segunda, 18 de janeiro de 2021

Paraíba
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62 crianças e adolescentes esperam adoção na Paraíba, mas a maioria é preterida

Lucilene Meireles / 25 de maio de 2016
Foto: Arquivo de família
Mãe de um filho biológico de 13 anos, a administradora de empresas Cristiane Moreira de Freitas recorreu à adoção quando as três tentativas seguintes de ser mãe não foram adiante. Emanoel, 3 anos, tinha apenas cinco meses de vida quando entrou na família. Em breve, a família da administradora de empresas Cristiane Moreira de Freitas deve voltar a crescer. Ela e o marido, Daniel de Freitas, pretendem ter agora uma menina, que já tem até nome: Maria Luiza. E a espera já começou, o que para muitos candidatos é mesmo “um parto”. São 405 candidatos a pais para 62 crianças esperando adoção. Mas a maioria foge do perfil idealizado. O assunto não poderia passar em branco no Dia Nacional da Adoção, 25 de maio.

“Sempre tive o projeto de adotar novamente. Como Deus não quis que nossos filhos biológicos viessem, estamos na fila há um ano e dez meses. Já tenho enxoval e estamos organizando o quarto dela. Fico enjoada, com os seios inchados. Minha progesterona está lá em cima. Com Emanoel foi do mesmo jeito. Até leite eu tive, mas ele não conseguiu pegar o peito. Emanoel é um menino inteligente, calmo, carinhoso. Ele veio como eu sonhei e tenho certeza de que é meu filho desde que foi gerado. É impressionante como é igual a nós. Tem minhas mungangas e, como o pai, é um empreendedor”, afirmou Cristiane, emocionada.

Foi uma escolha. Quando a perita criminal Gabriella Nóbrega adotou Fernando Henrique ele tinha apenas dois meses e meio. O menino, hoje com 9 anos, havia sido entregue para adoção. Na época, não existia cadastro nacional. Só uma fi la no Estado, mas não era obrigatório estar nela para adotar.

Ela se candidatou como interessada no processo de adoção e pediu a guarda provisória de Fernando, que foi concedida pelo juiz. Feliz, ela foi buscar o garoto num abrigo. Junto com o primeiro marido, teve que esperar mais de um ano pela guarda definitiva, passando por todos os procedimentos para adoção, mas Gabriella garante que tudo valeu a pena. Tanto que a pretensão é adotar novamente. “A maioria recorre por ter problema de concepção biológica. Para mim, não foi isso. Foi uma escolha”. O casamento não deu certo, mas Fernando está sempre ao lado da mãe, que casou novamente e teve Juan Gabriel, filho biológico, hoje com 3 anos. O atual marido, Pablo Juan Nóbrega, divide com a esposa o desejo de adotar. O casal está providenciando o cadastro para entrar na fi la, à espera de mais um membro na família.

Idade afasta pretendentes

O juiz Adhailton Lacet Correia Porto, coordenador da Infância e Juventude da Capital, destacou que, praticamente, não há recém nascido para adoção. “O que tem, estamos cuidando da destituição familiar e está sob guarda de alguém. Mas, a maioria tem mais de 5 anos. Hoje, o principal empecilho é a idade. Permanece a velha preferência por crianças com até 2 anos, do sexo feminino e de cor branca”, lamentou.

Nas casas de acolhimento, conforme o magistrado, chegam crianças de 14 anos, na maioria das vezes, porque há desajuste familiar, drogadição, abuso dos pais. “Em alguns casos, eles não querem ser adotados. Eles percebem a dificuldade, que ninguém quer adotar adolescente. Por isso, fazemos cursos para os casais habilitados, oficinas com psicólogos, assistente social, para que mudem esse olhar”.

Em março, uma criança de 9 anos foi adotada por um casal de São Paulo. Das crianças que estão aptas à adoção no Estado, algumas estão com os pretendentes, sob guarda, para posterior efetivação do processo de adoção, conforme a psicóloga Ana Cananéa, secretária da Comissão Estadual Judiciária de Adoção (Ceja). Ela explicou que, apesar do grande número de interessados, além da escolha do perfil da criança, vários fatores podem impedir uma pessoa de adotar, entre eles, ser avô ou irmão da criança ou ainda se o adotante não tiver a diferença mínima de idade, que é de 16 anos.

“Apesar de se tratar de processo, há muita subjetividade na ação. Não há como precisar em quanto tempo acontece a adoção, mas pode-se estimar cerca de um ano, considerando a habilitação, mais a destituição do poder familiar, mais a adoção propriamente dita. Consideramos que esse tempo é necessário, pois trata-se de um ato irrevogável”, disse Ana Cananéa, confirmando que o que mais dificulta o processo de adoção é a escolha do perfil.

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