segunda, 20 de maio de 2019
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Joe Shuster, cocriador do Super-Homem, ganha biografia

Renato Félix / 30 de dezembro de 2018
Foto: Divulgação
Um guarda encontra um velhinho dormindo num banco de praça. Compadecido, resolve levá-lo para comer alguma coisa em um diner. Quando pergunta quem ele é e como foi parar ali, a resposta o surpreende: é um dos criadores do Super-Homem, um dos personagens mais famosos da ficção. O ano é 1975, é Joe Shuster, o desenhista que criou o personagem junto com o roteirista Jerry Siegel estava na miséria.

É assim que começa A História de Joe Shuster, o Artista por Trás do Superman, excelente biografia em quadrinhos lançada este ano, o mesmo ano em que o Homem de Aço completou 80 anos de criação. O roteiro é do alemão Julian Voloj, com desenhos do italiano Thomas Campi, mostrando os passos da criação do personagem e os percalços jurídicos que vieram depois.

A história, nem que seja por alto, é conhecida por quem tem alguma intimidade com a história das histórias em quadrinhos. Dois garotos de Cleveland, o roteirista Jerry Siegel e o desenhista Joe Shuster criaram o Super-Homem nos anos 1930. O personagem estreou no gibi Action Comics 1, em abril de 1938. Mas, para isso, a dupla vendeu os direitos do heróis para a editora (a National Comics, depois DC) por meros 130 dólares.

Acontece que o Super-Homem fez um sucesso estrondoso, inimaginável, e que fez a fortuna da editora — mas os criadores ficaram à margem desse sucesso. Um processo foi aberto por uma compensação justa, retaliações aconteceram e Siegel e Shuster se viram em dificuldades financeiras por um bom tempo. Só nos anos 1970 é que, finalmente, a Warner, já dona da DC, firmou um acordo decente com a dupla. Uma superprodução estrelando o personagem estava chegando aos cinemas e o estúdio não quis uma publicidade ruim dessas ameaçando o sucesso da empreitada.

É uma das grandes histórias de bastidores do mercado dos quadrinhos, e uma das mais tristes, mesmo que o final seja feliz. O roteiro de Voloj, embora dramatize os fatos, é de maneira impressionante baseado em documentação. Cartas, diários, memorandos, entrevistas, relatos em livros, muito material foi transformado em diálogos.

Na arte, Campi imprime dois visuais distintos. O prólogo e o epílogo possuem um traço mais marcado, mas vacilante. Shuster conta sua história para o guarda que o acolhe e esse longo flashback, que é a razão de ser do álbum, é narrado com um visual aquarelado deslumbrante: suave, elegante e quase sempre sem linhas de contorno.

É um álbum precioso também por sua ambientação: os anos 1930 eram, ainda, a aurora dos quadrinhos. A nona arte estava em suas primeiras décadas, os quadrinhos estavam conquistando um meio além de seu berço nas páginas de jornais: os encadernados com histórias completas e coloridas que viríamos chamar de gibi.

Mesmo com isso, a narrativa assume o ponto de vista pessoal de Shuster e algumas vezes foge do registro realista, deixando no ar outras possibilidades para alguns fatos. A antipatia pelo artista que por muito anos foi considerado o único criador do Batman, Bob Kane (hoje, Bill Finger é finalmente creditado junto com Kane), é palpável.

Não é por acaso que Kane é mostrado se pavoneando, dizendo "Eu sou o Batman", mas, num momento específico, seu rosto se torna o do Coringa, o principal vilão do Batman. Essa é a opinião de Shuster, ou de Voloj e Campi?

Da mesma forma, enquanto Shuster narra em texto que um personagem sofreu um acidente, as imagens mostram esse personagem levando uma surra de uns gangsters. É uma representação do que Shuster, em seu íntimo, acreditava? Ou, de novo, é o que a história acredita que aconteceu de verdade? De qualquer forma, é uma maneira inteligente de deixar no ar uma outra possibilidade para os acontecimentos.

A obra traz um volumoso apêndice com notas sobre as passagens da HQ que relacionam os documentos de onde saíram os fatos e as palavras ditas, incluindo imagens ilustrativas. Entre as diversas republicações de HQs do Super-Homem que apareceram este ano, esta, em que o herói é coadjuvante de seus criadores, tem importância singular.

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