segunda, 23 de abril de 2018
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Pelas redes sociais, crianças deixadas para adoção hoje adultas, tentar reencontrar familiares

Fernanda Figueirêdo / 06 de agosto de 2017
Foto: Antônio Ronaldo
Gerona, Michel, Helena, Leander, Nina, Inês, Gustavo, Judith e outros tantos nomes fazem parte da extensa lista de crianças salvas pelo amor e dedicação da irmã Maria Aldete do Menino Jesus. A religiosa, nas décadas de 80 e 90, promoveu mais de 100 adoções de crianças brasileiras, em sua maioria, naturais de Campina Grande, para países como Holanda, Alemanha, França e Portugal. Anos depois, esses jovens voltam à cidade com a esperança de encontrar os pais biológicos, de quem a Casa da Criança Dr João Moura não tem nenhum registro, já que estas pessoas deixavam os filhos na porta da instituição, junto a pedidos desesperados de ajuda.

“Geralmente as crianças eram deixadas na porta, doentes e desnutridas. Chegava mais no final da noite e início da madrugada. Inicialmente, a casa funcionava como uma creche, onde acolhíamos crianças de 0 aos 6 anos, das 7h às 17h. Mas as pessoas não entendiam e achavam que era orfanato. Daí começaram os casos de mães que tocavam a campainha dizendo que estavam deixando uma encomenda e, quando íamos ver, era algum recém-nascido, muitos ainda com cordão umbilical”, explicou Maria Betânia Sousa, secretária da Casa da Criança Dr João Moura, localizada na rua de mesmo nome, no bairro São José, em Campina Grande.

Na instituição, muitas crianças passaram e tiveram um futuro diferente graças à ação da Irmã Aldete que, incansavelmente, procurava pais adotivos para todos eles. Nas paredes do lugar, que hoje voltou a funcionar como uma creche para crianças carentes do município, diversas fotos amareladas pelo tempo escondem histórias de abandono, acolhimento e vitórias. As paredes e armários são preenchidos por fotografias e escritos tão bem guardados quanto a fé destes jovens de reencontrarem seus pais biológicos.

Pelo Facebook, um apelo para achar a mãe

Gerona Troost, hoje com 26 anos, que chegou à casa maternal no dia 2 de fevereiro de 1991. Com um ano e quatro meses, ela foi a segunda filha adotiva de um casal de holandeses. Grietje Troost e Jan Troost adotaram quatro filhos, todos brasileiros. Hoje, através das redes sociais, Gerona tenta ter notícia da família biológica. Apesar de ter passado três meses em Campina Grande, em 2011, fazendo trabalho voluntário, a jovem não fala Português. Para se comunicar com a imprensa, ela conta com a ajuda de uma tradutora.

Atualmente morando na Alemanha, Gerona falou com a reportagem do Jornal Correio da Paraíba e contou que, apesar de ser uma pessoa feliz e de ter recebido todo o amor que uma família é capaz de transmitir, ela ainda se sente incompleta. “Tive uma infância muito feliz, mas sempre soube que era adotada. Desde 2011, quando fiz trabalho voluntário em Campina Grande, passei a procurar por minha mãe. Quase todos os dias eu penso nela, a dificuldade que tenho na vida é não saber quem eu sou, não saber minha história. Eu preciso disso”, afirmou.

Em vídeo divulgado no Facebook, os pais de Gerona pedem para que a mãe biológica da jovem se identifique. “Se a senhora ver o vídeo, por favor, entre em contato. Porque queremos muito que ela encontre sua mãe biológica e tenha tranquilidade na vida. Ela agora não tem paz porque não sabe o que aconteceu e o porquê”, disse o pai adotivo, Jan Troost.

Maria Betânia, secretária da Casa da Criança há 32 anos, diz que o encontro dessas famílias é difícil, mas não impossível.

“O principal é que essas mães queiram ser encontradas, porque nós não temos nenhuma informação delas. As crianças eram deixadas no portão, nas escadas, nunca entregues nas mãos das freiras. Então as identidades dessas pessoas ainda são um mistério. Mas com a divulgação que temos feito nas redes sociais e até entregando panfletos que contas essas histórias, já encontramos mães em João Pessoa, Juazeirinho e até no bairro Catolé, em Campina Grande”, revelou Betânia.

Irmã Aldete “deixou legado muito bonito”

A Casa da Criança Dr João Moura foi fundada em 1948 como casa maternal, funcionava como abrigo semi-aberto para crianças de 0 a 6 anos. A partir de 1954, a entidade filantrópica passou a ser administrada pelas Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, ordem que as religiosas fazem parte, com sede em Salvador-BA. Desse período até 1998, o local passou a funcionar como orfanato, sempre com uma média de 14 crianças. “Elas sempre eram adotadas, porque as freiras conheciam pessoas em todo o mundo.

As mães diziam que estavam deixando uma encomenda. Pelos menos não abandonavam os filhos para morrer, como muitas fazem hoje jogando os recém nascidos em lixeiras. Isto na cabeça de mãe Dete, como chamavam a freira, era inconcebível”, disse a secretária Maria Betânia.

Irmã Aldete viveu seus últimos dias na Casa da Criança. “Morreu aos 93 anos, em 2009. E cumpriu sua missão. Deixou um legado muito bonito. Até hoje todos os filhos da mãe Dete retornam à casa como forma de agradecimento. Eles vêm porque sentem-se bem neste lugar, e também aproveitam para tentar encontrar as famílias biológicas”, enfatizou a secretária, que também mantém um carinho enorme por todas “as crianças” adotadas.

Betânia lembrou que a franciscana só deixou de receber crianças no orfanato porque muitas pessoas passaram a propagar mentiras quanto ao paradeiro dos pequenos.

“Diziam que os estrangeiros pegavam as crianças para venda de órgãos, o que era uma acusação infundada, já que até hoje temos o acompanhamento de todos que foram levados para outros países. Mantemos contatos rotineiros. Alguns desenvolveram depressão por não saberem parte de sua história, mas a maioria é feliz. Todos têm uma profissão, muitos até constituíram famílias.”

 

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