quinta, 24 de janeiro de 2019
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Paraibanos adotados na infância procuram família biológica

Katiana Ramos / 14 de janeiro de 2019
Foto: Chico Martins
“Procuro minha mãe”. É com esse ‘anúncio’ na internet, nas redes sociais principalmente, que muitos paraibanos, adotados, e levados para outros estados brasileiros e também para o exterior, entre as décadas de 1970 e 1990, não perdem a esperança de encontrar a mãe biológica. A Casa da Criança Dr. João Moura, em Campina Grande, recebe pelo menos uma pessoa com esse perfil, todos os meses, em busca de pistas, por mínimas que sejam, da genitora.

Essa busca é como montar um quebra-cabeças, por vezes do nível de dificuldade mais elevado. Na maioria dos casos, as crianças foram adotadas com poucos dias ou meses de vida, e apresentam apenas o primeiro nome da provável mãe biológica ou local onde foram deixadas para adoção. Há casos de crianças que foram deixadas com um bilhete, com um apelo de ajuda da mãe que não pode criar o filho.

Unidas pela mesma história de vida e moradoras da Alemanha, Inês Sranzen e Amanda Van Loo, saíram da Casa da Criança Dr. João Moura, com três e quatro meses de vida, respectivamente, quando foram adotadas por casais alemães. Na época em que foram deixadas na instituição, na década de 1980, o local recebia crianças para adoção quase todos os dias. Mesmo vivendo longe do Brasil, as mulheres sabem da adoção desde criança e, há mais de 20 anos, lutam para conhecer a parte da história delas que ficou para trás. “Meus pais contaram cedo para mim e a minha relação com eles é muito boa. Eles me ajudam muito nessa busca”, contou Inês Sranzen. A jovem, que tem um irmão também adotado no Brasil, conta que busca pela mãe biológica desde 1995. “Vou dizer pra ela que penso todos os dias nela. Sempre rezo por ela e peço a Deus para ele me ajudar a encontrá-la”, frisou.

Amanda, que tem outros dois irmãos adotivos, também acredita que um dia vai reencontrar a mãe. Há pelo menos dez anos ela vem da Alemanha para Campina Grande na esperança de encontrar a família biológica. “Meus pais não necessariamente me encorajaram a achar minha mãe biológica. Esta escolha partiu de mim. Mas, eles não tiveram problema quanto a isso”, comentou Amanda Van Loo.

Rede social é aliada

Em meio a postagens de momentos felizes e ‘textões’ nas redes sociais, esse espaço é também mais um aliado na busca, praticamente solitária, pela família biológica de muitos brasileiros. Mesmo sem movimentação desde 2016, a página ‘Buscando minha mãe biológica’, no Facebook, por exemplo, soma inúmeros comentários e postagens dos que procuram pela sua história. Os usuários postam fotografias, bilhetes que foram deixados no local de adoção, nome ou apelido da suposta genitora. Tudo para que, em meio ao mar de informações disponíveis na rede, o apelo chegue a alguém que, de alguma maneira, ajude a promover o abraço entre mãe e filhos novamente.

Essa é a luta de Leander Van Veen, que foi adotado por um casal de holandeses, em 10 de outubro 1989. Conforme os registros da Casa da Criança Dr. João Moura, em Campina Grande, ele foi deixado no local “enrolado em pobres panos, sem nenhuma identificação, com sérios problemas de saúde”. O bebê se recuperou e logo foi adotado.

Na Casa da Criança, um livro registra todas as adoções feitas na instituição desde 1958, com data e horário aproximado do momento em que a criança, a maioria bebês com meses e dias de vida, foi deixada no local. Em alguns casos, a pessoa que colocou o bebê deixava um bilete ao lado da criança pedindo ajuda; em outros, as freiras, que eram responsáveis pela instituição, recebiam telefonemas anônimos ou ouviam o toque da campainha, que sinalizavam que mais um menor era abandonado no local.

“Quando a gente chegava a ver a pessoa ou conversar com ela, a maioria era mulheres pobres que engravidavam e se viam sozinhas sem ter como criar os filhos. Outras vezes, deixavam a criança e ligavam para a Casa avisando ‘deixamos uma encomenda para vocês. Por favor, recebam’. Têm casos de crianças que foram deixadas no chão, na porta de entrada, apenas enroladas em fraldas. Outros casos têm crianças deixadas em caixas e tinham outros de crianças já crescidas, como dois, três anos, doentes, que eram abandonadas aqui”, relatou a responsável pela Casa da Criança Dr. João Moura, Betânia de Souza, que trabalha no local há 32 anos.

Ela lembra que todas as crianças que saíram da instituição, até 1996, último ano em que a Casa tinha crianças disponíveis, foram feitas legalmente. “A maioria das pessoas que vinham aqui em busca de crianças para adotar eram de fora do país. Por isso, temos tantas pessoas vindo do exterior para tentar reencontrar a mãe biológica. Nesses anos todos já promovemos muitos reencontros e para nós é uma alegria ajudar”, frisou.

Adoção legal facilita busca

Ao engravidar do primeiro filho, em 1987, a comerciante Maria (nome fictício) foi expulsa de casa pelo pai e, sem apoio do pai da criança, decidiu doar o filho para adoção. No entanto, o processo se deu de forma irregular, logo após a saída da maternidade. “Uma patroa minha, na época, conhecia um casal do Rio de Janeiro que estava de férias aqui em João Pessoa e que queria uma criança. Ai, como ela sabia da minha situação, perguntou se eu queria dar o menino. Como eu era muito nova, não tinha condições de criar ele sozinha, terminei entregando assim que sai da maternidade. Eu nem vi o rosto dele direito”, contou Maria.

A comerciante conta que até hoje se arrepende de ter entregue o filho. Mas, não tem esperanças de reencontrá-lo. “Eu não vou dizer que não fiquei triste. Me arrependi logo quando levaram. Mas, o que eu poderia fazer? Morando na casa da minha patroa de favor, ganhando pouco e sem ninguém pra me ajudar. Acredito que ele tem uma vida melhor e com uma boa família”, revelou.

O processo de adoção pelo qual passou o filho de Maria é ilegal e os pais adotivos poderiam ter respondido pelo crime de falsidade ideológica, sob pena de reclusão de dois a seis anos, conforme explica o coordenador estadual das Varas da Infância e Juventude da Paraíba e vice-presidente do Colégio de Coordenadorias da Infância e Juventude dos Tribunais de Justiça do Brasil, Adhailton Lacet.

“O fato de uma mãe que não queira seu filho, entregá-lo para outra pessoa e a pessoa que recebeu esse filho ir até o cartório e registrar como sendo seu é crime de falsidade ideológica. Outra situação é a adoção dirigida que é quando a mãe escolhia a pessoa a quem ela queria dar o filho. Essas pessoas que foram adotadas dessa forma não têm muita condição de buscar sua família biológica porque não há nenhum registro em cartório sobre isso”, reforça o magistrado.

Ele explica ainda que todos os processos de adoção ficam nos cartórios, inclusive com a identificação dos pais biológicos, e que, ao completar 18 anos, a criança adotada tem acesso aos dados do processo. Esse procedimento é garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. “A gente não pode esconder a história da pessoa. A orientação durante os cursos dos pretendentes à adoção, oferecidos nas Varas da Infância, é que os pais não omitam a adoção da criança e que, paulatinamente, contem a ela sobre isso. A criança tem direito de saber da sua história”, frisou Adhailton Lacet.

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