domingo, 17 de janeiro de 2021

Política
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A revolução das máquinas é uma realidade

Luiz Carlos Sousa / 01 de janeiro de 2017
Foto: Rafael Passos
A revolução das máquinas já está presente hoje no dia a dia das pessoas. O trabalho que exige esforço e pode ser repetido está sendo feito pelos robôs que substituem o homem com mais eficiência e rapidez. Para o professor Sul-Africano Gavin McLachlan, estamos na Quarta Revolução. Em recente visita à Paraíba para participar de um evento em Campina Grande, McLachlan  recebeu o Correio  para uma conversa sobre tecnologia e futuro. Ele, que também é jurista, disse que o advogado que pega uma causa compara com a realidade e diz que a resposta desaparecerá nos próximos 20 anos, porque a máquina já é capaz de fazer isso. Só aquele que agregar valor e gerenciar riscos sobreviverá. Para Gavin McLachlan, a tecnologia não é a solução dos problemas, mas uma excelente ferramenta, que para ser bem utilizada precisa de Educação.

- Como o Direito está administrando o ideal de arbitrar os conflitos gerados pela tecnologia da informação?

- Eu vi ao Brasil exatamente porque a mediação de conflitos no Brasil tem muito a ensinar a África do Sul.

- Apesar da mediação no Brasil ser algo incipiente?

- Há dez anos que a África do Sul está tentando implementar a mediação e agora finalmente conseguimos trabalhar com um grupo de ingleses. E junto com os ingleses acredito que colocaremos em funcionamento nos próximos meses. Temos um problema semelhante ao Brasil no que diz respeito ao acesso à Justiça: os mais humildes, também menos favorecidos, têm menos acesso à Justiça.

- Apesar do sistema informatizado?

- Com o sistema online os custos caem vertiginosamente e aí se pode fazer o auxílio judicial chegar a uma pessoa que está a 2 mil Km de distância, o que hoje não conseguimos.Com o sistema implantado, para um processo ser resolvido, segundo estimativas do Reino Unido, leva-se 15 a 16 meses em média, embora haja casos em que a solução vem antes desse tempo.

- E no caso da mediação, qual o tempo?

- A Amazon – o gigante norte-americano de vendas – media online dos 60% dos conflitos: o sujeito compra um livro e não gosta, chegou com defeito, coisas assim. São 60 milhões de acordos. Jamais fariam 60 milhões de processos judiciais.

- Que novos conflitos o senhor identifica como trazidos pela tecnologia e que o Direito ainda não conseguiu encontrar solução?

- O problema maior é a identificação: você diz que é você, mas do outro lado não há a certeza. Os certificados digitais, que já temos no Brasil, são uma solução, embora possa haver melhores. O problema das gravações não identificadas também padece de se saber quem está falando. Hoje há necessidade de procedimentos periciais para se identificar se é quem realmente é a forma de se trabalhar para garantir que essa pessoa que está a 2 mil Km, 3 mil Km de distância com quem você está negociando,fazendo um contrato é realmente aquela pessoa. Esse problema da identificação é recorrente no mundo inteiro.

- Esse desenvolvimento tecnológico mundial possibilitará um equilíbrio mais solidário entre os povos?

- Tecnologias bem empregadas e com capacitação para as pessoas podem ser um instrumento de aprimoramento da democracia e com esse aprimoramento desaguar num equilíbrio econômico, com menos desigualdades.

- Algo advindo da tecnologia ou com ela o preocupa?

- A concentração de poder no Vale do Silício na Califórnia. Temos a tecnologia aplicada na vida do cidadão como um fator que aprimora a democracia e, portanto, tem a condição de trazer à economia para menos desequilíbrio. Mas se todo esse avanço é em apenas um lugar é muito arriscado.

- Com qual o exemplo o senhor ilustraria isso?

- A CNN. Não podemos ter tudo ligado à comunicação sendo da CNN, que acaba querendo se estabelecer como o “portador da verdade”, um monopólio como outro qualquer. Essa concentração de empresas de tecnologia da informação no Vale do Silício é prejudicial, porque significa controle.



-Eles não estão sempre um passo à frente no Vale do Silício em tecnologia e esse conhecimento não é difícil de distribuir democraticamente?

- Acredito que sim por que o broadcasting emissor não é necessariamente a companhia, que pode ser até ser a plataforma, mas é você quem transmite. Por exemplo, no caso da notícia: o gerador é o cidadão, não há mais um monopólio na mão das empresas. Então, o pólo de emissão está liberado, não está sob o controle de uma companhia, que dominava a atividade é uma forma de descentralizar a produção de conteúdo.

- Como enfrentar uma potencia como a CNN?

- Paridade de armas. Na África do Sul ela queria velocidade de internet maior. E o governo barrou: aqui se você quiser competir a velocidade é igual para todo mundo. Faça a diferença no conteúdo.

- Há experiências em andamento em algum país que mostre que é possível fugir a essa concentração?

- Por exemplo, em Uganda. Há um serviço de consulta jurídica feito em Uganda para a população de baixa renda. Baseado em Uganda, feito em Uganda, plataforma lá para atender cidadão ugandense. Conteúdo local.

- Esse monopólio e esse domínio não são características de mais um ciclo econômico e que só serão superados quando outro ciclo se estabelecer?

- Eu discordo da revista “The Economist” que diz que essa economia gera cada vez menos valor. É possível que isso aconteça em sociedades onde o desenvolvimento social já amadureceu, que a cadeia de produtividade signifique cadeia de números, mas não para a realidade da África do Sul nem do Brasil que tem uma situação muito parecida com a nossa sul-africana.



- E quanto aos ciclos econômicos?

- Não acredito que esse desenvolvimento agora seja apenas mais um ciclo porque mudou demais a vida de muita gente. Outros ciclos mudaram a vida de muita gente e certamente muito rapidamente também. Mas agora é uma mudança muito profunda: um medicamento que nunca chegou hora nenhuma a ninguém e agora chega, é a informação que nunca chegou e agora chega. Acredito que esse povo não abre mais mão do avanço social que a tecnologia construiu.

- O avanço tecnológico não nos leva a uma situação de controle maior por parte do governo?

- O governo já controlou, controla e vai continuar a controlar, agora de forma fragmentada. Em países com alguma tradição democrática, por exemplo a África Do Sul, que já tem alguma tradição democrática – o grau de liberdade que o cidadão tem, ele não vai mais abrir mão. Então, qualquer movimento do governo para ultrapassar essas garantias – embora o conflito exista sempre – o cidadão reagirá.

- Os Estados Unidos foram denunciados por Edward Snowden no caso da espionagem de chefes de estados amigos; o WikiLeaks está inundando o mundo com documentos secretos de vários governos expondo o poder dos países – muitos deles democráticos. Como o cidadão pode se defender desse poder do Estado?

- Edward Snowden e o WikiLeaks são exatamente exemplos da resistência que é possível. O Estado com todo o poder, com todo o aparato que você citou não conseguiu o WikiLeaks. Então, se há alguma forma do cidadão se defender é a coragem de denunciar. É inevitável que o estado faça isso e, em algumas situações o Estado vai ganhar – China, Coreia do Norte venceram essa batalha. Mas na democracia, o cidadão vence.

- Que papel o senhor acredita que as redes sociais desempenharão, uma vez que elas permitem mobilização imediata e difusão de uma informação em velocidade nunca vista antes?

- É o papel de canal não moderado e é um dos fenômenos que impossibilitam o governo, com todo o poder, de tentar parar um movimento.

- O senhor faria um exercício de futurologia sobre aonde chegaremos com tanta tecnologia?

- Não vejo uma mudança significativa no suporte da comunicação. A mudança que estou convencido é a de compartilhamento. Acredito , inclusive, que a comunicação através do papel e o diálogo entre as pessoas sobreviverão de todo jeito. A revolução é a forma de compartilhar instantaneamente.

- Podemos dizer que a revolução que já foi por guerra, por estética, por ideologia ou por religião, agora da comunicação?

- É a quarta revolução, a revolução das máquinas. Tenho preocupação com minha profissão de advogado, que pode ser tomada pela máquina num futuro próximo.



- E a Filosofia? E o questionamento que o advogado faz?

- Já faz. O trabalho vai ficar para o advogado que agregar valor. Um advogado que há 20 anos olhava um caso, comparava com a realidade e dizia a resposta não serve mais de nada. Isso a máquina faz e esse advogado, nos próximos 20 anos, perderá o emprego. Agora o advogado que agrega valor e gerencia riscos, esses continuarão humanamente insubstituíveis.

- Filosoficamente, de onde vimos para onde iremos?

- Talvez o último passo continue sendo um passo do raciocínio pessoal, mas a construção de todo o trabalho, principalmente do trabalho que for menos semântico será terceirizado para as máquinas.

-Como o senhor analisa a convivência de problemas da era digital com problemas agrários, que muitos países, já informatizados, ainda não solucionaram como é o caso do Brasil?

- Não vejo a tecnologia sozinha resolvendo um problema de desigualdade, mas é muito importante que a tecnologia auxilie definições sobre propriedades. Isso na África do Sul ocorreu muito. Um sujeito por não saber qual era sua propriedade outros se aproveitavam - também ocorreu no Brasil. Se a gente tivesse registros digitais bem definidos, isso seria uma revolução acabando com o cartório de registro imobiliário. Seria uma cadeia de confiança autônoma gerada na qual o da frente certifica o seguinte e assim por diante.

- O poder mudou de mãos? Deixou de ser do proprietário da terra para passar para quem dominar a informação?

- Não fica perfeito, mas fica melhor. Eu vejo a tecnologia não como perfeição, mas diminuindo distâncias, distribuindo as coisas de uma forma mais equitativa.

- Para dominar a tecnologia é preciso Educação e há ainda muita carência no acesso à escola...

- É uma questão de justiça social. A tecnologia não é a solução, mas uma ferramenta que tem que ser utilizada e só atingirá um bom resultado por quem tem no coração uma ideia minimamente aceitável de justiça social. E isso sem educação não é possível.

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