segunda, 14 de outubro de 2019
Previsão
Compartilhar:

Motoristas precisam evitar perigo da temperatura

Lucilene Meireles / 26 de outubro de 2018
Foto: Rafael Passos
O Verão ainda nem chegou, mas a temperatura já começa a aumentar, mesmo ao ar livre. Agora, imagine dentro de um veículo fechado sob o Sol. O meteorologista Mário de Miranda Leitão, coordenador do Laboratório de Meteorologia (Labmet) da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), realizou uma série de experiências que mostram a temperatura em determinadas situações e os riscos que isso representa, podendo, inclusive, levar à morte. Só para ter uma ideia, o banco de uma motocicleta sob o sol pode chegar a 84ºC.

“No caso de bancos de motos, carros e o asfalto sendo novo, na cor preta, a situação é extremamente semelhante em qualquer local. O aquecimento no ar em Campina Grande é menor do que em Patos, mas no asfalto vai ser quase a mesma coisa”, destacou o especialista, cuja dissertação de mestrado, realizada em 1998, tratou da experiência.

Além do impacto do calor, que traz desconforto, as altas temperaturas podem trazer consequências para a saúde.

“Encontrei com o dono de uma motocicleta que estava cobrindo o banco. Ele me disse que está com inflamação na próstata e que foi causada pelo calor. No caso de uma mulher, deve ser mais crítico colocar seus órgãos numa temperatura alta. Não queima porque está com roupa”, observou.

Dentro de ônibus lotados, nas vans escolares, nos trens, ele analisou que o corpo tem temperatura na ordem 36,5ºC a 37ºC. Porém, quando há muitas pessoas, o ar vai se aquecendo.

"Em João Pessoa, por exemplo, se a temperatura está em 32ºC, o ambiente esquenta rapidamente com a temperatura do corpo das pessoas. Como não tem ventilação, a sensação de calor é pior ainda. E o que vai contribuir para isso aumentar? Se viajar num ônibus de cor escura, absorve mais calor e vai ficar mais quente no interior. Se as pessoas usarem roupa preta e grossa, a situação é pior ainda", disse Mário de Miranda Leitão. Meteorologista coordenador do Labmet da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf)

População desconhece efeitos

"As pessoas não têm ideia. Elas acham que está quente, mas não sabem as consequências. Muitos saem numa rua quente, entra num banco ou repartição com temperatura de 18ºC. Para quem vem da temperatura alta, entra no frio, se for um jovem, há o choque térmico, vem uma gripe, um resfriado, até pneumonia. Agora, um idoso desmaia e isso acontece muito em bancos”, observou o meteorologista Mário Leitão.

O choque térmico, segundo ele, não ocorre apenas da temperatura alta para a baixa, mas também o contrário. Em sua tese de doutorado, realizada na Amazônia, Leitão relatou que ficava observando as pessoas em filas de bancos, do lado de fora do estabelecimento.

“A região é de temperatura alta. As pessoas eram idosas e ficavam com o corpo quente. Quando entravam na agência, desmaiavam e o pessoal dizia que era fome. No estudo, vi que não era fome, que elas tinham se alimentado. Era consequência do calor”, afirmou ele, que já realizou análises nos municípios de Patos e Campina Grande nos períodos mais quentes e frios do ano. Também foram feitos estudos nas cidades de Petrolina, Juazeiro, Serra Talhada e Mossoró, todas no Nordeste.

No Nordeste, como um todo, em função da latitude, a orientação do especialista Mário Leitão para esta época do ano é usar roupas claras e finas.

Morte celular e envelhecimento

Ao comparar uma pessoa de 50 anos de idade que mora numa região fria com outra da mesma idade que viveu a vida inteira no Nordeste, principalmente na região rural, a aparência do último será de dez anos a mais. “Isso acontece porque houve uma morte acelerada das células, que levou ao envelhecimento”, constatou Mário Leitão.

Segundo ele, alguns produtos de beleza não podem ser usado em determinada temperatura. Ele explicou que, se o produto suporta até 30ºC e está próximo a uma parede com 39ºC, há uma alteração química e o produto passa a ter uma composição diferente que pode causar problemas.

Até mesmo os refrigerantes transportados numa caminhoneta aberta, sob o sol, sofrem alteração química. “Não é mais o que saiu da fábrica. Se for tomar e tiver um gosto diferente é porque alterou. Está quimicamente alterado por conta da temperatura”, explicou. Medicamentos que ficam dentro de veículos sofrem o mesmo processo e a alteração pode comprometer o tratamento. Efeito semelhante acontece com tinturas para cabelos, segundo ele.

Asfalto claro

Em Los Angeles (EUA), o asfalto está sendo pintado de cinza claro. A medida faz parte de um projeto piloto e foi tomada para evitar as ‘ilhas de calor’, poderia ser adotada no Brasil e traria uma redução de até 12ºC, conforme o meteorologista Mário Leitão.

“Eles estão pintando as ruas de Los Angeles para amenizar a temperatura. Usaram uma cor cinza clara para evitar aquecimento”, disse.

O especialista acrescentou que, mesmo o asfalto preto, se for antigo, apresenta diferença na temperatura quando comparado a um asfalto novo. A cor escura absorve mais calor.

Se os bancos de motocicleta saíssem de fábrica em cores mais claras, a temperatura não seria tão alta, sofrendo uma redução acima de 20 graus, segundo o estudioso. “A temperatura independe do local. A orientação é colocar cobertura no carro e motos para evitar que esquentem tanto”, orientou.

Mais árvores, menos calor

O meteorologista lembrou que uma cidade que não é arborizada contribui para que a maior parte da superfície fique exposta.

“O sol aquece a superfície e, em duas horas, vai ser muito maior a temperatura, com o aquecimento do ar”, afirmou.

Nas cidades, como acrescentou, o aquecimento está aumentando pelas inúmeras construções, edifícios, asfalto, poucas árvores. Até a cor da roupa interfere. O preto absorve mais calor.

 

Relacionadas