domingo, 21 de julho de 2019
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Multipremiada HQ ‘Bone’ começa mais uma vez a ser publicada no Brasil

Renato Félix / 06 de fevereiro de 2019
Foto: Divulgação
Como tantos jovens de sua época, antes e depois, Jeff Smith tinha o sonho de trabalhar com quadrinhos. Não ter conseguido espaço nas grandes editoras, nos anos 1980, o fez procurar seu próprio caminho. A inspiração foi uma nova cena que vinha surgindo de HQs independentes e autores começando a mostrar sua visão de maneira mais forte mesmo dentro de Marvel ou DC. Smith, então, lançou o primeiro número de Bone em 1991. Quando a 55ª e última edição foi lançada, em 2004, Bone já tinha seu lugar entre os grandes quadrinhos.

A série ganha, agora, sua terceira tentativa de publicação no Brasil — desta vez, pela editora Todavia. Nas duas primeiras, a série não chegou ao final por aqui. A Via Lettera lançou 14 volumes entre 1998 e 2010 (um volume encadernado original era dividido em dois pela editora; eram nove originalmente). Em 2015, a HQM reiniciou a série, desta vez com a versão colorida, mas não passou do primeiro número.

A coleção da Todavia é mais enxuta, reunindo mais edições do gibi em um mesmo volume. As 144 páginas da edição da HQM saltam para 448, somando os primeiros 20 números da revista, lançados bimestralmente ou trimestralmente entre 1991 e 1995.

A série completa estará reunida, portanto, em três volumes. Também é colorida. Originalmente, Bone saiu em preto-e-branco e Jeff Smith foi convencido por Art Spiegelman, autor do antológico Maus e um de seus inspiradores no mundo da HQ independente e autoral, de que Bone não estaria completa até existir uma versão a cores.

Estratégia. A história da criação de Bone é contada pelo próprio Jeff Smith em um posfácio deste primeiro volume da Todavia, intitulado “20 anos com Bone”, escrito em 2010. Nele, o autor conta sobre sua estratégia de centrar seus primeiros números no humor e na aventura para atrair o leitor e fazê-lo embarcar, sem saber, em um épico que vai se desenhando a cada número. No fim, Bone seria uma história só de quase 1.500 páginas.

Dá certo. Este primeiro volume apresenta os Bone, três seres fofinhos que lembram um pouco os Shmoos do Ferdinando e Pogo, de Walt Kelly, com temperamento às vezes próximo do Calvin de Bill Watterson. São três: Fone Bone, o sensato protagonista; Smiley Bone, bonachão e pouco esperto; e Phoney Bone, ganancioso e sempre de caráter questionável.

A história os pega fugindo de sua terra natal, Boneville, após uma trapaça de Phoney que deu errado. Acabam chegando a um vale com bichos falantes, mas também seres ameaçadores que eles chamam de ratazanas e um dragão que os ajuda. Fone Bone também conhece uma bela moça, Espinho, que mora com a avó dura na queda.

A trama vai se desenrolando em outros desdobramentos e revelações sobre o passado. E o que era uma comédia de aventura (com grande inspiração no trabalho de Carl Barks com o Tio Patinhas e o Pato Donald) vai ganhando tons de um épico fantástico já próximo do fim deste primeiro volume, muitas vezes citado como lembrando O Senhor dos Anéis.

Narrativa. Jeff Smith é, antes de tudo, um excelente narrador. É ótimo no desenho e no texto, que combinam o humor de cartum com algum realismo quando necessário, mas faz grande diferença a maneira como ele conta a história.

Smith constrói cada cena sem pressa alguma, no ritmo ideal. Hoje em dia, é comum encntrar HQs onde situações inteiras são resumidas a um texto ilustrado por um quadrinho apenas. Smith desenvolve as situações de maneira dramática, gastando tantos quadrinhos quanto for preciso.

Certamente é um estilo que ele levou dos desenhos animados, seara em que trabalhava antes de mergulhar na produção de Bone e onde a construção dramática das cenas é fundamental, assim como a movimentação dos personagens.

Ao longo de sua trajetória, Bone ganhou 10 prêmios Eisner e 11 prêmios Harvey, os principais prêmios do mercado americano de quadrinhos. A publicação saiu vitoriosa, entre 1993 e 1998, nas categorias Publicação de humor, História seriada, Série contínua, Escritor/ desenhista. Em 2005, levou por melhor relançamento de álbum.

Smith teve outra publicação lançada no Brasil: Shazam! & a Sociedade dos Monstros, feita para a DC, uma bela revisita ao velho Capitão Marvel que saiu por aqui em 2014 e tem muito do visual e clima de Bone. Também foi lançado no Brasil, em 2010, O Ratinho Se Veste, uma obra infantil de 32 páginas, lançada pela Companhia das Letras. Smith sabe mesmo recorrer à infância viva em cada um.

"Ao longo de todo esse tempo, nunca cansei de desenhar ‘Bone’. Na verdade, foi o contrário. Entrar no mundo de ‘Bone’ era quase uma experiência zen: o mundo real sumia e eu voltava dali sempre renovado." - Jeff Smith, autor, no posfácio

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