quinta, 24 de janeiro de 2019
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Pais que perdem filhos podem desenvolver ‘Síndrome do Ninho Vazio’

Aline Martins / 09 de julho de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
Foram anos de dedicação na criação dos filhos, mas chega um dia em que eles decidem tomar um rumo próprio na vida: saem dos seus lares para estudar um curso em uma universidade fora de onde residem; se casam ou mesmo optam por terem mais liberdade morando sozinhos. Nessas situações, o contato entre pais e filhos continua mesmo a distância. Mas há casos em que o contato físico não é possível de existir por conta da perda precoce dos filhos, com isso o sofrimento se torna ainda maior.

Na casa que era cheia de vozes, conversas e reuniões, o silêncio passa a prevalecer. A sensação de perda, de ausência, caracteriza-se um ‘ninho’, semelhante ao feito pelos pássaros, mas sem o filhote. Nos dois casos, o sentimento de tristeza e desânimo devido à ausência acomete os pais. Mas isso tem nome, Síndrome do ‘Ninho Vazio’, mas é possível conviver com a separação de forma saudável.

Especialista Emocional com 20 anos de experiência em desenvolvimento humano, Rodrigo Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Inteligência Emocional (SBIE), caracteriza a Síndrome do ‘Ninho Vazio’ como um sentimento de tristeza e desânimo que abate os pais a partir da independência dos filhos. “A maioria dos pais educa seus filhos e os prepara para buscar seus próprios caminhos. Alguns pais, que dedicaram suas vidas exclusivamente aos filhos, começam a perceber que não descobriram outros papéis enquanto seres humanos a não ser o de pai/mãe e, assim, começam a sentir uma grande tristeza com a partida dos filhos”, afirmou.

Embora qualquer gênero possa sofrer com a Síndrome, as mulheres são mais propensas. “Porém, pode ser desencadeada em qualquer pessoa: homem ou mulher, com uma vida profissional estabelecida e até mesmo com outros interesses e hobbies fora do ambiente familiar. Essa etapa da vida pode fazer com que alguns pais se sintam deprimidos, ocasionando problemas emocionais e físicos”, disse Fonseca, destacando que a intensidade dos sintomas varia de pessoa a pessoa. “Tudo vai depender das características da personalidade e o estado emocional de cada indivíduo e também do tipo de vinculo que os pais criaram com seus filhos. O importante é se adaptar e entender que se trata de um processo e todos os familiares precisam se ajustar. O período pode ser difícil até mesmo para os pais que sentem satisfação em ver seus filhos andando com as próprias pernas e sentem a sensação de dever cumprido”, acrescentou.

Tristeza patológica

Os sintomas da Síndrome se assemelham ao do luto e da depressão, segundo comentou o psiquiatra e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Estácio Amaro. “Isto é, tristeza patológica, sentimento de vazio, falta de vontade de fazer as coisas, repetir várias vezes a mesma fala de que sente falta da vida que tinha antes, alteração do sono (insônia e/ou sonolência excessiva), falta de vontade de fazer as coisas, apatia, alteração do apetite (aumento ou diminuição do apetite), entre outros”, comentou e explica o nome do problema faz uma referência ao ninho realizado pelos pássaros para acolher os filhotes.

Reconhecimento da síndrome

Uma perda precoce da esposa aos 42 anos de idade e com um filho, que na época tinha 15 anos de idade, para cuidar. O apego a presença do filho único se tornou mais forte, a ligação emocional consequentemente. Mas chegou o dia que para muitos pais é doloroso – a saída do filho de casa. Aos 18 anos de idade o filho reencontrou em João Pessoa, após uma visita, uma amiga de longas datas da Suécia que em pouco tempo virou namoro.

Porém a jovem retornou para o País de origem e a princípio a visita a amada durava algumas temporadas, em intervalos de períodos de dois a três meses como permite a legislação do local. Só que mais a frente foi definitiva a ida com o casamento e também com a oportunidade de melhor qualidade de vida.

No entanto, essas ausências já mexiam com o policial federal Ivanildo Feijó Maranhão, aos 57 anos hoje. Muito comunicativo com todos do trabalho, teve uma queda no rendimento que foi notada por todos. “Fui chamado de mudo porque eu parei de falar com as pessoas. Não conseguia me vê sem o meu filho”, contou.

Desde a perda da esposa ele já fazia alguns acompanhamentos com um psiquiatra da família. Em uma das oportunidades leu uma reportagem sobre depressão e com perdas, semelhante ao que tinha vivido – a morte da mulher e a ida do filho para o exterior, principalmente em pessoas de meia-idade. “Meu sobrinho se especializou na área e estudou a Síndrome do ‘Ninho Vazio’. Foi assim que descobri e comecei a terapia desde 2012”, revelou.

O policial federal foi diagnosticado com a Síndrome do Ninho Vazio que estaria ligada a ausência do filho e a perda precoce da esposa. Nesse último ponto, Ivanildo Maranhão comentou que também sofreu com o enlutamento perdurado. “Tentei alguns relacionamentos, mas muitas vezes quando a pessoa vinha para casa e fazia alguma comida, ele preferia comer fora. Eu não me sentia a vontade porque queria a presença dele. Se ele não se sentia a vontade com a presença de uma outra pessoa, eu também não. Eu queria a presença dele”, afirmou.

Contou ainda que a ligação é cada vez mais forte com o filho. O casamento do filho foi transmitido por um canal na internet há dois anos. Hoje, Maranhão já tem alguns planos para viver ao lado do filho. Está a alguns meses de pedir a aposentadoria e tentar viver na Suécia. Já está se organizando para isso, pode começar com um estudo e depois a permanência definitiva. No próximo mês o filho vem da Suécia para João Pessoa para um trabalho. Ele é videografista e está concluindo o Técnico em Mecânica.

Conflitos entre casais é comum

O presidente da SBIE, Rodrigo Fonseca, comentou que é comum que os casais que estão passando por esta fase acabem tendo conflitos. “Isso porque, quando os filhos já estão criados e a vida financeira é estável, existe um reencontro entre o casal que, na maioria das vezes, deixaram de lado a vida conjugal há muitos anos para se dedicarem exclusivamente aos filhos. Muitas vezes, de forma totalmente inconsciente, marido e mulher estabelecem um compromisso de vínculo somente para educar os filhos e, quando eles crescem, os pais sentem que sua função foi cumprida. É importante que o casal faça ajustes na rotina e inovem a relação conjugal para que a síndrome não afete tanto o relacionamento”, disse.

Conviver com a separação

A melhor maneira para enfrentar a Síndrome do ‘Ninho Vazio’ é conviver de forma saudável a separação. “É importante ter em mente que o fato dos filhos estarem mais distantes, não significa que a relação está perdida. É apenas uma nova configuração que pode ser muito agradável para todos, pois a mudança é inevitável”, frisou Rodrigo Fonseca.

Para o psiquiatra Estácio Amaro, o importante é aceitar que todas as pessoas vão passar por fases. “Nem tudo é para sempre. Que eles podem ir e voltar. Podem bater asas e voar e que eles devem admirar, e não sofrer com isso. E que as asas do mesmo jeito que batem para eles voarem, podem bater para eles voltarem. E que os pais possam viver suas vidas”, afirmou.

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