terça, 19 de março de 2019
Saúde
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Estudo mostra concentração de médicos em JP e deficiência nas demais cidades da PB

Beto Pessoa / 13 de maio de 2018
Foto: Arquivo
Mais de 60% dos médicos que atuam na Paraíba estão concentrados em João Pessoa. Os dados são da última Demografia Médica no Brasil, organizada pela Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM).

Enquanto João Pessoa tem, sozinha, 4.107 médicos, uma razão de 5,12 profissionais por mil habitantes, nas demais cidades, que possuem juntas 2.646 médicos, esta razão é de 0,82 profissionais por mil habitantes. E não precisa ir tão longe para constatar esta geografia das diferenças. Na vizinha Bayeux, a população míngua em busca de assistência médica.

É o caso da dona de casa Josy de Oliveira, 45 anos. Ela tem dois filhos, sendo um deles autista, mas sempre que busca por profissionais em no Sesi II, unidade do Programa de Saúde da Família (PSF) de Bayeux, não consegue atendimento. A cidade pode não parecer, mas quando o assunto é assistência médica soa tal interiorana quanto as mais afastadas dos grandes centros urbanos.

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina da Paraíba (CRM-PB), João Medeiros, a falta de médicos fora da capital é reflexo da falta de qualidade de vida e estrutura de trabalho que os profissionais encontram nestes lugares, precariedade que torna os municípios nada atrativos aos médicos.

Um dos caminhos para mudança deste cenário é a valorização salarial da carreira. Ao migrar para as cidades do interior, sem qualidade de vida e sem condições de trabalho, muitos profissionais se vêem insatisfeitos com a função, revela o presidente do CRM-PB.

Faculdades preocupam

Até 20 anos atrás, a Paraíba possuía apenas duas faculdades de Medicina, localizadas nas duas principais cidades do Estado: João Pessoa e Campina Grande. Por ano, eram formados aproximadamente 150 médicos, equação que contribuía para que os profissionais permanecessem nestes centros urbanos.

Hoje, são 9 faculdades espalhadas pela Paraíba (4 em João Pessoa, 2 em Campina Grande, 2 em Cajazeiras e 1 em Patos), que formam aproximadamente 700 médicos/ano, volume crescente que, ao invés de criar maior equidade na distribuição destes profissionais, tem gerado preocupação ao CRM, destaca o presidente do órgão, João Medeiros.

“Nós vemos isso com muita preocupação, a qualidade desses médicos tem sido questionada com essa proliferação indiscriminada. Logo chegaremos a 1.000 médicos por ano, que muitas vezes não atendem as necessidades sociais. Já está provado que faculdade não fixa o médico no local onde se formou. Cajazeiras, por exemplo, tem duas, mas a maior parte dos estudantes é do Ceará. Essas pessoas não ficam em Cajazeiras quando se formam, voltam para seu Estado”, disse João.

Seguindo o princípio da oferta e procura, o boom das faculdades de Medicina é visto por outros especialistas como favorável à distribuição de médicos pelo Estado. Superintendente do Hospital Universitário Alcides Carneiro e professor de Ciências Médicas na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), o médico Homero Gustavo Rodrigues acredita que em longo prazo a expansão das universidades obrigará os médicos a se fixar em novas cidades.

“São quase 700 médicos por ano, a tendência é que saiam das grandes cidades. Não vai ter espaço para todo mundo, eles terão que procurar seu mercado no interior, pois,, à medida que aumentam os profissionais numa localidade, baixam seus salários. É tendência de mercado. Mas isso não será em médio prazo, até porque muitas faculdades são novas, ainda não colocaram essas pessoas no mercado”, disse Homero Gustavo.

Apesar desta projeção, o especialista reforça que atualmente a situação dos médicos é ingrata nas pequenas cidades. “Você tem uma pessoa que estudou 6 anos de Medicina, mais 3 anos de residência médica. Quando vai para o interior, Itaporanga, por exemplo, ele vai casar, ter filhos, mas lá não vai encontrar situação adequada, como escola, cinema, shopping, áreas de lazer. No ambiente de trabalho falta equipamento e material para exames. Um profissional não vai querer ficar num lugar desses”.

Atuação do Mais Médicos

Professor e pesquisador do Centro de Ciências Médicas (CCM) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o médico Ricardo Soares coordena uma pesquisa que analisa os impactos do Programa Mais Médicos pelo Brasil, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) e a Imperial College London, universidade do Reino Unido.

A pesquisa, na Paraíba financiada pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq), está em fase inicial, mas já é possível perceber que o Mais Médicos tem mudado a cara da assistência médica no interior. “Apesar de ser um programa relativamente recente, existem pesquisas já mostrando seus benefícios, por exemplo, na redução de internação por condições sensíveis a Atenção Básica, ao tratar bem no PSF pessoas com doenças como asma, doenças cardiovasculares”, destacou.

Além dos benefícios no interior, o programa também potencializou a Atenção Básica nas capitais.



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