quinta, 26 de novembro de 2020

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O dia em que um boi voou sobre o Rio Capibaribe, em Recife

Redação / 01 de novembro de 2017
Foto: Internet
Quem passa hoje pela movimentada Ponte Maurício de Nassau, em Recife, talvez não saiba (ou não acredite) que o ato de sua inauguração foi marcado pelo voo de um "boi" sobre o Rio Capibaribe, que, como queria o então governador da região, rendeu enormes quantias de dinheiro à colônia e um grande público para o evento.

Construída no século XVII para ligar a ilha de Recife (hoje bairro de São José) à ilha de Santo Antônio, a ponte é hoje símbolo de umas das principais histórias do período colonial brasileiro - além de ter importância significativa para o início da cidade e para o desenvolvimento do estado e do Nordeste do país. Sua primeira construção, no entanto, foi tão custosa aos cofres dos colonizadores holandeses que se tornou necessário fazer um "boi" voar para que as obras fossem custeadas.

A ideia foi do lendário conde germano-holandês João Maurício de Nassau, então governador das possessões holandesas além-mar: anos antes da inauguração, ele havia sido pressionado por empreendedores europeus para construir uma ligação entre a ilha de Recife e o istmo de Santo Antônio, onde fora construída a Mauritsstad (Cidade Maurícia). Em 1641, o arquiteto Balthazar da Fonseca venceu o edital para tocar a obra prometendo entregá-la dois anos depois sobre os pilares de pedra que já haviam sido instalados no rio pelo próprio governo colonial.

Um ano depois, aparentemente sem dinheiro para continuar o projeto, Fonseca avisou a Nassau que se retiraria das obras. Com medo de ter um fracasso público, mas sem dinheiro para dar continuidade ao projeto original (que previa o uso de pedras), o conde resolveu terminar a ponte usando madeira tanto para os pilares restantes como para a passagem. Apenas em fevereiro de 1644, um domingo, se tornou possível cruzar de Recife à Cidade Maurícia sem uma gota d'água no corpo.

"Era a primeira ponte de grande porte construída na América Latina e, além disso, tinha uma parte levadiça para a passagem de embarcações na parte de baixo, o que era um feito notável para a engenharia da época", conta o historiador e advogado pernambucano José Luna.

Em um dos seus estudos sobre as pontes de Recife, a arquiteta alagoana Maria Angélica da Silva, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), diz que Maurício de Nassau acreditava que a construção sobre o rio era um grande feito urbano da colonização holandesa. "Ele fixou as armas do príncipe Guilherme D'Orange e da casa de Nassau esculpidas em dourado e prata e colocou seu nome ao lado delas. Ainda mandou fazer duas portas nas pontas que eram vigiadas por soldados", afirma.

Os custos, no entanto, tinham sido altos para construí-la. Segundo relato do frei Manuel Calado, de Cidade Maurícia, foram gastos noventa mil cruzados na obra, um valor alto para os padrões da época e que precisava retornar de alguma forma para os cofres dos colonizadores. Então, surgiu a ideia de fazer um boi voar sobre a ponte perante a multidão de Maurícia e Recife.

Nassau anunciou dias antes da inauguração que cobraria uma espécie de pedágio para quem quisesse cruzar a ponte naquele domingo: o pagamento de duas "placas" de ouro. Como resposta, o governador faria uma exibição aos presentes em que um animal voaria de um lado a outro do rio. Os relatos não indicam uma numeração precisa, mas afirmam que boa parte da população das vilas se concentrou nas duas pontas da travessia na data marcada. De acordo com o banco histórico da prefeitura de Recife, foram coletados 1.500 florins em impostos na ocasião.

O frei Manuel Calado, em seu livro Valeroso Lucideno e triumpho da liberdade, de 1648, é a principal fonte dos historiadores sobre o evento. Em seu relato, ele conta que Nassau primeiro mandou esfolar um boi para dar de comer aos membros do Conselho holandês, preservando-lhe a pele. Depois do almoço, pediu que enchessem a carcaça do animal de plantas e o colocassem no alto de uma galeria em um dos lados do rio. Para despistar a multidão, pegou outro boi de um fazendeiro local, Belchior Alves, e o exibiu aos presentes do mesmo terraço antes de prendê-lo em um dormitório.

"Então, tiraram o outro couro de boi cheio de palha e o fizeram vir voando por umas cordas com um engenho, e a gente rude ficou admirada, e muito mais a prudente, vendo que com aquela traça ajuntara ali o Conde de Nassau tanta gente para a fazer passar por a ponte, e tirar aquela tarde grande ganância, e tanta gente passou de uma para outra parte, que naquela tarde rendeu a ponte mil e oitocentos florins, não pagando cada pessoa mais que duas placas à ida, e duas à vinda", prossegue o relato do frei.

"Foi um espetáculo que marcou a história da Cidade Maurícia", conta a historiadora Regina Machado, da Fundação Joaquim Nabuco. "O público que assistiu ficou de boca aberta e aplaudiu como uma grande peripécia mesmo. Maurício de Nassau ficou conhecido e admirado por todos pela sua criatividade e astúcia", completa.

A ponte se tornaria um marco da presença holandesa no Brasil e um símbolo do desenvolvimento nordestino. Ao longo da história, teria três nomes diferentes: na primeira vez que foi erguida, em 1644, chamou-se Ponte do Recife. Com a sua queda em 1815, outra ponte foi construída durante os anos seguintes e inaugurada em 1865 com o batismo de Ponte 7 de Setembro. Corroída pela ferrugem, ela precisou passar por uma reforma quase completa que a reinaugurou em 1917, já com o nome do governador que a construiu séculos antes.

Maurício de Nassau deixaria o Brasil em 1643 após passar por diversas regiões do Nordeste em conflitos armados pela manutenção da colônia holandesa, mas jamais saiu do imaginário popular nordestino: hoje, nomeia, além da ponte, ruas e bairros da região e até uma universidade com campus em Campina Grande.

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