sábado, 16 de fevereiro de 2019
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Vítimas de feminicídio deixam, em média, dois filhos pequenos

Katiana Ramos / 29 de julho de 2018
Foto: Antônio Ronaldo
Aurenides Maracajá teve que driblar a dor da perda da filha, assassinada brutalmente pelo ex-marido, para cuidar dos três netos. Órfãos de mãe e abandonados pelo próprio pai, autor do crime, Jussara, Augusto e Julianne cresceram sob o olhar de tristeza de muita gente e o dona Aurineide deixou o papel de avó em segundo plano. De acordo com a ‘Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher’, desenvolvida pela Universidade Federal do Ceará com o apoio da Onu Mulheres e Instituto Maria da Penha, as vítimas de feminicídio deixam, em média, dois filhos menores.

Dona Aurenides Maracajá sabe bem o impacto dessa violência na vida dos três netos. “Foi muita batalha, muito sofrimento, muita dor. Mas, eu soube suportar com resignação e tive que ser forte para criar eles. Foi uma luta muito grande, porque perdi minha filha daquela maneira tão triste”, disse a aposentada, ao recordar o assassinato da filha Rute Patrícia, morta a facadas aos 23 anos, em 1996, em Campina Grande.

Com apenas 1 ano e sete meses quando a mãe foi assassinada, Julianne disse que tem poucas lembranças do homem, pai dela, que tirou a vida da sua mãe. A estudante de Direito revela que, quando criança, dona Aurenides era a referência da mulher que ela gostaria de se tornar quando adulta. “Foi muita luta para criar eu e meus irmãos. Logo quando minha mãe foi assassinada apareceram famílias com boas condições financeiras para adotar a gente, mas ela não deixou. Ela chegou a vender os cabelos para comprar comida pra mim e para meus irmãos uma vez que a gente não tinha nada em casa. Então, pra mim, ela é uma força”, disse a universitária, hoje com 24 anos.

A responsabilidade das avós na criação dos órfãos da violência doméstica e do feminicídio simboliza também a presença do matriarcado daquelas que engolem o choro e a dor e tornam-se, novamente, mães. “Percebe-se muito a questão do matriarcado onde elas assumem mais a responsabilidade. Ao meu ver essa avó que recebe esses filhos vai está tão vulnerável quanto eles porque não existe uma rede que vá acolher essa avó, que está sendo mãe pela segunda vez”, disse a mestre em Educação e membro do Fórum de Mulheres da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Lourdes Teixeira.

Rotina de agressões

Vítima da violência doméstica praticada pelo ex-marido, Layse Batista conheceu cedo essa realidade. Quando criança, por diversas vezes, viu a mãe ser humilhada, ameaçada e espancada pelo homem com quem ela vivia. “Teve uma vez que ele correu atrás da minha mãe com um facão e ela correu pra dentro do mato. A gente morava num sítio. Depois, eu e minha irmã fomos procurar por ela, e ela estava chorando, com medo. Foi muito triste. Mesmo criança eu entendia que ela passava um sofrimento muito grande”, relembrou a jovem.

A mãe de Layse conseguiu romper com o ciclo da violência. Separou-se do homem que a agredia e retomou a vida. Ainda criança, Layse observava tudo. Mas, não imaginaria que, mais tarde, passaria pelo mesmo sofrimento. “Eu tinha vergonha de dizer para minha mãe o que eu passava. Mesmo ela tendo passado por isso, ela não entendia e eu tinha vergonha de contar. Porque as pessoas, de maneira geral, não tentam entender o que se passa quando a mulher sofre violência doméstica. Não perguntam o por quê de você está naquela situação. Só quem sofre sabe como é difícil sair. No meu caso, tinha dependência financeira, tinham os meus filhos”, contou.

Aos 21 anos, manteve um relacionamento com um homem 40 anos mais velho e o afeto demonstrado em público em pouco tempo foi trocado por ameaças, humilhações e violência física. Até que a jovem, que chegou a ser agredida nas duas gestações e ainda pressionada a abortar, decidiu reconstruir a vida longe da violência.

“Sempre o término de um relacionamento abusivo ele termina um ciclo de violência dentro do histórico da família. Então, há essa ideia de que a mulher vai ter que ser responsável por quebrar esse ciclo. A gente vê a reprodução daquelas lógicas terríveis como ‘apanhou porque quis’. ‘Ah, se fosse comigo eu agiria de tal forma para sair’, quando, na verdade, a gente tem que compreender que a culpa nunca vai ser da vítima”, defende a mestranda em Direitos Humanos e integrante do Fórum de Mulheres da UFPB, Juciane De Gregori.

Marcados pelo sofrimento

Julianne Maracajá era praticamente um bebê quando a mãe foi assassinada. No entanto, além da saudade, a perda violenta da mãe deixou seqüelas psicológicas na estudante, nos irmãos mais velhos e ainda na avó, que ficou com a responsabilidade da educação das crianças. “Na minha adolescência eu sofri com depressão e ansiedade. Foi muito difícil. Meus irmãos também sofreram muito. Minha avó também teve problemas psicológicos, sofreu dois AVCs e sempre lembra da minha mãe Foi muito difícil”, relatou a estudante.

Doutor em Psicologia e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Valdiney Gouveia reforça que a amplitude da violência doméstica alcança praticamente toda a família e que problemas psicológicos apresentados por crianças, sobretudo, que presenciam a situação são praticamente inevitáveis.

Além dos impactos psicológicos, a relação entre o pai, quando este é o autor do assassinato, e os filhos da vítima também fica fragilizada. No caso de Julianne, ela conta que a busca por justiça para que o assassino da mãe fosse punido, começou ainda na adolescência. “Quando eu me vi no fundo do poço, com depressão, decidi lutar por justiça e procurar o assassino da minha mãe. Depois que consegui e ele foi julgado e preso, fiquei mais aliviada. Não tenho ódio dele, não quis vingança. Apenas justiça”, relembra, que hoje atua ajudando mulheres em situação de violência.

“Os filhos terão no ato final a confirmação do juízo que foram elaborando de seu pai, consumando o afastamento e mesmo ódio do genitor. Entretanto, a relação dos jovens com os pais do agressor pode ser algo mais complexa”, complementou Valdiney Gouveia.

Crianças são testemunhas e vítimas

A ‘Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar’, elaborada pelos professores José Raimundo Carvalho e Victor Hugo de Oliveira para o Instituto Maria da Penha, revelou que, no Nordeste, uma a cada cinco mulheres já havia sido exposta à violência doméstica sofrida por suas respectivas mães durante a infância. Ainda conforme a pesquisa, 88,7% das mulheres pesquisadas, em todos os estados da região, soube e presenciou as agressões sofridas por suas mães.

Na opinião da pesquisadora Juciane De Gregori, as crianças que presenciam e sofrem a violência doméstica junto com suas mães já são estigmtizadas no ambiente familiar. Ela lembra que também é preciso considerar esse contexto ao se pensar em soluções de enfrentamento à violência contra a mulher.

“Já têm pesquisas americanas recentes que comparam os impactos no cérebro de crianças e adolescentes que ficaram expostas a violência doméstica ao impacto sofrido no cérebro de homens adultos que passaram por confronto de guerra”,detalhou a integrante do Fórum de Mulheres da UFPB.

Ela acrescenta que “elas já estão dentro de um ciclo de violência, numa situação de muita opressão. Essas crianças podem vir a reproduzir comportamentos violentos ou mesmo ter dificuldades de aprendizagem, relacionamento com os colegas, comportamento depressivo. Tudo isso vai sendo reflexo da violência a qual ela está exposta”.

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