quarta, 19 de dezembro de 2018
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Menos de 0,5% da costa paraibana é considerada área de conservação

Beto Pessoa / 26 de maio de 2018
Foto: Divulgação/Delaware North Companies (Imagem ilustrativa)
Menos de 0,5% da costa paraibana é considerada área de conservação ambiental. Isso quer dizer que boa parte dos organismos que ali vivem estão vulneráveis e ainda são pouco conhecidos. Para mudar este cenário, especialistas têm mergulhado profundo em busca de respostas que ajudem a criar uma cartografia das espécies marinhas da Paraíba.

Entender para preservar. Mapear para explorar. Pesquisadores do Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação, vinculado ao Departamento de Ecologia e Sistemática da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), são alguns dos ‘marujos’ embarcados na busca por compreender a biodiversidade das águas paraibanas. O coordenador do grupo, o biólogo Bráulio dos Santos, Doutor em Ciências pela Universidad Nacional Autónoma de México, explica a riqueza já encontrada até o momento.

“O projeto revelou uma biodiversidade impressionante e insubstituível, várias formações recifais localizadas a mais de 30 metros de profundidade e naufrágios que resguardam um patrimônio histórico e cultural de interesse mundial. O Naufrágio Queimado, por exemplo, é a única embarcação com caldeiras retangulares construída na história da navegação mundial. No mundo inteiro não há uma embarcação naufragada com essas características, o que merece seu devido valor”, disse.

Além dos naufrágios, os pesquisadores mapearam dezenas de ecossistemas marinhos, alguns pouco catalogados no estado. “Encontramos diversas espécies ameaçadas e endêmicas, após o levantamento preliminar das espécies de macroalgas, esponjas, corais, peixes, quelônios e mamíferos marinhos. Novos estudos devem revelar uma diversidade biológica ainda maior”, explicou o especialista.

O professor Bráulio Santos e sua equipe de pesquisadores têm tentado atender a meta estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU), que até 2020 visa a proteção de até 10% das áreas marinhas e costeiras dos países. Um feixe de luz sob o infinito e pouco explorado universo oceânico da Paraíba, destaca o coordenador do grupo de estudos.

“193 países já decidiram conservar 10% do ambiente marinho até 2020. O Brasil hoje só tem 1,5% do seu oceano conservado, a Paraíba tem menos de 0,5%. Para estabelecer prioridades de conservação de ecossistemas recifais, é preciso primeiro mapeá-los, saber onde estão. Em segundo lugar, precisamos saber o que os caracteriza, quais os organismos e as formas de vida que o compõem. Nosso projeto respondeu esta pergunta: onde estão os recifes naturais da Paraíba e qual vida marinha está associada a eles”.

Para mapear as informações recifais do estado, o grupo percorreu 1.800 km da costa paraibana, utilizando o ecobatímetro, uma espécie de lupa que, através de ondas sonoras, mapear os organismos que estão abaixo da embarcação. Ele salva as informações a cada segundo, junto com as coordenadas geográficas, o que permite um mapeamento preciso do perímetro percorrido. Câmeras subaquáticas também foram utilizadas para fazer os registros.

Um dos principais resultados encontrados pelos estudiosos foram as variadas formações recifais do estado. “O principal resultado foi o achado de 4 formações recifais mesofóricas, aquelas que estão abaixo dos 30 metros de profundidade. Nós mapeamos essas áreas, depois expandimos para área rasa, de 5 a 10 metros de profundidade. Das duas formações mesofóricas, duas foram novidades completas. Encontramos indícios de que são paleocanais, ou seja, provavelmente encontramos o antigo curso do Rio Paraíba”, disse Bráulio Santos.

O projeto tem financiamento da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, apoio administrativo do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste, apoio logístico da Mar Aberto Mergulho e foi desenvolvido por professores e alunos de doutorado, mestrado e graduação da UFPB.

Na avaliação do pesquisador Bráulio Santos, a pesquisa servirá de instrumento para conhecer e proteger as espécies que habitam águas paraibanas. “Todas as 5 espécies de tartarugas marinhas em ocorrência no Brasil utilizam a nossa costa. A Tartaruga de Pente, uma das mais ameaçadas, desova na nossa costa e já está registrada pelo projeto. Também documentamos diversos mamíferos marinhos, como peixe boi, baleia jubarte, golfinhos. O projeto reúne informações desde as macroalgas e invertebrados até a fauna de grande porte ameaçada ou criticamente ameaçada”, disse.

Unidade de Conservação Marinha

Com o objetivo de preservar e explorar com responsabilidade a região costeira da Paraíba, deve ser criado ainda este ano o Parque Estadual de Conservação Marinha, com apoio do Governo do Estado. O professor Bráulio Santos explicou como será a dinâmica deste projeto.

“O objetivo é conservar o rico patrimônio natural e cultural, resguardado nos ecossistemas recifais naturais e artificiais da costa paraibana, possibilitando o desenvolvimento de atividades de recreação em contato com a natureza, o turismo ecológico, a interpretação ambiental e as pesquisas científicas. A unidade também tem como objetivo recuperar os estoques pesqueiros do estado, contribuindo para a manutenção da pesca artesanal na plataforma continental paraibana”, disse.

A unidade abrangerá os recifes rasos da Penha e Seixas até os parrachos de Ponta de Campina, conectando o Parque Estadual das Trilhas ao Parque Estadual Marinho de Areia Vermelha. Também protegerá três naufrágios (Alice, Alvarenga e Queimado), três recifes profundos de extrema importância biológica e um paleocanal que possivelmente representa o antigo curso do Rio Paraíba, atualmente localizado a cerca de 20 km da costa.

Essas formações recifais profundas estão distantes da costa, de forma que a porção norte da unidade entrará mar adentro até a quebra da plataforma, aos 75 metros de profundidade. No total, o Parque abrangerá uma área de aproximadamente 422 km².

“O projeto trará inúmeros benefícios ambientais, sociais e econômicos para a Paraíba, incluindo a geração de empregos diretos e indiretos, a criação de fontes alternativas de renda para populações tradicionais e a conservação de ativos ambientais exclusivos”, destacou o pesquisador Bráulio Santos.

Benefícios do projeto:



  • Respeitar a meta da ONU sobre a conservação de 10% dos ecossistemas marinhos até 2020






  • Proteger espécies ameaçadas segundo Portarias do Ministério do Meio Ambiente (No. 444 e 445/2014), entre outros instrumentos semelhantes






  • Conservar as localidades e os naufrágios listados como prioritários pelo Decreto Estadual 35.750/2015






  • Fomentar o turismo sustentável em contato com a natureza, valorizando o patrimônio natural e cultural da região, como recomendado pelo Governo Federal






  • Desenvolver a pesca comercial artesanal em nível estadual, no âmbito da Lei Federal No. 11.959/2009, exportando recursos pesqueiros para as áreas adjacentes à unidade.






  • A criação da unidade na categoria de Parque não proibirá a circulação das pessoas nas praias nem o acesso ao mar.




Projetos do Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação que estudam a costa paraibana:

Projeto Peixes de Recifes Naturais – Estuda o número de espécies, a quantidade de indivíduos, bem como as formas e funções dessas espécies: se são carnívoras, herbívoras, se formam agregação reprodutiva ou se são espécies solitárias. E também analisa a diversidade filogenética. Já foram documentadas 60 espécies de peixes, entre elas o Bodião Azul, espécie ameaçada de extinção.

Projeto Peixes de Recifes Artificiais - Tem o mesmo objetivo do projeto anterior, mas são analisados os recifes artificiais, aqueles formados nos naufrágios. A importância deste recorte é que, como os recifes naturais vêm sendo degradados, os recifes artificiais acabam servindo como abrigo, proteção e alimentação para as várias espécies de peixes recifais.

Projeto Recifes de Corais – Analisou as comunidades de recife de coral e como elas estão organizadas na Paraíba, em um gradiente de profundidade, tanto os rasos quanto os profundos. Já foram encontradas 17 espécies de 14 famílias, divididas em 861 colônias. Também foram encontrados dois novos registros: o Coral Negro (Cirrhipathes SP.) e a Agaricia Fragilis, que foi o primeiro registro para a Paraíba. Em geral mostrou que tantos os corais rasos quanto profundos são complementares em questão de diversidade.

Projeto Doenças em Corais – Os resultados encontrados até agora foram alarmantes, mostrando um alto volume de corais doentes, tanto em áreas rasas quanto profundas.

Projeto Tubarão Lixa – O projeto tem como objetivo identificar quantos tubarões estão na costa paraibana e aonde eles estão. Como todo tubarão atua como predadores de topo, ou seja, controlam a população de todos os peixes abaixo dele, através da predação, o estudo quer analisar como está a situação desses animais, que no Brasil estão ameaçados de extinção.

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