sábado, 23 de fevereiro de 2019
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Ser Tão Teatro volta a encenar ‘Reses’, no Teatro Santa Roza

André Luiz Maia / 11 de janeiro de 2019
Foto: Lili Rodrigues/Divulgação
A brutalidade em cena da peça Reses (ou A Arte de Escapar com Ferimentos Leves), novo espetáculo do grupo Ser Tão Teatro, deixa clara a tônica que a companhia tem perseguido desde sua peça anterior, Alegria de Náufragos. Não sobra muito espaço para floreios e eufemismos em uma montagem que pulsa feito sangue corrente nas veias, apresentada mais uma vez neste fim de semana no Teatro Santa Roza.

Para quem não sabe, rês é a palavra usada para definir qualquer animal criado para abate e consequente consumo humano. Em Reses (plural do substantivo), a ideia é utilizar essa imagem do coletivo de gado como alegoria das brutais relações do novo sistema trabalhista brasileiro e também sobre os matadouros, as condições cruéis de tratamento dos animais e a forma de consumo de maneira geral.

O ator Thardelly Lima, um dos atores em cena e também diretor da peça, afirma que esse espetáculo é reflexo do estado de espírito do Ser Tão Teatro no momento. “Não cabia para nosso grupo fazer uma peça sobre amor ou adaptar um Shakespeare. Não cabia mais na nossa boca e no nosso corpo falar dessas coisas. Todos os dias, quando a gente se encontrava, esses temas mais atuais passavam por nossas conversas”, avalia.

A história é livremente inspirada em A Santa Joana dos Matadouros, texto do dramaturgo Bertolt Brecht escrito logo após a grande depressão de 1929, que devastou mercados econômicos pelo mundo inteiro. Atualizando esse contexto para um Brasil de 2018 de muitas tensões políticas, a dramaturgia de Thardelly Lima expressa brutalidade e crueza sem abdicar de momentos que arrancam risadas do público, o que potencializa ainda mais o texto.

Um magnata da carne repassa seu império para outra pessoa ao se deparar com o próprio pavor de comer carne. Isso acaba sendo ponto de partida para que a questionadora Joana comece a perceber a dinâmica nefasta na fábrica de produtos derivados da carne.

O contraste entre os personagens ricos e Joana chama a atenção. Antes mesmo da estreia, o grupo fez ensaios abertos e uma das questões foi justamente essa. Thardelly explica as intenções dramatúrgicas que justificam essa disparidade.

“A gente acabou optando por tratar o dono da fábrica e os personagens que orbitam ao redor dele de uma forma mais caricata, teatralizada, por entender que essas pessoas, na vida real, acabam se desconectando da realidade, realidade esta que é representada por Joana, uma representante da classe trabalhadora com alguma consciência dos dilemas sociais que lhe cerca”, argumenta.

O grupo já havia apresentado essa peça em única data, no dia 29 de novembro do ano passado, também no Santa Roza. Agora, eles querem encontrar formas de fazer mais apresentações ao longo do ano. “Foi a única pauta que encontramos ali no final de 2018. Tivemos um bom feedback, mas a maior parte deles veio através das redes, pós-apresentação. Tinha gente tirando foto de carne em açougue, restaurante, e marcando o nosso Instagram. Ficamos felizes de termos provocado de alguma forma alguma reflexão sobre assuntos diversos”, pontua o ator e diretor.

Novo momento. A produção é totalmente custeada pelo bolso dos integrantes do grupo, não é nem mesmo verba do caixa, já que recentemente o Ser Tão Teatro se despediu de sua sede na Maciel Pinheiro, no Centro Histórico de João Pessoa, em um espaço que dividia com a Paralelo Cia. de Dança. Agora, em busca de um novo espaço, fazem uma delicada dança, em busca de equilíbrio financeiro em tempos difíceis para iniciativas culturais independentes.

Um novo fôlego surgiu quando eles tiveram a oportunidade de estrear Reses dentro do Festival Popular de Teatro de Fortaleza, no Ceará, em novembro do ano passado. Na ocasião, Thardelly, Rafael Guedes e Polly Barros puderam ver de perto uma união entre diversos grupos teatrais para continuarem existindo.

“Estreamos em uma sede nova dos grupos Pavilhão da Magnólia e Prisma, um espaço para ensaios e apresentações teatrais construído depois de fazerem um investimento em um banco. O que mais vemos por aí é esse tipo de iniciativa, de grupos fazendo empréstimos, investindo na própria arte, fazendo das tripas coração para continuar se movimentando. Foi muito importante ver isso”, confessa Thardelly.

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