sexta, 19 de abril de 2019
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Indicados ao Oscar que abordam questões raciais estreiam em JP

André Luiz Maia / 24 de janeiro de 2019
Foto: Divulgação
O Oscar anunciou seus indicados para a premiação de 2019 e os programadores se apressam para trazer algumas dessas produções para suas salas de cinema. Hoje, por exemplo, chega a João Pessoa o filme Green Book — O Guia, um dos nomes que figuram nas listas de apostas para ganhar o prêmio de Melhor Filme.

Essa época também faz com que produções que não tinham sido exibidas por aqui na época do lançamento entre em cartaz, como é o caso de Infiltrado na Klan, filme de Spike Lee que concorre a seis estatuetas. Vale lembrar também de uma ausência: embora tenha sua estreia nacional programada para hoje, A Favorita, outro dos filmes da lista do Oscar, não estreará na Paraíba.

Green Book — O Guia chega à temporada de premiações carregado de polêmicas. Contudo, antes de entrarmos nesse assunto, é importante salientar as temáticas abordadas no filme. Trata-se da improvável amizade entre Tony Lip (Viggo Mortensen), um segurança que precisa de emprego após ver a boate em que trabalhava fechar, e o pianista Don Shirley (Mahershala Ali). Invertendo expectativas e estereótipos racistas, Tony é branco, bronco e boca-suja, enquanto Don é um músico erudito, excêntrico, culto e extremamente educado.

A história é baseada em um acontecimento real dos anos 1960, em meio ao caos do segregacionismo racial que acontecia nos Estados Unidos. Shirley contrata Lip como motorista por conta de uma turnê que o músico teria que fazer pelo interior do Sul do país, uma das regiões mais afetadas pela política de discriminação racial.

As comparações com Conduzindo Miss Daisy são inevitáveis - porém com “sinal trocado”, já que lá o motorista era negro e a contratante era branca. No entanto, Green Book vem recebendo elogios por tratar de um capítulo delicado da história norte-americana com sensibilidade, o que surpreendeu parte dos críticos, já que a direção é assinada por Peter Farrelly, responsável por filmes que pouco têm a ver com este (Débi & Loide — Dois Idiotas em Apuros e Quem Vai Ficar com Mary?).

Os maiores problemas que depõem contra o filme, incrivelmente, estão fora dele. A campanha de Green Book na corrida pelo Oscar esbarra em algumas questões, como o questionamento da família de Don, que questiona a veracidade de boa parte das histórias apresentadas no filme. Outro capítulo insólito foi o ressurgimento de um fator desconfortável sobre o passado do diretor Peter Farrelly, que costumava tirar as calças na frente de outras pessoas como “piada” durante as gravações.

No entanto, a que mais revoltou parte do público e da classe artística diz respeito a uma postagem feita no Twitter, em 2015, por Nick Vallelonga, roteirista de Green Book. Na mensagem, ele declarava apoio a Donald Trump em uma declaração discriminatória a muçulmanos, fato este que se torna ainda mais desconcertante quando lembramos que Don é interpretado por Mahershala Ali, que é muçulmano. Mesmo com esses percalços, o filme ainda é visto como um dos favoritos na disputa da principal categoria do Oscar.

Infiltrado na Klan também fala sobre racismo e se arvora em outra história real, mas de uma maneira muito mais intensa e crítica. O fato histórico é: em 1978, o policial negro Ron Stallworth conseguiu se infiltrar na célula local da organização racista Ku Klux Klan, que promovia a higienização racial.

Através de cartas e telefonemas, Ron passou a ter informações privilegiadas sobre encontros e decisões internas da facção. Para conseguir dar continuidade à farsa, ele contou com a ajuda de um policial judeu (porém branco), que comparecia às reuniões presenciais. Em questão de meses, Ron e seu “avatar” se tornam líderes da seita.

A história seria bastante surreal e até considerada inverossímil caso fosse uma ficção pura. O diretor Spike Lee se aproveita do fato ser um caso real e explora ao máximo o absurdo da situação, resultando em um filme, sim, chocante, mas com uma boa carga de sarcasmo e acidez. “Com bastante humor e altas doses de sarcasmo, aliado a boas sequências de ação e aventura, Lee entrega um filme irresistível, que consegue envolver o espectador e deixá-lo apreensivo na expectativa pelo desfecho da missão”, define Gabriel von Borell, em crítica para o site Tenho Mais Discos que Amigos.

Nos últimos minutos de projeção, Infiltrado na Klan inclui cenas contemporâneas de episódios relacionados a racismo e discriminação étnico-racial. Com isso, Spike Lee dá uma piscada de olho para os espectadores, mostrando que talvez a situação não tema mudado muito ao longo dos últimos 50 anos.

Por sinal, esta é a primeira vez que Spike é indicado ao prêmio de diretor em toda a sua carreira. Com mais de 30 anos na indústria, até então contava com apenas duas indicações para o prêmio: melhor roteiro original por Faça a Coisa Certa, em 1990, e melhor documentário por 4 Little Girls, em 1998, não levando nenhum.

O cineasta ficou conhecido por trabalhar temáticas raciais e sociais em suas obras. Nos últimos anos, passou por um período de inconstância, com obras ignoradas pela crítica, mas Infiltrado na Klan marca seu “retorno à boa forma”.

Outro fator curioso na indicação de Lee ao prêmio de melhor direção é que ele é apenas o sexto diretor negro a receber uma indicação ao Oscar ao longo das 91 edições, se juntando ao time composto por John Singleton (Os Donos da Rua), Lee Daniels (Preciosa — Uma História de Esperança), Steve McQueen (12 Anos de Escravidão) e Barry Jenkins (Moonlight — Sob a Luz do Luar). Nenhum venceu.

Para dar vida a esses personagens, estão John David Washington (filho de Denzel Washington), no papel de Ron, e Adam Driver, na pele de Flip Zimmerman. Este último concorre ao prêmio de melhor ator coadjuvante, mas não foi uma indicação recorrente nas diversas premiações que precedem o Oscar.

Esta estatueta provavelmente irá para Mahershala Ali, por seu desempenho em Green Book ­— O Guia. Aos pessoenses, resta conferir o desempenho de ambos a partir de hoje nas telonas.

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