quarta, 22 de maio de 2019
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Livro de Maria Valéria Rezende é carta de mulher enclausurada

André Luiz Maia / 14 de maio de 2019
Levou cerca de uma década até Maria Valéria Rezende conseguir conceber seu mais novo livro lançado da forma como achava mais adequada. Carta à Rainha Louca fala de um Brasil do passado que parece ter muito a ver com o que vivenciamos hoje, sob a perspectiva de uma mulher enclausurada que revela suas intenções, frustrações e esperanças através de uma carta destinada a uma rainha. O lançamento em João Pessoa acontece hoje n'A Budega Arte Café, nos Bancários.

Com uma casa herdada de seus pais, Isabel Maria tinha o desejo de alojar pobres e pessoas sem abrigo. Por estas ideias, é detida e presa no Recolhimento da Conceição, convento das irmãs Dorotéias, em Olinda. Sua única vista era através de uma pequena janela de um cubículo de “pouco mais de duas braças”. É nesse contexto que decide escrever a tal carta que dá título à obra.

O romance na verdade emula a estrutura de uma carta manuscrita, destinada a D. Maria I de Portugal, a primeira mulher a comandar o reino. O ano é 1789 e a situação das mulheres não era muito favorável. “Ela escreve essa carta acreditando que agora, por ter uma soberana mulher, as coisas poderiam ser diferentes, mas ao longo da escrita, ela deixa claro que não sabe como fazer com que aquele relato chegue à rainha”, comenta Maria Valéria Rezende, em entrevista ao CORREIO.

O romance é uma ficção, mas tomou como base documentos reais para sua elaboração. Nos anos 1980, quando Maria Valéria estava em Portugal, ela teve acesso a papéis e cartas guardados no Arquivo Ultramarino, em Lisboa. Era o relato de uma mulher que expunha o desejo de ajudar outras companheiras que não tinham para onde ir.

A escritora, então, imagina o desenrolar de todo aquele processo, já que não há mais registros sobre essa história.

Ao escrever o livro de pouco mais de 140 páginas, ela opta pelo formato de manuscrito. Ou seja, não se espante caso encontre trechos destacados, cortados e censurados, cheio de rasuras, como uma carta escrita à mão com certa urgência estaria.

O livro já estava pronto desde fevereiro do ano passado, demorando mais de um ano para vir à tona por questões burocráticas da editora. No entanto, a obra demorou cerca de 10 anos para ser finalizada e a principal razão disso reside na linguagem.

Maria Valéria quis encontrar um equilíbrio entre o vocabulário da época e o atual. “É uma carta que traz um rebuscamento que remete à epoca, mas que não se torna ilegível ou truncado para os leitores do século XXI. O que eu mais queria era fazer um texto compreensível mas que fosse completamente crível, que pudesse ter sido escrito, daquela maneira, em 1789”, pontua. Para tanto, ela pesquisou exaustivamente, lendo originais da época para poder se adequar.

Um dos detalhes curiosos diz respeito à estrutura de algumas frases. “Eu também tinha que me preocupar em atender à forma que uma pessoa letrada daquela época escreveria. Isabel Maria tinha leitura e pessoas com esse nível de alfabetização costumavam escrever com uma estrutura específica, com os verbos geralmente localizados no fim da frase, uma consequência da alfabetização dessas pessoas em latim”, ressalta a escritora.

A escolha por essa linguagem “híbrida” não é mera questão estilística. Carta à Rainha Louca não parece muito diferente dos relatos de mulheres da nossa época, mesmo com a distância histórica de cerca de 200 anos. “As mulheres eram e continuam sendo tolhidas de suas vontades, de sua própria autonomia. A rainha D. Maria era considerada louca, mesmo chegando em um cargo de alto poder. Hoje, as mulheres mudaram de posição na sociedade, há mais liberdades, mas os dilemas continuam semelhantes”, analisa.

Outro aspecto curioso na obra é a materialidade impressa na linguagem de Maria Valéria Rezende. É fácil imaginar as imagens descritas por Isabel Maria em seu relato urgente, quase como um desabafo. Essa característica é compartilhada por outras obras de sua autoria, como Quarenta Dias, em que a madrugada desoladora das ruas de Porto Alegre ganha vida, ou Outro Cantos, em que o Sertão nordestino ganha cores e formas através das palavras.

“Eu não percebia isso, mas de tanto as pessoas falarem, comecei a prestar mais atenção. Acho que isso acontece porque sempre tive o visual como referência, desde a sala de revelação do meu avô, que era fotógrafo, aos filmes que eu via nos cinemas de Santos na infância e adolescência”, relembra.

O romance em forma de carta nos mostra uma realidade que parece relegada aos livros de História, mas que é mais contemporânea do que imaginamos.

"A mulher continua sendo usada como moeda de troca nas relações do patriarcado. As disputas agora são em outros espaços, mas continuam semelhantes." - Maria Valéria Rezende, escritora

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