoiavam, embora tenham votado contra.

“Luciano vota em Luciano’’

Ricardo deixou a Prefeitura em 2010. Quem assumiu foi seu vice e homem de confiança, Luciano Agra, do mesmo partido, o PSB. Ricardo derrotou Maranhão e seu esquema político ficou com o governo e a prefeitura.



Nas eleições de 2014, Agra pretendia ser candidato à reeleição, mas foi vetado pelo grupo mais fiel a Ricardo dentro do PSB. O prefeito se viu acuado e sem chances. Só teve uma alternativa: desistir de ir para a disputa eleitoral e romper com Ricardo.

Impedido pelo PSB de disputar a reeleição e rompido com Ricardo, Agra resolveu se vingar: declarou apoio a Luciano Cartaxo (PT), que estava na disputa pela prefeitura com Estela Bezerra (PSB), José Maranhão (PMDB) e Cícero Lucena (PSDB). Com o apoio de Agra, Cartaxo foi eleito. Com o slogan: “Luciano vota em Luciano’’. Foi reeleito em 2016, derrotando Cida Ramos (PSB), no primeiro turno.

Desde o fim do ano passado, Cartaxo, que pretendia chegar ao Palácio da Redenção, passou a cobrar uma definição dos pretensos candidatos oposição. Além dele, estavam postos os nomes de Romero Rodrigues (PSDB) e José Maranhão (MDB), além de Cássio Cunha Lima (PSDB). Mas a oposição não o ouviu Cartaxo. Ele falava janeiro, Romero e Cássio diziam abril. O tempo foi passando. Maranhão caiu fora e se lançou candidato. Cansado de esperar, Cartaxo deixou chegar março e comunicou que estava fora.

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