segunda, 16 de setembro de 2019
Saúde
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Família defende cirurgia para frear Alzheimer, mas CRM condena procedimento

Lucilene Meireles / 07 de janeiro de 2016
Foto: Arquivo
O CRM da Paraíba e a Academia Brasileira de Neurologia (ABN) não aprovam a cirurgia para Alzheimer, feita na Paraíba. Médico pode ser punido. Mas a esposa do paciente afirma que não se arrependeu em nenhum momento de ter acionado a Justiça para que seu marido tivesse acesso ao tratamento, mesmo que ainda seja um experimento. Ela garantiu que em nenhum momento se sentiu enganada. Pelo contrário, disse que faria outra vez para ter a oportunidade de, ao menos, retardar a evolução da doença. Inclusive, indicaria.

“Estão tratando o doutor Rodrigo (Rodrigo Marmo, neurocirurgião que fez o procedimento) como se fosse um charlatão. Em nenhum momento ele ofereceu a cirurgia. Nós é que provocamos. Ele disse que não sabia que tipo de ganho poderíamos ter. Pesquisamos e vimos que pacientes do Rio de Janeiro e de São Paulo fizeram por demanda judicial. Fomos atrás e ganhamos na Justiça também”, resumiu.

A notícia publicada em dezembro passado, no Jornal Correio da Paraíba, repercutiu em vários Estados e a redação recebeu dezenas de ligações de jornalistas e familiares de pessoas com o mal interessadas na novidade. Muitos querendo saber como está o paciente.

“Estou notando melhora e sentindo que ele está, gradativamente, voltando a ter iniciativas. Esta semana, na entrada supermercado, ele lembrou de comprar queijo. Perguntei onde estaria o produto, e ele respondeu que estava no balcão. Comemoramos momentos como este”, disse a esposa do idoso.

O paciente paraibano foi operado em 11 de dezembro no Hospital Napoleão Laureano. “O plano de saúde não cobre para Alzheimer. Meu filho, que é advogado, acionou a Justiça para que o plano liberasse”. Ela acrescentou que qualquer médico poderia realizar a cirurgia, mas optou pelo .

Censura pública

O médico que realizou a cirurgia na Paraíba poderia ter recorrido da decisão da Justiça, segundo o Conselho Regional de Medicina (CRM) da Paraíba. “Foi um procedimento feito com liminar, mas o médico poderia ter se negado a fazer. É lamentável que a Justiça libere. É um erro de interpretação de quem não compreende as questões médicas, mas que também não tem obrigação de saber”, disse o presidente da entidade, João Medeiros.

Ele explicou que a cirurgia é experimental e, portanto, não autorizada pelo Conselho Federal da Medicina (CFM) e pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Por isso, o médico pode sofrer uma censura pública, por exemplo, ou seja, uma nota publicada nos principais jornais porque o profissional infringiu o Código de Ética Médica. O CRM tem 30 dias para instaurar o procedimento.

“Estamos avaliando o que realmente vai acontecer, mas vamos ouvi-lo. Iremos fazer uma avaliação inicial. Ele vai apresentar sua defesa e vamos ver ser realmente houve ilícito ético”, declarou. Nestes casos, de forma geral, é feita uma sindicância, aberto um processo, e pode haver penalidade. O processo corre em sigilo. A matéria ‘Cirurgia de Alzheimer feita na Paraíba freia evolução do mal e recupera memória’ foi publicada no dia 27 de dezembro, no Correio da Paraíba.

NOTA DE ESCLARECIMENTO

No dia 27 de dezembro de 2015, o jornal Correio da Paraíba publicou a matéria intitulada: “Cirurgia de Alzheimer feita na Paraíba freia evolução do mal e recupera memória”, relatando a utilização de estimulação cerebral profunda (do termo em inglês “deep brain stimulation”, DBS) para tratamento da doença de Alzheimer. O Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia vem, por meio desta, esclarecer alguns tópicos sobre o assunto. 



  1. A DBS é uma modalidade de tratamento que consiste em estimular eletricamente uma determinada região cerebral, por meio de um “marcapasso”, que é cirurgicamente implantado. Até o presente momento, as principais agências reguladoras mundiais autorizam esse tratamento para um restrito grupo de enfermidades, como doença de Parkinson. Agências internacionais de saúde (como a Food and Drug Agency – FDA, dos Estados Unidos da América) não autorizam a DBS para tratamento da doença de Alzheimer, sendo permitida apenas sua investigação em protocolos de pesquisa rigidamente controlados. No Brasil a ANVISA também segue essa conduta. Assim, causou surpresa o fato dessa cirurgia ter sido realizada fora de um protocolo de pesquisa clínica, devidamente registrado, já que o procedimento de DBS ainda se encontra em investigação e não está autorizado pela ANVISA com propósito clínico, fora do âmbito da pesquisa.


  2. Até o momento, não existe evidência médica comprovada da efetividade a longo prazo (mais de 1 ano de seguimento) dessa terapêutica, quando comparada ao placebo. Os estudos realizados até o momento são com poucos pacientes e com enfoque na segurança do procedimento. Alguns relatos mostram melhora em testes de memória e em certos exames complementares. Esses relatos, porém, devem ser analisados com cautela, por se referirem a um número limitado de pacientes e por não haver dados consistentes sobre um seguimento clínico e cognitivo desses indivíduos a longo prazo.


  3. A experiência acumulada com a DBS na última década e o conhecimento atual da fisiopatologia da doença de Alzheimer não sugerem que a DBS represente uma cura desta doença. A estimulação cerebral não parece agir sobre os mecanismos causais da doença, a saber, a morte progressiva de neurônios e o acúmulo anômalo de proteínas como a beta-amilóide e a proteína TAU hiperfosforilada. As evidências atuais indicam que o suposto efeito da DBS seja sintomático, durante um prazo limitado de tempo.


  4. O procedimento em questão fere os preceitos da ética médica, por se tratar de tratamento experimental, só devendo ser realizado com protocolo bem definido, após passar em conselho de ética e em pacientes selecionados, com assinatura do consentimento livre e esclarecido, para participação em um ensaio clínico. 




                O Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da ABN também busca novas perspectivas de tratamento para a doença de Alzheimer, porém sempre dentro dos preceitos éticos, das melhores evidências científicas disponíveis e da boa prática médica, repudiando práticas fora destes princípios.

Atenciosamente,

Departamento de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da ABN

 

Leia mais no Jornal Correio da Paraíba.

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