quarta, 03 de março de 2021

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Os livros que criaram “Cidade de Deus”, o grande filme brasileiro do século XXI

Redação / 11 de setembro de 2017
Foto: Reprodução
“Imagine-se estacionando seu carro particular numa rua de um bairro de pobres cujo nome permanecia nas manchetes dos jornais como um dos focos da violência urbana, um antro de marginais e bandidos. Você não conhece ninguém que lhe possa indicar os caminhos e prestar-lhe as informações de que necessita para mover-se sem riscos desnecessários. (...) Conhece apenas um jovem que lhe foi apresentado por um amigo em comum, o qual lhe recomendou cautela. Nada mais”.

A cena descrita no primeiro capítulo de A Máquina e a Revolta aconteceu em janeiro de 1980, quando sua autora, a então socióloga Alba Zaluar, deu início a sua pesquisa de campo sobre os trabalhadores pobres do conjunto Cidade de Deus, na zona sul do Rio de Janeiro. Ela seria também o começo de um dos maiores trabalhos literários, cinematográficos e identitários do Brasil: o filme Cidade de Deus, cujo lançamento completou 15 anos em agosto.

À época da pesquisa, como ela mesma descreve, o bairro era considerado um dos mais violentos da capital fluminense por causa das manchetes sensacionalistas dos meios de comunicação. As reportagens se baseavam nas informações que obtinham de testemunhas do conflito entre os grupos dos traficantes José Eduardo Barreto, o “Zé Pequeno”, e Manuel Machado Rocha, o “Mané Galinha”. Ambos morreram assassinados no início da década de 1980, mesma época em que Alba começou seu estudo.

Nele, a autora procurou se afastar das teorias sociais e conclusões sobre pobreza e sobre as classes populares que existiam nas ciências humanas – que sempre foram produzidas a partir da percepção dos grupos privilegiados da sociedade e não deixaram de ajudar a construir preconceitos – e tentou partir de novas propostas teóricas, como a do alemão Jürgen Habermas, para observar as relações sociais.

Habermas havia acabado de publicar Teoria do Agir Comunicativo, um livro fundamental para o pensamento contemporâneo em que o autor argumentava em favor da racionalidade dos indivíduos durante suas interações uns com os outros. Com isso, ele negava os argumentos anteriores que viam as pessoas como uma imensa massa de manipulação para os meios de comunicação e o mercado.

A partir dessa concepção e de outras influências teóricas, Alba procurou ouvir dos próprios trabalhadores da Cidade de Deus suas percepções sobre a realidade, que, mais do que formar a identidade dos moradores do conjunto, eram suficientes para moldar a maneira como eles agiam entre si. Para aplicar o método, ela se aproximou das organizações populares do bairro – em especial, uma delas.

“Os moradores da Cidade de Deus vinham de mais de 20 favelas do Rio de Janeiro, então, eu estava interessada em saber o que eles tinham feito com todas as associações que existiam nas suas comunidades de origem. Me concentrei num bloco de carnaval que conheci numa praça porque fiquei impressionada com a história dele: havia sido fundado naquele mesmo ano por causa da morte do Mané Galinha”, conta.

“O bloco, assim, era uma maneira de lidar com a tristeza que todos sentiam pela morte de uma pessoa amada pela comunidade. Uma forma muito carioca de lidar com o trauma: por meio da festa”, completa.

Quatro anos depois da chegada ao conjunto, Alba apresentaria sua tese de doutorado sobre os trabalhadores da Cidade de Deus aos professores do departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), orientada pela então professora Ruth Cardoso, que se tornaria primeira-dama do país em 1994. O trabalho se transformou no livro de história, sociologia e antropologia A Máquina e a Revolta, hoje uma referência aos alunos dessas disciplinas.

O romance “Cidade de Deus”

Quando o estudo já era um livro nas prateleiras, Alba Zaluar continuou estudando as relações entre moradores da Cidade de Deus, liderando uma pesquisa intitulada Crime e criminalidade nas classes populares durante o final da década de 1980. Com uma abordagem mais sociológica, a pesquisa reuniu uma equipe de estudantes de universidades cariocas que moravam no local em busca de dados e informações sobre o conjunto.

“A abordagem do meu estudo era a maneira como os moradores se relacionavam com os elementos da vida cotidiana, como o governo, a polícia e o tráfico. Quando ele se tornou livro, comecei a ser chamada para falar sobre os traficantes de drogas, mas não sabia nada sobre esse assunto. Senti que precisava voltar lá”, explica Alba.

Um desses assistentes de pesquisa era o poeta Paulo Lins, que já havia publicado um livro de poemas (Sobre o sol, 1986) e estudava Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Era ele e mais três estudantes que viviam na Cidade de Deus que coletavam as entrevistas, pois achei que os moradores não iriam se abrir comigo – com toda a razão. As melhores entrevistas vinham do Paulo”, comenta.

Em 1995, por intervenção da antropóloga, Paulo Lins ganhou uma bolsa para escrever um romance sobre a comunidade. Passou dois anos revisitando entrevistas antigas e coletando novos dados para estruturar o livro a partir da guerra que havia terminado quando Alba Zaluar chegou a Cidade de Deus, em 1980, entre Mané Galinha e Zé Pequeno. “Eu sabia com a maior clareza que eu estava fazendo alguma coisa que ia ser fora do normal e que ia repercutir”, disse ele em entrevista à socióloga Heloísa Buarque de Hollanda.

“Eu parei várias vezes, abandonei o livro por três anos, ia dar aula, batalhar a bolsa do CNPq, as verbas da Faperj, essa loucura que é a vida de estudante por aqui. Por outro lado, o mundo na Cidade de Deus também era intelectual. Já havia uma abertura da Universidade para as camadas populares. Havia estudantes de História, de Direito, de Letras, todos entrando na faculdade e morando lá”, completa.

Publicado em 1997, Cidade de Deus recebeu críticas positivas de grandes intelectuais do país, como o escritor e sociólogo Roberto Schwarz, e despertou o interesse de diversos projetos cinematográficos por uma característica que já havia norteado A Máquina e a Revolta: a história sendo contada pelos seus próprios personagens.

Apesar de recusar a proposta de dirigir um filme a partir da obra de Paulo Lins, dada por amigos publicitários, o cineasta paulistano Fernando Meirelles cedeu às investidas e decidiu procurar o escritor para pedir os direitos da obra. Foram semanas de negociação até que, a partir de 1999, o trabalho de roteirização teve início.

O resto todo mundo já sabe: o filme foi lançado em 2002 e teve sucesso de público no Brasil e no exterior, tendo seu reconhecimento máximo com a indicação a quatro categorias do Oscar de 2003: Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Edição e Melhor Fotografia. No ano passado, a rede britânica BBC fez, a partir de um conjunto de críticos de cinema do mundo todo, uma lista com os 100 filmes mais importantes do século XXI. O único brasileiro na relação foi Cidade de Deus.

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