sábado, 16 de fevereiro de 2019
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Incêndio no museu nacional, no Rio, acende (de novo) o sinal de alerta

André Luiz Maia / 04 de setembro de 2018
Foto: Reprodução
Não demorou muito para que imagens como a que abre este texto dominarem a internet, com chamas engolindo o acervo de milhões de peças, documentos e outros objetos do maior museu da América Latina, o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Em poucas horas, uma parte do Brasil se foi, no mínimo 200 anos, já que o prédio foi fundado em 1818, ou mesmo centenas de milhares de anos, como no caso do crânio de Luzia, o fóssil mais antigo encontrado em terreno brasileiro, datado de 13 mil anos.

O pior disso tudo é que não se tratou de um acaso do destino ou uma fatalidade inesperada. Data de 2004 uma matéria da Agência Brasil que já alertava sobre o perigo de incêndio da instituição, negligenciada por diversas gestões federais – o museu é vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). No início de 2015, chegou a fechar as portas pelo corte de verbas brusco, situação que se aprofundou em 2018, com a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) de redução de gastos públicos, drenando ainda mais os recursos para a manutenção do prédio e de seu acervo.

Não é um caso isolado, pelo contrário. Instituições administradas por todas as esferas de poder, em todo o Brasil, passam por situações semelhantes e na Paraíba não seria diferente. No início do mês passado, dia 12 de agosto, o CORREIO trouxe breve reportagem sobre a situação atual dos museus, os “lares da memória”, em virtude de uma série de obras doadas pelo Itaú Cultural.

Ao retomar esta discussão, procuramos a professora Sandra Valéria, coordenadora da Rede de Educadores em Museus (REM) na Paraíba, para saber da possibilidade desta tragédia se repetir em alguma instituição paraibana.

“Sendo muito franca, há. De todos os museus e arquivos históricos que temos aqui no estado, poucos atendem a requisito muito básicos para a segurança e manutenção de seu prédio e acervo”, alerta. Ao participar de levantamento feito em parceria com o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) em 2018, ela recorda das condições adequadas da Fundação Casa de José Américo como exceção (FCJA). De lá para cá, houve algumas reformas em locais como o Espaço Cultural, que abriga o Arquivo Público da Paraíba, que contém documentos raros e peças únicas.

Outro acervo de documentos históricos que existe na capital é o Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba (IHGP). Para custear sua manutenção, há um convênio com o Governo da Paraíba, por meio da Secretaria de Educação (SEE). Procurados pela reportagem, tanto o IHGP quanto a SEE não quiseram informar o repasse de valores.

Esta questão, inclusive, não é exclusividade do instituto. As informações orçamentárias, que deveriam ser públicas, não são nada transparentes. “É preciso que a população tenha acesso a esses valores. Sem uma comunicação transparente, é impossível conseguirmos fazer a preservação adequada desses museus e acervos”, completa Sandra Valéria.

Funções

Há uma confusão a respeito das atribuições de uma unidade museológica. “O que fica bastante claro para o grande público são as exposições, mas essa é apenas uma face dos museus”, alerta o representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na Paraíba, Átila Tolentino. O especialista salienta que há três funções básicas. “Além da comunicação, que são as exposições, há também o caráter de preservação, tanto do espaço quanto de seu acervo, e a pesquisa. Não só há a conservação da História, mas também um trabalho ativo para a compreensão dos eventos do passado para que possamos resolver as questões do presente da nossa sociedade”, salienta Átila.

Por essas características, os museus são uma ferramenta de educação lúdica e poderosa, um ambiente de preservação e análise da nossa própria história. Um museu em chamas se transforma em triste alegoria de um projeto de nação que sofre para se estabelecer e a memória é uma das chaves para isso.

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