sábado, 20 de julho de 2019
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Preconceitos e agressões são base para ‘A Mulher Monstro’

André Luiz Maia / 22 de janeiro de 2019
Foto: Brunno Martins/Divulgação
Presenciamos monstruosidades de pequena ou grande escala praticamente todos os dias, desde a notícia de um crime chocante ou uma ignorância proferida por um colega de trabalho. O problema, na visão do ator e diretor José Neto Barbosa, é naturalizarmos o olhar para essas agressões do cotidiano. Foi a partir disso que surgiu seu espetáculo A Mulher Monstro, que chega a João Pessoa pela segunda vez, agora reformulado.

Com direção, dramaturgia, atuação, cenografia e figurino do próprio José Neto Barbosa, o espetáculo também conta com a iluminação, sonoplastia e coordenação de palco de Sergio Gurgel Filho. O monólogo já foi visto por quase 7 mil pessoas e está repercutindo de maneira satisfatória, ao receber prêmios como o de Melhor Monólogo do Teatro Nacional 2017 pela Academia de Artes no Teatro do Brasil. Dois anos antes, José Neto Barbosa venceu a categoria Melhor Ator, concorrendo com nomes como Ary Fontoura, Álamo Facó, Paulo Betti, Marcos Veras e Marcos Caruso.

O processo de desenvolvimento de A Mulher Monstro começa em 2015, ainda no início do período político turbulento pelo qual o Brasil passa. “Eu vi muita demonstração de ódio, que vai além da intolerância, de familiares, de figuras públicas, líderes religiosos. Decidi compilar aquilo e fui guardando”, explica o ator, em entrevista ao CORREIO.

Essa coleção de pequenos horrores começou a fazer sentido e se amalgamar por conta de uma leitura específica: Creme de Alface, um conto escrito por Caio Fernando Abreu em 1975. Apesar disso, a história de uma mulher rica que revela o que há de pior que tem dentro de si em uma cena do cotidiano só foi publicada nos anos 1990.

“A violência daquele conto continua sendo igual ou pior hoje em dia, com novas faces. Peguei aquelas aberrações que via na internet e no meio familiar, inserindo na dramaturgia junto a fatos que aconteceram na minha vida”, conta José Neto. Ao estreá-lo no meio de 2016, o ator potiguar confessa que não sabia da potencialidade que o espetáculo teria diante do desenrolar de acontecimentos ao longo dos últimos anos.

A encenação brinca com elementos relacionados à memória afetiva da infância de nordestinos ao trazer uma releitura do espetáculo da Monga (ou Konga, dependendo da região), figura muito comum em parques e festas da região, como a Festa das Neves, aqui em João Pessoa. Na atração circense, uma mulher enjaulada se transforma em um macaco diante dos olhos. Na peça, José escolhe a figura de uma burguesa, falsa cristã, perseguida pela própria visão intolerante da sociedade, sem saber lidar com a solidão e as suas relações num tempo de ódio.

O ator afirma que, embora carregasse forte temática política desde o início, foi com a última eleição que houve uma reformulação profunda na dramaturgia do espetáculo. “Não tinha como ser diferente. Eu já fazia modificações e aproveitava manchetes do noticiário, fatos históricos e políticos para trabalhar novas questões na montagem, mas ver uma eleição com base em todos aqueles discursos que colhi ao longo dos anos realmente interferiu no resultado visto em cena”, pontua.

Dentre os temas abordados, estão a defesa do militarismo, armamentos e justiça com as próprias mãos, xenofobia, racismo, sexismo, gordofobia, homolesbotransfobia e até mesmo o machismo sob alguns ângulos. A figura feminina na centralidade da trama se deve ao conto de Caio Fernando Abreu, mas acabou se tornando um elemento para discutir a relação entre as mulheres e essas temáticas.

“Lembro de figuras femininas como Ana Paula Valadão ou Marcela Temer que, mesmo sendo vítimas do machismo, acabavam se tornando porta-vozes desse mesmo machismo. Isso é muito presente na sociedade brasileira, das mulheres que se posicionam contrárias ao feminismo. Sou um militante pró-feminista, nunca serei uma mulher para falar por elas, mas uso o teatro para abordar essas questões”, explica José Neto.

A personagem perde seu único filho, é vítima de violência doméstica e se torna brutalizada pelo meio em que vive. Caio Fernando Abreu, em uma das poucas declarações públicas sobre Creme de Alface, comentou sobre essa figura retratada em seu conto e, agora, no monólogo de Barbosa.

“Durante vinte anos, escondi até de mim mesmo a personagem dessa mulher-monstro fabricada pelas grandes cidades. Não é exatamente uma boa sensação, hoje, perceber que as cidades ficaram ainda piores, e pessoas assim ainda mais comuns”.

A declaração do escritor foi dada nos anos 1990, mas poderia muito bem ser uma fala de 2019, na visão do ator. Por conta das temáticas abordadas, ele afirma já ter passado por ataques e boicotes.

“Já nos deram desculpas esfarrapadas para cancelar apresentações, pois temiam que eleitores de Bolsonaro pudessem interpretar a peça como uma ataque direto a eles. Pelas redes sociais, sempre que posto algo sobre a peça, vem uma chuva de comentários odiosos. Também sofremos algumas tentativas de boicotes. Mas, aos trancos e barrancos, vamos continuando”, relata José.

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