sexta, 19 de abril de 2019
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Há 50 anos os Beatles tocaram juntos pela última vez ao vivo

Renato Félix / 30 de janeiro de 2019
Foto: Divulgação
Estava sendo uma quinta-feira absolutamente comum na Saville Row, em Londres. Ninguém desconfiou, nem poderia, enquanto equipamentos eram levados escadas acima em um dos prédios da rua, preparados, e equipes de filmagem se colocavam em posição. A rua, cheia de alfaiates e lojas de artigos masculinos, só começou a perceber o que estava acontecendo no final da manhã, quando os primeiros acordes de “Get back” foram ouvidos. As pessoas em seus trabalhos ou no horário do almoço logo fizeram o boato correr: eram os Beatles?

Sim, eram. A Saville Row, no West End, abrigava também o prédio da Apple, quartel-general do quarteto. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr vinham se digladiando num cansativo processo de gravação de um disco e um documentário que mostraria o processo de criação do grupo — e que acabou também mostrando o estado de tensão e deterioração das relações entre eles.

A ideia era encerrar o filme com uma apresentação, que acabou sendo essa, de surpresa, há exatos 50 anos e que acabou sendo a última vez em que os Beatles tocaram juntos para uma plateia.

“É incrivel como, ao mesmo tempo em que vemos as tensoes internas no grupo, ainda puderam mostrar que era uma ótima banda de rock com esta otima performance”, diz o guitarrista Washington Espínola, um beatlemaníaco paraibano que vive na Suíça.

A produção já tinha começado mal. Os Beatles vinham num processo crescente de enfadamento uns com os outros e o começo dos ensaios não foram felizes. O quarteto se instalou no Twickenham Studios: longe, frio, úmido e que não proporcionava uma boa atmosfera criativa para o grupo.

As câmeras de Michael Lindsay-Hogg já estavam lá, junto, para pegar momentos espontâneos dos Beatles e usar em um possível especial para a TV depois. O que elas registraram foi o azedamento entre o grupo, com Paul tentando dirigir e ser motivador e os outros se irritando com isso. Ou, nos melhores momentos, desinteressados.

“Mas, Paul, eu toco o que você quiser. Posso até não tocar nada, se preferir”, respondeu George a uma das indicações de Paul. George, a quem a ideia de um show nunca agradou.

As coisas melhoraram quando os ensaios mudaram para o prédio da Apple e George Harrison, que deixou o grupo do dia 10 ao dia 15, após m,ais um desentendimento com McCartney, trouxe no retorno o tecladista Billy Preston a bordo.

Amigos dos tempos dos shows em Hamburgo, no comecinho da década e antes ainda do primeiro disco, Preston serviu também para apaziguar os ânimos, fazê-los se comportar “diante da visita”.

Quando o tempo começou a fechar de novo, o grupo entendeu que era o momento de concluir o filme. Quando surgiu a ideia do concerto — que viria a ser a primeira apresentação dos Beatles em mais de três anos, desde 29 de agosto de 1966, em San Francisco — houve todo tipo de ideia megalomaníaca. Uma apresentação em um cruzeiro em alto mar, um anfiteatro na Grécia ou na Líbia.

Até que alguém sugeriu a laje da Apple. Ninguém sabe exatamente quem deu a ideia. A biografia The Beatles, de Bob Spitz, diz que John sugeriu darem uma olhada na laje e, lá, todos concordaram que a saída era ótima. Simples, sem precisar lidar com gerentes de turnês, ingressos, fãs loucos.

De surpresa, até mesmo para os funcionários da Apple, os Beatles tocaram cinco canções diferentes: “Get back” (três vezes), “Don't let me down” (duas vezes), “I've got a feeling” (duas vezes), “One after 909” e "Dig a pony”.

Rapidamente a notícia se espalhou. Pessoas se aglomeraram na calçada em frente à Apple, apareceram nas janelas, em andaimes e nos telhados vizinhos. E, também, houve quem chamasse a polícia.

“No fim, chegou o recado trazido pelo nosso ajudante Mal (Evans), que entrou de mansinho, tentando ficar longe da câmera. ‘A polícia está reclamando, vocês têm que parar’. Dissemos: 'Não vamos parar' e continuamos”, contou McCartney na série Anthology. “Ele disse: ‘Vocês vão ser presos’. ‘Um bom final para o filme: Beatles presos em concerto no telhado’”.

Para frustração da banda, os policiais pediram gentilmente. Lennon agradeceu à plateia (“Espero que tenhamos passado no teste”) e, por cerca de 40 minutos, os Beatles tinham parecido com fôlego renovado. Mas a verdade é que a banda havia subido no telhado. Não duraria mais um ano depois da apresentação.

"O que sempre me decepcionou no telhado foi a polícia. Alguém chamou a polícia. Eu estava lá tocando e pensei: ‘Ah, ótimo!’. Sabe, eu queria que os tiras me arrastassem. ‘Larga essa bateria!’. Estávamos sendo filmados e teria sido ótimo. Mas, bom, não fomos presos. Eles só chegaram dizendo: ‘Vocês têm que diminuir o volume’(risos). Poderia ter sido fabuloso." - Ringo Starr, baterista, no documentário The Beatles Anthology

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