domingo, 17 de janeiro de 2021

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Transposição do São Francisco era “sonho de consumo” da população de Ouro Velho e Prata

Renata Fabrício / 10 de março de 2017
Foto: Chico Martins
A compra de água já se tornou habitual nas cidades de Prata e Ouro Velho. Assim como na maior parte do Estado, a crise hídrica também atingiu os moradores desses municípios. Em Prata, a prefeitura instalou poços públicos, e quem precisa de água a mais compra galões de mil litros que estão à venda diariamente no Centro da cidade. Em Ouro Velho, a situação é ainda pior. Segundo os moradores, com o açude Sumé em colapso, a população ficou sem abastecimento e quem tem alguma condição foi obrigado a se render à compra de caminhões-pipa.

O funcionário público José Dejamar Guedes dos Santos, 60, diz que as águas do São Francisco viraram um “sonho de consumo” para os moradores. “A gente compra água cara, pra poder beber. Compramos de carro particular. Por mês compro uns três tambores de água. Na Prata toda o rojão é esse. Não tem mais água na torneira, só quando chegar o sonho da água do São Francisco, que dizem que está perto”, conta.

Segundo ele, ninguém havia se preparado para o colapso no abastecimento e precisou improvisar a vida. “Faz uns dois meses que faltou água no Congo, e não tem mais água. Quem danado tá se preparando para um negócio desse? É o maior desastre que pode acontecer numa cidade. Não só aqui. Eu acho que isso tá acontecendo no Brasil todo. A água do São Francisco vai ser um sonho realizado para a gente. É só o que se comenta aqui na cidade. Ainda é um sonho e a gente tá até sem acreditar que ela vem mesmo. Mas agora que já passou de Sertânia, já está todo mundo confiante que o sonho vai se tornar realidade”, disse.

Em Ouro Velho, o cenário é praticamente igual. Quando perguntado sobre a Transposição, o microempresário Cláudio Manoel Sebastião, 56, diz que está confiante de que só precise comprar por mais um carro-pipa. “Faz dois meses que a Cagepa não solta mais água para a gente, e estou tendo que comprar. Mil litros é suficiente para minha casa, porque moro só. O povo confia que depois que a água chegar em Monteiro vai pro Congo e segue pra cá, pra Ouro Velho. Estou confiante que eu só precise pagar por mais um pipa”, acredita.

Na zona rural o povo confia, desconfiando

Maria de Lourdes Menezes já está com 73 anos. Até pouco tempo, a moradora do sítio Carnaíba preparava a terra para a chegada das chuvas. Para ela, a Transposição é mais uma lenda que ouvia da avó. “Aqui a água tá igual aos outros cantos, sem água. Dessa Transposição, será que vai chegar? Tem fé de chegar? Eu já estou com 73 anos e não era nem nascida quando já tinha esse projeto, e eu menina, já falavam lá em casa. É velha essa história de água, mas pode até acontecer. Dizem que está em Pernambuco chegando em Monteiro, mas eu bem que queria ver antes de morrer”, conta.

Perto dali, o agricultor José Bernardo, 83, disponibiliza a água do poço particular, que tem uma vazão de mil litros por hora, para quem quiser beber. “Tenho um poço que deixo o povo pegar água pra beber. Esse nosso problema é recente, de três, quatro anos de seca que estamos mal. Acredito muito na Transposição. E vai chegar mesmo. Eu nem faço promessa pra nada, porque sei que a água chega”, acredita.

Para ele, o povo precisa aprender a racionar e valorizar a água, mas ao mesmo tempo que confia nas obras do Governo Federal, seu Bernardo acha que as previsões para o Cariri podem surpreender. “O povo só lembra de Deus na hora que está morrendo, mas quando tem água gasta tudo. Estou confiante na Transposição que vai chegar já. Se não chegar, o povo tá morto. A gente vai beber o quê? A última boa chuva já faz quase dez anos. Se bem que eu tô achando que os açudes vão encher é com água de Deus mesmo. E quando chover, vai chover que vai levar gente”, conversa, enquanto olha para o roçado que plantou para dar de comer aos animais.

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