domingo, 16 de junho de 2019
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Palestras de Milton Marques trazem para o presente o universo da antiguidade

André Luiz Maia / 20 de fevereiro de 2019
Foto: Rafael Passos/Arquivo Correio
Foi aos 10 anos que Milton Marques Junior descobriu o universo da Antiguidade e se apaixonou instantaneamente. A mitologia e seus códigos se tornaram base de sua vida profissional, ao se tornar professor de Letras Clássicas da Universidade Federal da Paraíba, atividade que exerce há 32 anos.

Agora, ele se dedica a repassar todo o conhecimento que apurou ao longo dos anos. Uma das formas, além das aulas na academia, são os cursos e palestras que ministra com certa frequência no Zarinha Centro de Cultura. No próximo sábado, ele apresenta “Mito: belo, sábio e perene”, sobre as reais origens do termo, usado indiscriminadamente hoje.

Ao longo da história, a palavra já assumiu múltiplos significados, como narrativa, fábula, trama, lenda, ficção, mentira, mas, para Milton, existem duas coisas a se considerar antes de discutir o assunto.

“Primeiro, o mito não é uma mentira, nem é aleatório. Na conversa, eu falo sobre essa perenidade, a beleza do mito e o saber que ele transmite. O mito tem essas três características fundamentais. Ele é pereno, belo e sábio. Eu abordo desde o significado da palavra mito em sua origem, uma narrativa na tentativa de explicar o mundo nos tempos arcaicos”, pontua.

A origem de sua palavra, oriunda do grego, designa uma narrativa, algo que se conta e que procura explicar uma verdade possível naquele momento. “A ciência não existia enquanto instituto, então os mitos eram as verdades que usavam para explicar determinadas coisas. Depois, mostro como esse mito continua na nossa vida, como por exemplo na astronomia, que permanecem até hoje nos estudos científicos e no imaginário das pessoas. Os mitos servem para a construção da astrologia, mas também aparecem nos estudos da astronomia”, lembra o professor.

Para realizar esta abordagem, ele aborda o mito de Faetonte e as suas consequências, mito que se espalha por dois dos XV Livros das Metamorfoses, do poeta Ovídio.

Um dos motivos que o motivaram a palestrar sobre o tema foi o esvaziamento de significado que há nos dias atuais. Para explicar, ele utiliza outro termo bastante difundido e, consequentemente, desvirtuado. “Estava pensando no tempo gourmet. Vem do francês, que significa aquele que aprecia, que degusta, se opondo a 'gourmand', que é o guloso, aquele que come compulsivamente. Portanto, o gourmet é aquele que extrai o saber dos sabores. Hoje, o termo está tão banalizado que temos até dindin gourmet. O que seria um dindin gourmet? Não consigo entender, realmente. Em outros casos, os termos são tão desvirtuados que eles chegam a significar o oposto de sua origem”, desabafa Milton.

Ao longo dos últimos anos, Milton Marques Junior já aproveitou o espaço aberto para ele no Zarinha Centro de Cultura para fazer palestras sobre a literatura clássica, que é sua especialidade. Dentre as obras trabalhadas, ele já falou sobre a Ilíada e a Odisseia, além de dedicar uma conversa especialmente sobre a tragédia grega e sobre a Teogonia, o poema mitológico em 1022 versos escrito por Hesíodo em VIII a.C.

Ao longo das três décadas na UFPB como professor, já deu aulas de Língua Portuguesa, Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira e Literatura Comparada. Hoje, no departamento de Letras Clássicas, ministra aulas de latim e Literatura Latina e Grega. Mas, de onde veio esse interesse pela Antiguidade e, mais especificamente, sua literatura?

A resposta está em sua infância. “Eu tinha 10 anos de idade, morava em Jaguaribe, no antigo Círculo Operário, que tinha um cinema, o São José. Ali, eu assisti a um filme italiano, de Mario Camerini, chamado Ulisses, estrelado por Kirk Douglas, baseado na narrativa clássica de Homero. Foi ali que eu comecei a me interessar pela coisa e não parei mais. Hoje, posso dizer que sou um especialista na Ilíada, na Odisseia, na Eneida e na poesia latina”, conta o professor.

Escritas a milênios, essas obras ecoam até hoje, não só no meio acadêmico, mas em filmes, novelas e obras literárias que referenciam esses textos em versões atualizadas. Na opinião de Milton, isso se dá pela universalidade de seus temas. “Essas obras falam dos seres humanos, de suas relações sociais e das consequências disso. Há quem pense que a Ilíada fala sobre a Guerra de Troia, mas ela fala de honra, de dignidade, da busca por isso. É isso que faz com que essas obras e autores permaneçam. A Ilíada tem 2,8 mil anos e, em termos de análise e interesse, só perde para Bíblia”, analisa Milton Marques Junior.

Mais adiante, ele já tem outro alvo para uma de suas palestras, A Divina Comédia, de Dante Alighieri, outra obra que considera universal e atemporal. “Quero falar mais especificamente sobre o Inferno de Dante, que é a parte mais substancial do poema. Se você pegar Dante e colocar o que ele diz sobre a sociedade, a política e a religião, pouca coisa mudou, só os personagens e os endereços. Temos corrupção, ganância, busca desenfreada pelo poder, aquilo que conhecemos bem de perto, basta ligar o noticiário”, completa.

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