domingo, 17 de janeiro de 2021

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PB está presente na lista dos 100 melhores documentários brasileiros, da Abraccine

Audaci Junior / 22 de março de 2017
Foto: Divulgação
“Se eu pudesse, votaria em todos de uma vez”, coloca o cineasta paraibano Walter Carvalho, acerca da lista de 100 melhores documentários do cinema brasileiro, de acordo com votação da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), realizada entre seus críticos associados e convidados.

A Paraíba tem uma presença fundamental com Aruanda (1960), de Linduarte Noronha; O País de São Saruê (1971) e Conterrâneos Velhos de Guerra (1990), ambos de Vladimir Carvalho; Janela da Alma (2001, codirigido por João Jardim) e Raul – O Início, o Fim e o Meio (2012), ambos assinados por Walter Carvalho.

“Não saberia exatamente como colocar essas listas de uma forma coerente”, avalia Walter, que não foi um dos votantes. “Porque a universalidade dos filmes – tão ímpares e articulares... Fica difícil colocar numa ordem de grandeza. Cada um tem o seu valor específico”, justifica o diretor.

Para comprovar o que diz, Walter Carvalho cita um filme que “gostaria de ter feito” que não está na lista, o Chico Antônio, o Herói com Caráter (1983), de Eduardo Escorel. E vai além: pede para informar o 100° lugar, que foi Bethânia Bem de Perto (1966), de Júlio Bressane e Escorel. “Esse filme é de uma importância para a linguagem, que estava sendo uma procura na época”.

O cineasta paraibano destaca a importância de Aruanda para o gênero e para o cinema brasileiro. “Quando surgiu, ele aponta para um ponto da descoberta e invenção que o eleva para o patamar do seminal e histórico. Abriu a perspectiva de compreensão da realidade brasileira”.

Canonizado pelo expoente do Cinema Novo, Glauber Rocha, na época, Aruanda ficcionaliza as origens do quilombo Olho d'Água da Serra do Talhado, no interior da Paraíba e documenta o trabalho das oleiras na região.

Já o crítico paraibano e membro da Abraccine João Batista de Brito ficou contente que Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho, foi laureado como o melhor documentário. “Eu votei nele em primeiro lugar”, conta. “Responder sobre a importância desse filme dá uma dissertação de mestrado. Podemos dizer que tem a combinação de duas coisas: a relevância que ele tem para o Brasil e a sua qualidade cinematográfica”.

Cabra Marcado para Morrer acompanha a produção de uma ficção sobre o líder camponês paraibano João Pedro Teixeira, que foi assassinado por ordem dos latifundiários locais. Com a chegada do Golpe Militar de 1964, as filmagens foram interrompidas e, 17 anos depois, Coutinho retoma o projeto em forma de documentário para procurar a viúva de João Pedro, Elizabeth Teixeira, e seus dez filhos.

“Regozijo muito por Aruanda estar em 10° lugar e também pelos filmes de Vladimir Carvalho. A Paraíba está presente de forma ostensiva”.

João Batista de Brito analisa o fato curioso que a maioria dos filmes na lista são de um período recente, além da quantidade de obras sobre música. “Temos a ideia que o país é musical, mas nosso cinema é ruim nesse quesito, tirando os documentários”, comenta o crítico.

“A Paraíba tem marcado o documentário brasileiro em vários momentos”, analisa o crítico paulista e membro da Abraccine José Geraldo Couto. “São problemas sociais e políticos – como a questão da seca e a exploração da terra – que são temas dramáticos que interessam ao documentário brasileiro”.

Assim como Cabra Marcado para Morrer, que tem “forte presença da Paraíba”, Couto lembra que um dos principais filmes de Vladimir Carvalho que conta presença na lista foi feito na capital do país, mas tem a alma no estado.

“Vladimir se radicou em Brasília, mas nunca se afastou da sua herança paraibana”, afirma José Geraldo. “Conterrâneos Velhos de Guerra conta a história dos imigrantes nordestinos que ajudaram a construir a cidade”.

Livro. A lista dos 100 melhores documentários brasileiros segundo a Abraccine vai ganhar uma edição ainda este ano com ensaios e textos analíticos de cada uma das produções citadas: Documentário Brasileiro – 100 Filmes Essenciais.

De acordo com o presidente da associação, Paulo Henrique Silva, o mais importante da confecção desta lista é o ponto de partida para promover a discussão e abrir o debate. Houve pessoas que não conheciam os documentários e foram atrás, como também outras que não gostavam do gênero, mas que despertaram o interesse para procurar determinados filmes.

“Com o livro tudo isso se completa, na medida em que teremos os ensaios e textos dos diversos movimentos que contam com a presença do documentário”, explica Paulo Henrique. “Haverá um capítulo específico sobre Vladimir Carvalho”, revela.

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