quinta, 19 de outubro de 2017
História
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Imprensa da Paraíba foi monitorada na ditadura

Adelson Barbosa dos Santos e Mislene Santos / 04 de abril de 2016
Foto: Facebook
A imprensa paraibana foi monitorada minuciosamente pela Ditadura Militar. A revelação foi feita, nesta segunda-feira (04), durante a entrega de mais de sete mil documentos dos arquivos do Serviço Nacional de informação (SNI) e do acervo pessoal do ex-deputado Antônio Augusto Arroxelas a Comissão Estadual da Verdade e da Preservação da Memória do Estado da Paraíba. A entrega dos documentos aconteceu na sala 107 da Central de Aulas da Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa.

Doutorando em História, Política e Bens Culturais pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil, da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, o professor Grimaldo Carneiro Zachariadhes, fez a entrega formal de vasto material obtido pela Comissão Nacional da Verdade sobre a atuação do Regime Militar na Paraíba. Ele explicou que os militares traçavam o perfil completo dos jornais paraibanos e enviavam para Brasília onde o governo avaliava qual veículo poderia receber verbas federais. No dossiê constava o nome do proprietário do jornal, tiragem, número de funcionários, linha editorial, situação financeira e jornalistas mais influentes.

Os jornais Correio da Paraíba, O Norte, Jornal da Paraíba, A União, O momento, Diário da Borborema de Campina Grande e Diário do Sertão foram alvo da Ditadura. “Houve um monitoramento muito grande. Todos os anos eles mandavam relatórios demonstrando como cada órgão de imprensa agia. Isso auxiliava o Governo Federal a financiar ou não um jornal, de investir ou não, de liberar empréstimos ou não. Então, Brasília ficava sabendo de qual era a tendência dos jornais”, reforçou Grimaldo Carneiro Zachariadhs.

Ele disse, ainda, que o acervo entregue à Comissão Estadual da Verdade pertencia a Agência da SNI de Recife (PE) que era responsável pelos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas. “Tem muita gente que foi atingida (pela ditadura) e não sabe, porque não teve publicidade e agora esses documentos estão disponíveis para que essas pessoas e familiares de pessoas que foram perseguidas pela ditadura tenham acesso aos documentos”, disse.

De acordo com Grimaldo Carneiro, a agência da SNI de Recife foi o local onde mais se destruiu informações e que, mesmo assim, não há acervo maior sobre a ditadura que o do Brasil. Segundo ele, são mais de 10 milhões de documentos. “Tem muita coisa no acervo. São muitos crimes que a gente fechou os olhos durante muito tempo. São dores que não eram percebidas e que estão expostas nestes documentos. Agora, podemos contar a história da ditadura como ela realmente aconteceu”, arrematou Grimaldo Carneiro.

Segundo ele, a ditadura no Brasil foi muito pior do que qualquer pessoa pode imaginar. Disse que o Serviço Nacional de Informação, criado pelo general Goubery do Couto e Silva e extinto pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello, destruiu grande parte dos documentos produzidos durante o regime. “A Comissão Nacional teve acesso a 75.743 documentos que foram preservados. Desse total, segundo Grimaldo7.476 documentos foram produzidos nos Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas.

Grimaldo aproveitou parte do vasto material produzido pelo SNI em um livro que está sendo lançado por ele.  Intitulado de “1964: 50 anos depois- A ditadura em debate”, o livro relata as barbaridades praticadas pelos militares quem mandaram e desmandaram no Brasil durante 21 anos, numa das mais sangrentas ditaduras da América Latina.

O que são os documentos entregues

Os documentos são de arquivos pessoais do ex-vereador e ex-deputado estadual Antônio Augusto Arroxelas, um dos paraibanos perseguidos pelo regime militar sob a acusação de subversão. A Comissão também recebeu vasto arquivo do Serviço Nacional de Informação (SNI) com informações valiosas sobre pessoas, fatos e acontecimentos que ocorreram no Estado no período de vigência da ditadura, entre 1º de abril de 1964 e 15 de março de 1985.

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