sábado, 19 de outubro de 2019
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Paraibanas comentam conquista de espaços nas artes

Rammom Monte / 08 de março de 2019
Foto: Rafael Passos/Arquivo
O lugar da mulher é onde ela quiser. A frase, por mais verdadeira que seja, ainda não é uma realidade amplamente aplicada na sociedade. Apesar das inúmeras conquistas, as mulheres ainda sofrem resistência em ambientes historicamente ditos como masculinos. Nas artes, não é diferente. Em 1967, no clássico "Respect", a cantora norte-americana Aretha Franklin já cantava: “Tudo que eu estou pedindo/ É um pouco de respeito quando você voltar para casa”. Cinquenta e dois anos depois, o grito ainda é atual em alguns casos.

Porém, aos poucos, o sexo feminino vem conseguindo seu merecido protagonismo no mundo artístico. Hoje, Dia Internacional da Mulher, o CORREIO conversou com personalidades de diferentes ramos da cultura sobre o tema.

A escritora Maria Valéria Rezende, radicada na Paraíba, é um expoente da literatura nacional. Ela é dona de inúmeras premiações, dentre elas o de Livro do Ano de Ficção no Prêmio Jabuti em 2015, com a obra Quarenta Dias. Para ela, só quem perde com as limitações sociais que são impostas às mulheres é a própria sociedade.

“Todas estas limitações que se puseram na atividade das mulheres, em seu protagonismo, é uma imensa perda para a humanidade. Está se jogando talento fora. Porque na hora em que a mulher é permitida exercer qualquer função, ela tem feito tão bem ou até melhor que os homens”, afirmou.

Segundo Maria Valéria, o fato de a sociedade, historicamente, não esperar tanto das mulheres, torna-as ainda mais leves internamente, fazendo com que seus produtos sejam de altíssima qualidade. Já a pressão que é posta ao homem pelo sucesso, faz com que se gere uma geração de deprimidos. Ela lembrou ainda de casos em que mulheres reprimem a si mesmas para fingirem ser menores que seus companheiros para não lhes causar constrangimentos.

“Os homens já são criados se achando um sucesso, e isto não vai se confirmar sempre. Aí você encontra os deprimidos porque não são reconhecidos naquela grandeza esperada. Eu acho que deve ser difícil, tenho pena dos homens. Eu acho que as mulheres, de quem não se espera nada historicamente, são mais livres, quando lhe permitem demonstrar seus talentos. Interiormente mais livres. Eu ouvi relatos de mulheres que sempre fingiram que eram menores que seus maridos para eles não ficarem inseguros e quando se separaram, elas florescem e vão embora. É uma coisa que chegou no ponto que não dá mais, isto vai ser rompido. O que me preocupa não são as mulheres, porque elas se juntam. Mas os homens competem entre si. Eu fico mais preocupada com eles”.

Já para a atriz paraibana Zezita Matos, que trabalha no ramo desde 1958, a inserção da mulher no teatro vem sofrendo uma evolução, apesar de ela ainda considerar como pouca. Segundo ela, a televisão tem facilitado muito a geração de novas atrizes. Porém, por um caminho que não é o melhor.

“Eu diria que mudou, eu comecei há 60 anos, você imagine como era no começo. Agora é uma mudança que evoluiu muito pouco, apesar de que a televisão ajudou um pouco as famílias acharem que é bom fazer teatro. Mas com a idéia de ser um pulo para a televisão. É verdade que isto ajudou, não posso negar. Embora isto não seja o melhor caminho”.

Zezita relembrou o início da sua trajetória e disse que era uma privilegiada, já que seus pais não criaram barreiras para a sua decisão. Porém, ela afirma que outras colegas da época não tiveram a mesma sorte e não puderam seguir carreira no teatro.

“Dentro da família houve quem dissesse que teatro era coisa de mulher de vida fácil. Eu tive esta coisa que meus pais foram excelentes nisto. Meu pai concordou, mas disse que eu tinha que me formar. Eu fiz letras, mas muitas meninas na minha geração quiseram fazer isto e não tiveram apoio da família. Para mim foi especial”, relembrou.

Zezita participa hoje do Chá com Arte, no Teatro Lima Penante, debatendo outras mulheres que fazem o teatro paraibano e apresentando performances (saiba mais na página C3).

Escola de samba

Outro ramo em que as mulheres vêm conquistando o seu espaço cada vez mais é o da música.

Mas, apesar disto, ainda há disparidade entre os gêneros. Um exemplo disto é a cena do samba paraibano. De todas as escolas de samba de João Pessoa, apenas uma mulher já compôs um samba-enredo na cidade. Trata-se de Polyana Resende. A cantora e compositora afirmou que o ambiente ainda é majoritariamente masculino.

“Este lance da composição, têm muitas mulheres compositoras, mas no samba, nas Escolas de Samba, até agora só fui eu. E puxadoras só fomos duas, eu e Dandara (Alves). Neste espaço do samba somos poucas mulheres que passeamos por eles. Ainda é muito masculino, em João Pessoa. Já em outros lugares, você vê mais as mulheres.

Aqui ainda é pouco. Eu creio que a mulher está se sentindo mais no seu direito, sentindo como uma coisa natural, então estas discussões estão abrindo o caminho”, analisou.

Na música como um todo, Polyana vê que a mulher está assumindo lugares que antes não costumavam frequentar. Ela lembra da mulher como instrumentista, maestrinas, entre outros postos.

“Eu acho que está se discutindo muito a questão dos espaços que a mulher deve ocupar. As mulheres estão muito mais ligadas nisto, nesta questão de se empoderar, ter a liberdade de fazer o que quer. Elas estão se sentindo cada vez mais a vontade para se inserir neste mercado, como instrumentista, maestrina, a exemplo de Priscila (Santana, do projeto Prima), guitarristas, bateristas. Antes ficava muito como cantora, agora estão ocupando outros espaços que são geralmente mais ocupados por homens”.

Seja na música, na literatura, nas artes plásticas ou cênicas, a mulher chega cada vez mais para ficar. Afinal de contas, e mais do que nunca, o lugar da mulher é onde ela quiser.

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