segunda, 24 de junho de 2019
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Política, sexo e polícia são discutidos no Festival de Cinema de Brasília

Renato Félix / 23 de setembro de 2017
Foto: Reprodução
A ausência de um pai desaparecido durante a ditadura militar, os bastidores dos praticantes de sexo sadomasô e a tropa de choque de Recife foram os temas dos três filmes – todos documentários – da mostra competitiva nacional da noite de quinta, no Festival de Cinema de Brasília. O primeiro, a excelente animação Torre, produção paulista de Nadia Mangolini.

Depois, o curta O Baunilha, de Leo Tabosa. Por último, o longa Por Trás da Linha de Escudos, de Marcelo Pedroso. As equipes responderam a perguntas sobre seus filmes no debate realizado ontem pela manhã.

Torre é um ainda raro exercício documental usando a técnica da animação (o principal exemplo internacional é Valsa com Bashir, de 2008). O filme usa os depoimentos dos filhos de um desaparecido da ditadura militar sobre a ausência do pai e a prisão da mãe e a animação não apenas reconstitui cenas, mas alça vôos impressionistas com relação aos sentimentos. A diretora afirmou que o projeto sempre foi em animação.

O pernambucano Baunilha é o relato de um praticante de BDSM, práticas sexuais sadomasoquistas. Ele conta não só sobre a filosofia da prática como do relacionamento com um companheiro já falecido e de viver com essa ausência – enquanto algumas práticas vão sendo mostradas na tela, com pessoas usando máscaras de couro, engaioladas, chicoteadas, algumas imagens explícitas. É o segundo do que o diretor chama de Trilogia do Desejo, cujo primeiro filme foi Tubarão (2014).

Jornada ao lado da tropa

O longa também é de Pernambuco. Por Trás da Linha de Escudos, Marcelo Pedroso (de Pacific, 2009, e Brasil S/A, 2014) procura compreender e mostrar como funciona a instituição do Batalhão de Choque da Polícia Militar de Pernambuco. Como militante de esquerda, ele já teve a organização como adversária em manifestações como a ocupação do Cais Estelita. No filme, ouve os policiais, acompanha uma ação em uma instituição de menores, participa de um treinamento.

O filme constrói momentos interessantes ao conseguir uma certa receptividade dos policiais e mostrar como eles pensam e como são preparados, inclusive, para não pensar quando estão em alguma ação. Trata o “adversário” com respeito, mas talvez excessivo ao não confrontar certas afirmações (como a que diz que, numa ação de repressão, os verdadeiros manifestantes batem em retirada e apenas os baderneiros permanecem), deixando a contestação para a montagem.

Para dar essa resposta e ensaiar uma reflexão, ele dispensa uma narração, preferindo ficcionalizar sua reação como personagem. Por exemplo, encenando sua reação ao confrontar a polícia reprimindo duramente uma manifestação contra o impeachment em Brasília e tirando fotos alegremente com manifestantes pró-impeachment em São Paulo. Ou sentando-se para encarar escudos espelhados e se ver refletido neles.

Tenta também manifestar alguma reflexão através de cenas alegóricas, como o final em que manifestantes destroem uma bandeira nacional e erguem escudos que ostentam o círculo central da bandeira. Uma mensagem de que, apesar de cenas em que policiais e a equipe do filme estão abraçados em um treinamento para resistir ao gás lacrimogêneo, o conflito persistirá.

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