segunda, 08 de março de 2021

Paraíba
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Da idade média aos dias atuais: barbeiros se reinventam e resistem ao tempo

Rammom Monte / 16 de novembro de 2015
Foto: Rammom Monte
Na Idade Média, eles faziam de tudo. Pequenas cirurgias, sangrias, benzedura, venda de raízes, extrações dentárias e tratavam até as espadas dos reis. Ah, eles também faziam a barba e o cabelo dos homens da época. Pode não parecer, mas esse profissional “multifuncional” trata-se do barbeiro. E por conta dessas habilidades medicinais, eles recebiam até a alcunha de médicos e eram chamados de barbeiros-cirurgiões.

Mas o tempo foi passando e retirando muitas de suas funções e, hoje em dia, as barbearias são aqueles espaços reservados exclusivamente para ajeitar a barba, cortar o cabelo e, no máximo, trocar algumas palavras com outros homens. Bem, não é apenas isto que vem sendo visto nas barbearias “modernas”. Um fenômeno que vem se tornando cada vez mais frequente nos grandes centros é a “gourmetização” das barbearias. Na Paraíba, começam a surgir empreendimentos deste tipo, mas, por outro lado, ainda há a resistência dos “barbeiros tradicionais”.

Mas, a que se deve essa mudança? Para a empresária Edilma Lucena, dona de uma barbearia no bairro dos Bancários, em João Pessoa, são os próprios homens que estavam necessitando de um espaço só deles, uma espécie de “SPA masculino”, onde eles possam cuidar da beleza, sem deixar de lado a sua masculinidade. E para isto, ela foi até outros países buscar inspiração para abrir seu empreendimento.

“O homem de hoje está cada vez mais se cuidando. As próprias profissões também cobram deles isso. E eu fui vendo realmente que, dentro de João Pessoa, não existia um espaço único para homem, exclusivo. Então aí surgiu a ideia de pesquisar espaço masculino onde ele pudesse fazer da estética à barba, a engraxar seu sapato. A gente começou a pesquisar muito na internet e fomos buscar ideias também em outros países, como os Estados Unidos, Argentina, Paraguai, fomos até o Caribe também para ver algumas coisas, aí fomos juntando as ideias e formando a nossa. Porque a gente não queria copiar, mas queria fazer uma coisa diferente e o diferente a gente teve que ir buscar fora. E resgatar a barbearia que estava muito esquecida”, explicou.

ASC_4829E o que o cliente pode fazer enquanto espera sua vez de ser atendido? Por que não tomar um café, um suco, ou até uma boa e gelada cerveja? Segundo Edilma, esse tipo de atendimento era algo que ela e seu marido constataram que os homens queriam. Um lugar para chamar de seu, uma espécie de “Clube do Bolinha”.

“Nossos pais, nossos avós buscavam muito as barbearias e, depois, começou a história do cabeleireiro, onde os homens eram juntos com as mulheres. Dentro de uma pesquisa que nós fizemos com os homens eles se queixavam muito, que não tinha um espaço onde eles podiam ler uma revista de futebol, de carro, um noticiário, onde ele pudesse esperar, que ele pudesse tomar um café, um suco, um drink, uma cerveja. Então a gente foi agregando esses valores que realmente os homens estavam reclamando e surgiu a nossa barbearia”, disse.

Mas não é só no atendimento ou nos serviços que o local remete ao universo masculino. Quando se entra no estabelecimento, já se percebe outra atmosfera. Um local feito e pensado para eles: os homens. Na parede próxima à entrada uma mesa de futebol de botão dá as boas-vindas aos clientes. No campo, duas das maiores seleções brasileiras estão dispostas no “gramado”, as de 1958 e 1970, campeãs mundiais. No sistema de som, um bom “sambinha” ou então aquele velho rock. Edilma diz que tudo isso foi pensado e confessa que, o público masculino de hoje está um pouco mais sofisticado.

“Eu acredito que hoje as pessoas buscam qualidade. Por exemplo, a questão do atendimento. A gente está muito saturado de ser maltratado. Então quando você vê algo diferente,  onde lhe encanta, isso atrai as pessoas. As pessoas gostam de ser bem cuidadas. Quando ele sai, ele sai com um sorriso. Eu tenho um colega que fala que a barbearia é um psicólogo, algo que traz bem-estar. Então eu acredito que estamos dentro desta tendência,  dessa mudança, porque a questão da barbearia antigamente era aquela coisa muito mecânica e hoje eu acho que o interpessoal, a questão de você ter um cuidado, de não deixar seu cliente solto, dele ser bem atendido, eu acho que vale a pena”, finalizou.ASC_4796

A resistência

Em meio ao “boom” no crescimento das “novas barbearias”, ainda há espaço para as tradicionais. É o que garante o barbeiro Ariosvaldo da Silva, de 53 anos. Ele exerce a profissão há 29 anos e afirma que não conhece esse novo tipo de barbearia, mas garante que a dele ainda faz muito sucesso e que o movimento é intenso.

“Eu trabalho de segunda a sábado e aqui somos eu e meu filho. Chegamos a atender até 40 pessoas por dia. O pessoal gosta bastante daqui. O movimento não para”, afirmou seu Ari, que contou ter descoberto a profissão com seu pai, que também era barbeiro.

Apesar de dizer que atende todo tipo de público, seu Ari diz que só faz corte tradicional. Ele diz que não costuma fazer cortes mais modernos. E a diferença não fica por aí. Enquanto nas novas barbearias é servido cerveja, drink, suco ou café, seu Ari afirma que em seu estabelecimento só tem água e rapadura, mas diz que independente disso, “o pessoal gosta de ir para lá para conversar”.

“O pessoal vem sempre aqui para bater papo. Tem ar-condicionado, uma televisão, aí o pessoal vem e fica conversando. O barbeiro é um grande amigo do homem”, finalizou.

Uma outra alternativa

Em contraste com as barbearias modernas e as tradicionais, aparece outro tipo de profissional: o “barbeiro em domicílio”. Pelo menos é assim que se intitula Bruno Oliveira, dono de uma loja em João Pessoa e que descobriu o ofício de barbeiro como uma nova paixão, um dom. Segundo ele, no começo foi para ter uma forma de renda extra, mas foi gostando tanto da profissão, que já alçou voos maiores, quando foi para os Estados Unidos fazer um workshop na área.

“Eu trabalho em domicilio. Vou à casa da pessoa. Os clientes têm gostado por conta disto, porque não tem fila, espera. Corto cabelo e faço barba. E quando vou na casa do cliente levo todo o material. Só não dá para levar a cadeira de barbeiro ainda (risos), mas o resto do material eu levo tudo”, disse Bruno, que também recebe clientes em sua casa.IMG-20151116-WA0007

E segundo ele, a ideia inicial de aumentar a renda da família, vem dando certo. “Só posso atender no máximo quatro clientes por dia, por conta da loja. No primeiro mês tivemos um aumento na renda de R$ 800 a R$ 1.000 e já no segundo mês, o aumento foi de R$ 1.000 a R$ 1.500”, afirmou.

Quando perguntado que tipo de barbearia ele gostaria de abrir, ele não titubeia: as modernas. Segundo ele, essa nova tendência deixa o cliente mais íntimo do local e se sentindo mais bem atendido.

“ Sem dúvida eu abriria uma barbearia mais parecida com essas modernas. Por exemplo, quando o cliente vai lá em casa, ofereço uma cerveja, um café, tento fazer um atendimento diferenciado. Já naquelas barbearias tradicionais era aquele negócio “seco”, onde o cliente chega, corta o cabelo e faz a barba e depois vai embora. Hoje tem quer ter o diferencial e eu prezo por isso”, finalizou.

Dia do barbeiro

No Brasil, o dia do barbeiro e cabeleireiro é comemorado oficialmente no dia 19 de janeiro, de acordo com a lei 12.592. Porém, o dia já foi comemorado em outras datas, como o dia 3 de setembro (data sugerida por sindicatos ou federações) e no dia 3 de novembro, data em que se comemora o dia do padroeiro dos barbeiros e cabeleireiros, São Martinho de Porres.

Uma coisa é certa. Seja em janeiro ou em novembro, na idade média ou nos dias atuais, nas barbearias tradicionais ou nas modernas, o barbeiro e as barbearias estiveram e sempre estarão presente na vida dos homens, seja para um simples procedimento de beleza ou como parte da identidade masculina.

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