domingo, 17 de novembro de 2019
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Trupe de Humor da PB estreia novo espetáculo

André Luiz Maia / 04 de janeiro de 2019
Foto: Divulgação
Um Pastoril Profano totalmente diferente do que os paraibanos já viram. Aliás, tão diferente que não dá nem mesmo para chamar de pastoril exatamente. A Trupe de Humor da Paraíba estreia hoje e apresenta durante os fins de semana da alta estação em João Pessoa seu novo espetáculo, A Escolinha Profana.

O que há de tão diferente? Para começar, o tradicional folguedo da cultura popular, incorporado às peças da companhia há muito tempo, sai de cena para dar espaço a um novo arranjo. “A gente queria experimentar outras formas de estruturar a peça, tentar sair de nossa zona de conforto. Essa foi uma das formas”, explica Edilson Alves, diretor do espetáculo.

O espetáculo é dividido em três atos, cada um no formato de uma “disciplina” específica na sala de aula. A primeira delas é  Educação Religiosa, ministrada pela professora Maria da Paz, personagem criada especialmente para o novo espetáculo, uma senhora de 55 anos, dócil, meiga e muito simpática. “O desafio dela vai ser ensinar assuntos religiosos e sacros para alunas totalmente profanas”, brinca Edilson Alves.

Em um segundo momento, o caminho é bem diferente, já que entra em ação outra personagem inédita: Gina Lolobrigida, uma espevitada e “prafrentex” professora de Orientação Sexual. Sem dúvidas, as meninas do Pastoril se sentem muito à vontade nessa aula. “A Gina trata sexo como algo primordial, essencial e fundamental nos dias de hoje. É uma provocação a esse conservadorismo exacerbado que a gente vê crescer cada vez mais”, aponta o diretor.

Por fim, vem a matéria de Conhecimentos Gerais, que abre gancho para a discussão sobre nosso sistema educacional como um todo. Dengoso, o gestor da escola, é chamado às pressas para cobrir a disciplina, já que o professor que passou em um concurso para ocupar aquele posto não foi convocado ainda. O palhaço velho, autoritário e disciplinador terá que lidar com a rebeldia debochada das beldades do Pastoril, rendendo risadas para o público. "É bom lembrar que essa é uma discussão não só sobre a escola pública. Esse tipo de dilema acontece também no ensino privado, dito 'de qualidade'. É bom lembrar disso", acrescenta Edilson Alves.

Em cena, personagens já conhecidas do grande público, como Verinha Show (Dinart Silva), Maria Dubu (Tony Silva), Irmã Luzinete (Sérgio Lucena), A Mudinha (Alessandro Barros), Selma Camburrão (Raymon Farias) e Verônica Show (Aluisio Sousa). “Desde a comédia medieval, existem grupos que usam os mesmos personagens em vários espetáculos de teatro. Decidimos então propor uma nova dinâmica. O público já nos pedia uma nova edição do Pastoril De Volta às Aulas, então estamos fazendo um novo formato de escolinha, com uma pegada mais crítica, mas sem abandonar o escracho”, explica Edilson.

É interessante salientar o viés do novo espetáculo. Não que o grupo já não pincelasse aqui e ali, desde quando era Companhia Paraibana de Comédia, temáticas sobre a sociedade, com alfinetadas e comentários ácidos sobre o cotidiano, mas aqui parece que o tempero está mais acentuado. A atual situação do Brasil está no cerne do espetáculo.

“A gente queria ‘brincar’ com a situação atual do Brasil, sobre essa questão ideológica em cima de gênero, educação. Fazemos uma grande crítica nesse espetáculo e já tiramos a prova nos ensaios abertos, em que o público ri com as tiradas que já conhecem, mas também refletem sobre o que a gente comenta”, conta o diretor. A cena inicial da peça já dá o tom do que o público pode esperar vindo do Pastoril Profano: uma sátira ao hino nacional, falando sobre temas como Petrobras, armamento e situações políticas.

Como dá para notar, A Escolinha Profana não suaviza, tratando diretamente de assuntos divisivos, que causaram estremecimento de relações, brigas e discussões acaloradas em 2018. Como a companhia espera que o público reaja ao ver isso tudo em cena com doses volumosas de sarcasmo, deboche e acidez? “Bom, eu só torço para que a gente não seja preso! (risos) A gente tem consciência de que não é um desafio fácil, mas acho que mesmo os eleitores de nosso presidente conseguirão entender o que a gente está tentando passar na peça”, completa o diretor.

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