quarta, 26 de junho de 2019
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Roberto Menezes lança livro sobre masculinidade e meio literário

André Luiz Maia / 18 de maio de 2019
Foto: Divulgação
A masculinidade têm sido colocada em cheque diante do crescimento das discussões sobre feminismo e gênero sobre a sociedade. O novo romance do escritor Roberto Menezes resvala nessa questão, embora não esteja muito preocupado em defender ou atacar linhas de pensamento. Trago Comigo as Dores de Todos os Homens é apresentado hoje no Recanto da Cevada, nos Bancários.

O lançamento conta com a presença de uma série de escritores, que apresentarão a obra aos presentes. Dentre os nomes confirmados, estão Bruno Ribeiro, Joana Belarmino, João Matias e Maria Valéria Rezende. Roberto Menezes solicita que o público que for ao lançamento leve consigo livros já lidos, já que haverá um ponto de recebimento de livros para doação ao Projeto Leitura Livre, da Moenda – Arte e Cultura.

Trago Comigo as Dores de Todos os Homens é uma espécie de desabafo de uma figura peculiar do meio literário e não se furta em possivelmente soar polêmico ou até mesmo debochado. “O narrador é um personagem bem tradicional da cultura, do poeta que passou pela ditadura e se acha o gostosão. Possivelmente todo mundo conhece alguém nesse estilo", comenta o autor.

Trata-se de uma espécie de depoimento feito por esse poeta a um grupo de jornalistas. Dentre uma série de assuntos, o protagonista narra como, depois uma longa carreira literária, foi obrigado a entrar numa batalha judicial contra a sua editora. Devido a isso, ele conhece Sílvia Rodrigues, advogada com que ele se envolve amorosamente. A entrada desta mulher em sua vida faz com que vários detalhes de sua trajetória venham à tona.

O livro vem com a ideia de tentar desestabilizar a “aura intocável do poeta”, uma espécie de divinização do literato, algo recorrente no meio literário, e também passa sobre temas como violência, doenças psíquicas, machismo e patriarcado. “É um livro sobre a masculinidade, a questão da paternidade, do cara mais velho que observa os jovens adolescentes e percebe essa distância de comportamento e pensamento”, pontua Roberto Menezes.

Existe um ar de mistério ao redor desse lançamento. O autor explica que, mais do que nunca, ele busca preservar do que se trata realmente o livro, sem querer entregar maiores detalhes. “Eu decidi nem ao menos colocar orelhas ou textos introdutórios. Quero que o livro chegue chegando. Ele é curto, mas tem uma série de detalhes. O final traz uma nota que toda a percepção a respeito dele”, confessa.

A obra surge com base em um conto escrito há uma década, mas que não havia sido publicado em lugar algum.

"Não tinha nada muito aprofundado. Era a história, bem curtinha. No ano passado, eu peguei ele e decidi fazer um livro todo com base naquilo", relata Roberto Menezes. Essa distância entre a criação do conto e a publicação do livro finalizado, na opinião de Roberto, é algo natural no processo de um escritor. “O cara vai evoluindo com o tempo. Eu não tinha capacidade de escrevê-lo da forma como gostaria na época, então só bem recentemente que eu achei que era o momento certo de retomar a ideia”, complementa Menezes.

A ideia era ter um livro em que a voz principal fosse masculina, algo que não é habitual na bibliografia do paraibano. “Meus livros nunca têm homens com o centro da palavra. Tinha duas mulheres e um em que a personagem protagonista não tem sexo definido. Queria colocar a voz de um homem para falar uns absurdos”, provoca o autor.

Embora não seja um livro que procure levantar alguma bandeira, Roberto faz questão de salientar que, apesar do protagonista, o livro não é antifeminista. “Estou feliz que as pessoas que estão lendo o livro não estão entendendo que aquilo reflete o que eu penso, é realmente um personagem. Se alguém ler e achar que sou eu ali tem uma péssima imagem de mim (risos)”.

Cria e vetor. Roberto Menezes é paraibano e atualmente é professor da Universidade Federal da Paraíba. Faz parte do Clube do Conto da Paraíba e já possui seis livros publicados: os romances Pirilampos Cegos, O Gosto Amargo de Qualquer Coisa, Julho É Um Bom Mês pra Morrer e Palavras que Devoram Lágrimas; além do livro de contos Despoemas e uma espécie de livro-diálogo em parceria com Maria Valéria Rezende, Conversa de Jardim.

Em 2011, sagrou-se campeão do Prêmio José Lins do Rego de Literatura, organizado pela Fundação Espaço Cultural (Funesc). Também é um dos criadores da Flipobre, evento literário virtual que funciona como uma espécie de crítica às grandes festas e feiras de livros com caráter elitista e excludente.

O livro mais recente de Roberto sai pela Editora Escaleras, uma casa editorial independente surgida em 2017, com o objetivo de publicar livros de literatura brasileira contemporânea nos mais diversos gêneros. Além das publicações, a Escaleras viabiliza projetos culturais diversos, a exemplo do “Roda de conversa com a Editora Escaleras”, que promove um diálogo entre a comunidade, autoras e autores, professores universitários e especialistas em várias áreas do saber. A editora também oferece cursos e oficinas, presenciais e online, com temas relacionados à Criação Literária e Escrita Criativa.

"Eu sempre escrevi livros com a vontade e a ambição de que eles despertassem no leitor a vontade de serem relidos. É muita arrogância de um escritor pensar dessa maneira, mas faz parte." - Roberto Menezes, escritor

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