segunda, 21 de setembro de 2020

História
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Soltura era senha para a morte durante a Ditadura Militar, diz carta de ex-vereador

Adelson Barbosa dos Santos / 24 de abril de 2016
Foto: Arquivo
Doutorando em História, Política e Bens Culturais pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, o professor Grimaldo Carneiro Zachariadhes, assegura que a ditadura militar no Brasil foi muito pior do que qualquer pessoa em sã consciência pode imaginar.

A declaração de Grimaldo Carneiro Zachariadhes está provada numa carta escrita no dia 1º de dezembro de 1995 pelo ex-vereador e ex-deputado estadual Antônio Augusto Arroxelas, que foi preso em abril de 1964 e levado para uma cela reservada a políticos perigosos no 15º Regimento de Infantaria, no Bairro de Cruz das Armas, em João Pessoa. Na carta, Arroxelas, hoje aos 77 anos, afirma que a “a cela era o prelúdio da morte” e que a soltura “era a senha para a morte”.

Para provar o que diz na carta, Arroxelas cita os companheiros de prisão Pedro Inácio de Araújo (Pedro Fazendeiro) e João Alfredo Dias (Nego Fuba).

“Pedro Fazendeiro e Nego Fuba foram liberados no dia 7 de setembro de 1964 e desapareceram depois que deixaram o 15º RI”, frisa Arroxelas, lembrando que igual fim tinha sido reservado para ele, mas um alerta de um militar lotado no 1º Grupamento de Engenharia preservou sua vida até hoje. O militar a quem ele se refere foi o então major Afonso Navarro, na época casado com uma ex-colega de Arroxelas: Lourdes Trigueiro. Os dois foram colegas na Juventude Universitária Católica (JUC) e atuaram no movimento estudantil.

Investigação na Assembleia

O MDB tinha virado PMDB e reunia deputados de oposição ao regime, inclusive dissidentes da Arena que não concordaram com as atrocidades dos militares e dos governos estaduais por eles apoiados. Arroxelas e outras lideranças como o ex-deputado federal José Joffily (que também foi cassado pela Ditadura) ingressaram no PMDB em 1981 na condição do partido pedir a instalação da uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembleia Legislativa da Paraíba para investigar o desaparecimento dos dois líderes camponeses 19 anos depois.

Em 1981, a Assembleia Legislativa era formada pelos deputados eleitos em 1978. Como já existia o pluripartidarismo, o deputados do PSD eram maioria e os do PMDB e do PP (Partido Popular) formavam uma bancada menor. Mesmo em minoria, os dois partidos conseguiram assinaturas suficientes no requerimento da CPI e emplacaram o deputado Paulo Gadelha (hoje falecido) para relator dos trabalhos.

Conservadores eram contra

Segundo a carta de Arroxelas, “a maioria governista conservadora e certos setores da imprensa trabalharam contra o funcionamento da CPI, debaixo do argumento de que “não levaria na nada, não daria em nada”. De acordo com o ex-parlamentar “aqueles comprometidos” com os desaparecimentos dos dois líderes camponeses temiam principalmente os depoimentos dos ex-companheiros de Nego Fuba e Pedro Fazendeiro. Sem citar nomes, Arroxelas afirma na correspondência, responsáveis pelo crime temiam a repetição do assunto nos jornais e apostaram no silêncio e na pouca memória do eleitor.

Arroxelas revela na carta que a CPI, embora constituída, não tomou qualquer iniciativa para investigar o fato determinante, que foi o sumiço dos dois lideres camponeses.

A alegação de dificuldades na apuração, segundo Arroxelas, foi simples pretexto, uma vez que não foi dado um só passo nesse sentido, apesar das declarações dele e de testemunhas como José Joffily, Assis Lemos, João Manoel de Carvalho, Jório Machado e Antônio Dantas.

Ordem era para esquecer

Na carta,Arroxelas insiste que a ordem dos poderosos era fazer com que o assunto fosse esquecido. “Tanto é que, nas comemorações dos 150 anos de instalação da Assembleia Legislativa, foi editado um livro de memórias, de autoria de Celso Mariz, atualizado pelo historiador Deusdeti Leitão, sem uma linha sequer sobre a CPI, apesar da análise histórica alcançar a décima legislatura, que compreendeu o período de 1983 a 1987.

No meio da carta, Arroxelas afirma que pessoas influentes tinham grande interesse no silêncio de certos fatos ocorridos na Paraíba antes e durante a ditadura militar. Ele cita os desaparecimentos de Nego Fuba e Pedro Fazendeiro, em 1964, bem como o assassinato do também líder camponês João Pedro Teixeira, em 1962.

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