sábado, 05 de dezembro de 2020

Política
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Checagem e correções não abalam crença das pessoas em fake news

Redação / 23 de outubro de 2018
Foto: Reprodução
Checagens e correções não abalam a crença das pessoas em notícias falsas no período eleitoral. Essa é a conclusão de um estudo sobre o potencial de influência das fake news nas eleições.

A primeira parte da pesquisa, feita em maio, com notícias falsas sobre o PT mostrou que, entre aqueles que acreditam nas informações inverídicas, a correção, mesmo vinda de veículo profissional de imprensa, teve pouco impacto. O mesmo experimento, repetido em outubro, mostrou que desmentir foi inócuo.

A pesquisa é uma parceria entre a Universidade Federal de Minas Gerais, a Universidade Federal de Pernambuco, e as universidades Emory e da Carolina do Norte (EUA). “Durante a eleição, qualquer informação dificilmente é desconstruída”, diz Felipe Nunes, um dos pesquisadores da UFMG. “Por isso as campanhas estão interessadas em gastar milhões distribuindo fake news.”

O estudo mostrou a eleitores mineiros quatro fake news positivas e quatro negativas sobre o PT. Entre as positivas, estava uma fala do papa Francisco afirmando que o maior crime de Lula (PT) foi ter lutado contra a fome. Nas negativas, a informação de que a senadora Fátima Bezerra (PT-RN) queria autorizar wi-fi em presídios.

Em maio, um terço dos entrevistados foi submetido apenas a fake news; um terço teve acesso à correção feita pelo partido ou alvo; e outro terço, à checagem do portal UOL –veículo do Grupo Folha, que edita a Folha de S.Paulo.

No primeiro grupo, 44,9% das pessoas acreditaram nas notícias falsas positivas e 35,2%, nas negativas. Quase não houve diferença para o segundo grupo, que teve as notícias desmentidas: 44,7% e 35,7% acreditaram, respectivamente.

Quando a checagem é profissional, há impacto entre as notícias falsas positivas. A parcela que acredita cai para 37,1%. Porém, entre as negativas, o índice muda pouco: 33,1%. “Quando está falando mal, a pessoa acredita mesmo que se desminta. Mas quando tem uma notícia boa e o UOL corrige, a pessoa confia porque já pensa que política não pode ter notícia boa.”

Em outubro, o experimento foi só com dois grupos: o que não teve as notícias desmentidas e o que teve a correção. A crença na informação falsa se mantém intacta.

Acreditaram nas notícias falsas positivas 35,4% no primeiro grupo e 36,3% no segundo. Para as negativas, o resultado foi 32,3% e 34,2%.

Para Nunes, o resultado no período eleitoral foi surpreendente. “As pessoas têm tanta certeza e convicção que dizer a elas que é mentira não faz a menor diferença.”

O resultado traz um alerta do potencial das notícias falsas e de que o esforço de combatê-las com a verdade é inútil entre convertidos. Segundo o pesquisador, a solução está nas mãos das campanhas.

“Vamos ter que caminhar para um pacto para não usarem o mecanismo. Ou as campanhas começam a combater esse mal ou dificilmente teremos eleições não determinadas por notícias falsas.”

Para avaliar se a correção das fake news ao menos abalava o nível de crença nelas, ainda que não mudasse a opinião do entrevistado, a pesquisa mediu o grau de ceticismo das pessoas. Assim, a força da crença foi graduada de -3 (muita certeza de que é a notícia falsa) e +3 (muita certeza de que é verdadeira).

“Na média, houve uma tendência a achar que as notícias eram falsas”, afirma Nunes.

Nos grupos que tiveram a correção via partido ou via UOL, o índice de ceticismo foi mais expressivo –os entrevistados acreditaram nas fake news com menos força. A crença só não foi afetada entre as notícias positivas desmentidas pelo próprio alvo.

Em outubro, no entanto, a força da crença quase não se alterou com a checagem. “Apesar de as correções não alterarem de forma expressiva a crença, elas deixam as pessoas mais céticas com relação à veracidade”, conclui Nunes.

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