terça, 19 de novembro de 2019
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Netflix lança filme inacabado de Orson Welles

André Luiz Maia / 25 de dezembro de 2018
Foto: Divulgação
A revolução digital está apresentando mais um desafio ao cinema, que gera polêmicas, discussões acaloradas e até mesmo boicotes de grandes festivais do gênero. Mas, afinal, o que causa tanto frisson ao redor das produções cinematográficas produzidas por e para o streaming? Quem tem medo da Netflix?

Comecemos pelo caso mais recente. O premiado diretor Alfonso Cuarón (Gravidade, E Tua Mãe Também) apresentou seu novo filme Roma em sessões gratuitas em cinemas selecionados por várias partes do mundo. Para concorrer ao Oscar de filme de língua não inglesa, a Academia exige que os filmes tenham sido exibidos comercialmente em seus países de origem ao menos em uma sala, por uma semana. Para as demais categorias, é necessária a exibição comercial em Los Angeles, também pelo mínimo de uma semana.

A produção mexicana já está disponível na Netflix, contando a história da doméstica Cleo e sua colega de trabalho Adela, que trabalham para uma família no bairro de classe média mexicano chamado Roma na metade dos anos 1970. A obra discute as relações e tensões de classes sociais e a figura feminina no seio familiar.

No ano passado, duas produções da Netflix tinham causado burburinho ao serem selecionadas para o prestigiado Festival de Cannes, na França: Okja, de Bong Joon-ho, e Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe, de Noah Baumbach. Os exibidores franceses reclamaram e o festival definiu que filmes selecionados deveriam primeiro entrar em cartaz nos cinemas franceses antes de ir para outras plataformas (streaming, inclusive).

A reação da Netflix foi não participar do festival em 2018, nem mesmo com o esperado O Outro Lado do Vento, projeto inacabado de Orson Welles, finalizado quatro décadas depois com patrocínio da plataforma de streaming.

Welles chegou a concluir a filmagem de seu último longa nos anos 1970, mas nunca teve grana para finalizar e editar o filme. Peter Bogdanovich, cineasta e ator no filme, supervisionou o processo.

O resultado é que há um filme novo de Welles na praça, mostrando que a Netflix está em busca também de prestígio e se tornando opção para grandes cineastas. Caso também dos irmãos Coen, que também lançaram um longa este ano pela plataforma.

Os diretores de filmes cultuados como Onde Os Fracos Não Têm Vez e O Grande Lebowsky apresentaram este ano o faroeste A Balada de Buster Scruggs. O filme, formado por seis histórias, também já é considerado um dos melhores do ano.

Nomes importantes do cinema continuarão experimentando a produção e distribuição pela Netflix em 2019. O mexicano Guillermo Del Toro (vencedor do Oscar este ano por A Forma da Água) já tem contrato assinado para produzir uma versão em stop-motion do clássico Pinóquio.

Já o grande Martin Scorsese (de clássicos marcantes da tela grande como Taxi Driver e Os Bons Companheiros) também já tem projeto engatilhado com a Netflix: The Irishman, sobre o assassinato de um sindicalista irlandês. É o filme no qual vai se reunir com velhos parceiros de trajetória: Robert De Niro, Joe Pesci e Harvey Keitel. Al Pacino também está no filme.

O movimento de migração de grandes nomes do cinema para as plataformas de streaming não são uma novidade, a exemplo da série Crisis In Six Scenes, de Woody Allen, para a Amazon Prime Video. A TV a cabo também se beneficia desse movimento, a  exemplo da HBO, com os projeto Sharp Objects (estrelado por Amy Adams) e Big Little Lies, cuja segunda temporada terá o acréscimo de Meryl Streep ao time já estelar composto por nomes como Nicole Kidman e Reese Witherspoon.

A diferença é que a tendência agora não é de seriados, ou a migração de astros. Mas cineastas que estão produzindo seus filmes na plataforma, e estes alguns dos melhores e mais aguardados projetos do mercado de longas-metragens.

Para entender esse fenômeno, talvez a fala do produtor Jerry Bruckheimer seja elucidativa. "É difícil fazer um filme de US$ 40 milhões, porque não vão bem fora dos EUA".

Ou seja: Hollywood começou a investir nos extremos. De um lado, há as megaproduções e obras de baixo orçamento. O meio do caminho acabou entrando em um limbo no circuito dos grandes estúdios e é aqui que a Netflix cresce.

Se por um lado há uma preocupação legítima quanto a esse "escoamento" das grandes salas, deixando espaço para que os blockbusters formem uma espécie de monopólio, pouco se discute sobre a expansão sem precedentes da acessibilidade a essas obras.

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