segunda, 14 de outubro de 2019
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Vencedores do Prêmio Sesc de literatura conversam com o público

André Luiz Maia / 02 de julho de 2019
Foto: Divulgação
País das contradições, o Brasil fascina em nos colocar situações díspares em um mesmo contexto. Embora as taxas de leitura no país sejam muito abaixo do esperado e desejado, é cada vez mais acessível publicar um livro, seja por conta própria, por mudanças no mercado editorial ou na mudança de mentalidade nas equipes de curadoria e avaliação de seleções e prêmios.

Os casos de Tobias Carvalho e Juliana Leite podem servir para ilustrar este mosaico. Ganhadores do Prêmio Sesc de Literatura 2018 nas categorias conto e romance, respectivamente, são autores estreantes. Ele traz uma série de histórias sobre um jovem homossexual. Ela, a de uma personagem pouco destacada na literatura: mulher, costureira, trabalhadora, que precisa reaprender a lidar consigo mesma e com o mundo diante de um acidente de trabalho.

Ambos estão hoje em João Pessoa para conversar sobre literatura, tanto no quesito formal, de mercado editoral e processo criativo, quanto na relação com a palavra enquanto leitores. Para mediar este papo, está o também escritor e jornalista paraibano Tiago Germano.

O momento, na avaliação de Juliana, é importante para congregar leitores ávidos e lhes proporcionar caminhos. “Esses encontros são importantes para todo mundo que entende que contar histórias, contar a história da sua família, da sua vida, é uma forma de se afirmar enquanto sujeito. Quando a gente vai para um encontro desses, no fundo a gente está pensando sobre as nossas próprias narrativas, como nós construímos nossa própria voz. De uma certa forma, nós agimos como mediadores, entre o texto e o leitor. É como se oferecêssemos janelas para que os leitores entrem em contato com o mundo que existe na literatura. Vai muito além de falar de um livro”, conceitua a escritora fluminense.

Entre as Mãos conta a história de Magdalena, uma jovem tecelã que sofre um acidente grave e permanece em coma num hospital. Os procedimentos médicos e as intervenções em seu corpo são narrados pelo ponto de vista de seu companheiro, enquanto relembra cenas da vida a dois. Logo, porém, uma voz feminina emerge na narrativa. Pouco a pouco, assume o controle da história, revelando que a violência do acidente é apenas mais uma dentre tantas outras.

Ao decidir escrever o livro, Juliana foi mudando de ideia ao longo do percurso. “Eu queria fazer um livro sobre travessia, mas não sabia exatamente como seria essa travessia. Não pensava em falar sobre acidente, foi algo que simplesmente foi acontecendo”, relata. Dividida em três partes, a narrativa vai se metamorfoseando gradativamente, como reflexo do estado físico e psicológico de Magdalena.

“Na primeira parte, por exemplo, eu queria que de algum modo as frases expusessem a precariedade de um corpo acidentado, de um coração arrítmico. Frases curtas, comedimento no uso de conectivos. Já na segunda parte, os períodos se estendem um pouco mais e revelam um fôlego distinto para a voz dessa mulher”, explica.

No caso de Tobias, que também publica seu primeiro livro, As Coisas, o processo de criação também foi sendo definido ao sabor dos acontecimentos. “Eu já tinha 40% do conteúdo presente na edição final do livro quando decidi que queria publicá-lo. Usei o prazo do Prêmio Sesc de Literatura como meu deadline para escrever o resto dos contos”, revela o autor gaúcho.

Em divertido texto escrito para o Suplemento Pernambuco, ele conta que as resoluções do ano novo de 2017 eram escrever um livro, arranjar um namorado e mudar de casa. Das três, apenas concretizou a primeira.

As Coisas traz 23 histórias que cercam o universo de um jovem gay no Brasil. Seu intuito é descrever com franqueza o cotidiano em diversas situações, sem necessariamente se embasar no fato do protagonista ser homossexual para estabelecer uma ponte de diálogo.

"O livro tem um conto que fala da aceitação, mas em geral as pessoas esperam que livros assim sejam militantes, no sentido de entregar 'a verdade', de ter um papel social. Eu não estava me propondo a isso. Tem a perspectiva da sexualidade, mas também tem da internet, dessa geração", explica.

Com títulos como “Cantiga de roda”, “Maldito”, “As coisas que a gente faz pra gozar”, “Sauna nº 3” e “Arrebol”, os contos partem de uma perspectiva íntima, apresentando contextos que fizeram alguns dos leitores questionarem Tobias se As Coisas era, na verdade, uma autoficção.

Ele uma resposta mais filosófica. “Eu acho natural esse tipo de dúvida, já que algumas das histórias são narradas em primeira pessoa e às vezes os personagens não tem nem mesmo um nome, me acostumei. Acho que é uma ilusão acreditar que, mesmo que aquilo descrito tenha acontecido com o ator, seja uma representação real do que houve. Toda vez que você escreve, está apresentando uma versão própria, uma narrativa particular”, afirma.

"Um dos feedbacks que eu recebo é que as pessoas esperam encontrar histórias felizes, mas não estava querendo atender a nenhuma agenda com o livro." - Tobias Carvalho, escritor

"Muito antes de pensar em escrever, já buscava histórias que dessem destaque às mulheres. Percebi que tinha muitas, mas elas não eram celebradas." - Juliana Leite, escritora

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