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O que a faculdade de comunicação pode ensinar em tempos de redes sociais?

Redação / 26 de junho de 2017
Iniciado no século 15 e fundamental já nos anos seguintes para a vida na sociedade moderna, o jornalismo passa hoje, talvez, por um grande conflito de identidade: ao mesmo tempo em que a imprensa é fundamental para o modelo contemporâneo de convivência, ela deixou de ser a única fonte de informação existente.

Num período em que as redes sociais, aliadas à proliferação de celulares, permitem que qualquer fato seja registrado em qualquer lugar e distribuído pela internet, há quem diga que o jornalista perdeu a preponderância sobre o controle da informação. Hoje, ele é apenas um ator imerso entre quem emite e quem recebe a mensagem.

Dentro desse dilema está a faculdade de comunicação com ênfase em jornalismo, iniciada nos anos 1940 no Brasil e que, após um período de intensa procura, vive uma época duvidosa. Em 2008, para cada vaga do curso de jornalismo da Universidade de São Paulo (USP), havia 41,6 candidatos. No ano passado, essa taxa caiu para 33,5.

Em paralelo, cresceu o número de alunos em cursos de jornalismo em universidades privadas. Para o professor Wagner Belmonte, da universidade paulistana FAPCOM, a graduação em comunicação é importante como fonte de confiança na informação. “Se há mais democracia na manifestação do pensamento, é necessário que se tenha mais zelo e cuidado com os lugares de onde as notícias saem. O desafio do jornalista hoje é estar mais antenado, porque o jornalismo se tornou uma profissão ainda mais rápida e dinâmica”, explica.

A mesma percepção tem a professora de Jornalismo Deise da Roza. Docente desde 1995 e editora-chefe dos canais Fox Sports em São Paulo, ela acredita que a formação é essencial por causa dos valores éticos e das técnicas jornalísticas que não podem ser comparados com as pessoas comuns. “A partir do momento em que uma série de produtores de conhecimento não qualificados, sem técnicas e conceitos de ética do jornalista surgem, o papel dele se torna ainda mais importante, porque só quem tem a formação pode passar uma informação com credibilidade e formação humanística”, afirma.

Para Marcia Avanza, repórter da rádio USP e coordenadora da faculdade de comunicação FAPCOM, de São Paulo, o curso mostra ao futuro jornalista a importância dele como formador de opinião. “A graduação dá uma base fundamental para atuar: responsabilidade, imparcialidade e ética”, opina.

O lugar do jornalista Apesar da discussão sobre as redes sociais frequentemente debater o lugar que o jornalista ocupa na era das redes sociais, em que a informação se tornou mais disseminada por meios paralelos aos jornalísticos, Belmonte acredita que esse “lugar” nunca existiu. “É utópica a ideia de que o jornalista teve o monopólio da produção de informação. Isso jamais aconteceu”, diz ele.

“O problema contemporâneo é que estamos em uma era de hiperinformação: a favor da [ex-presidente] Dilma Rousseff, contra a Dilma Rousseff, a favor do [presidente dos Estados Unidos] Donald Trump, contra o Trump. O mundo se tornou muito mais polarizado com a internet e, nesse cenário, o desafio do jornalista de fornecer uma informação confiável aumentou”, completa ele.

Já para Roza, o “lugar” do jornalista é dado pelo próprio mercado de trabalho, em que os maus profissionais não conseguem espaço para começar ou para crescer. “O jornalista que não usa as ferramentas corretamente, que não tem formação sólida, tem pouco espaço. As empresas sérias e qualificadas percebem rápido quem são os bons e os maus”, explica.

“Mais do que isso: empresas jornalísticas competentes jamais vão deixar de contratar quem é formado”, continua.

Tanto para Belmonte e Roza como para Avanza, as redes sociais são mais aliadas do jornalista do que inimigas: “Elas abrem oportunidades, como vemos agora com o trabalho de SEO, as estratégias de métricas, os tagueamentos. Não podemos brigar com a transformação social do tempo em que vivemos”, afirma o professor. “Elas são importantes na ajuda ao jornalista em busca de fontes confiáveis”, completa Roza.

O Facebook anunciou em dezembro do ano passado que tinha 1,86 bilhão de usuários no mundo. O Instagram chegou a 700 milhões de contas em abril, enquanto o Twitter chega a 300 milhões, apesar das dificuldades de contar os perfis falsos – o grande problema da rede social. Snapchat e Pinterest correm por fora. Além delas, existem as redes sociais chinesas, que só são acessadas dentro do país: o Weibo, uma espécie de Twitter chinês, tem 340 milhões de pessoas cadastradas.

Os números, no entanto, não refletem que muitos usuários de uma rede social costumam ter contas em outras, assim, é possível dizer que há por volta de 2 bilhões de pessoas conectadas aos sites de compartilhamentos atualmente no mundo. Deles, o Facebook lidera com folga. Só no Brasil, a empresa possuía 102 milhões de usuários até abril de 2016.

Para Marcia Avanza, da FAPCOM, o papel do jornalista com as redes sociais tende a ser de um “intermediador”: “A profissão vai exigir mais um trabalho de edição, de intermediação entre o leitor e o fato. É muito difícil confiar em tudo o que se vê, mas o jornalista é a fonte de segurança que se deseja em qualquer informação. Eu diria que o lugar do profissional de jornalismo vai se deslocar cada vez mais como um pauteiro das redes”, finaliza.

 

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