quarta, 22 de maio de 2019
Esportes
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Há 34 anos, projeto deu oportunidade a 2 mil jovens através do esporte, em CG

Marques de Souza / 14 de outubro de 2017
Foto: Antonio Ronaldo
Um ginásio, quatro linhas, duas redes e uma bola. Para qualquer pessoa isso pode representar somente mais um local para a prática esportiva. Mas para uma criança, tudo aquilo que já está definido se transforma em um mundo cheio de possibilidades. Essa magia através do futsal acontece em Campina Grande, no ginásio do bairro da Liberdade, há mais de trinta anos.

Se em um cenário mágico os protagonistas fazem milagres através de super poderes, no projeto social Santa Cruz, aquilo que seria um mito dá lugar a um senhor de 62 anos, alto, de voz firme, coronel reformado da Polícia Militar, e que atende pelo nome de Hilton Almeida Guimarães. No início da década de 80, o coronel Hilton, como é chamado, resolveu apostar no esporte para educar crianças e jovens. Do início desafiador até os dias de hoje, por meio de uma partida, o trabalho do militar aposentado rende frutos e transforma a vida de milhares de crianças.

Início

Todos os dias, quando ainda era tenente, Hilton saía de casa e ia para o quartel do 2º Batalhão. Uma cena se repetia: crianças jogando bola em um campinho de pelada, perto da estação ferroviária. Aquela imagem, comum no Brasil, causou reflexão no homem que, dias depois, começou a sonhar.

“Um dia me veio a ideia, já que no quartel tinha um campo e uma quadra, de oferecer uma oportunidade para aquela criançada jogar na quadra do quartel. E aí foi quando eu convidei umas cinco ou seis que lá estavam, e começamos a formar uma equipe de futsal. A intenção maior não era formar jogadores, era propiciar aos meninos uma oportunidade de lazer, de esporte, que toda criança gosta”, comentou.

Em meio aos primeiros passos, o sonho não era de consolidar um grande projeto ou vencer campeonatos. Isso foi conseqüência. A maior ambição, na época, estava em fazer daquelas crianças, bons cidadãos no futuro. “Eu queria aproveitar o esporte para dar algumas lições de cidadania. Aquelas crianças precisavam crescer de uma forma sadia e sendo bem orientadas para a vida”, afirmou o coronel Hilton, citando sua maior preocupação. Em sua visão, a falta de oportunidade prejudica o crescimento de muitos jovens que, sem perspectiva de vida, acabam indo pelos caminhos escuros da violência.

Mudança positiva

O projeto cresceu, se multiplicou e hoje é referência em um trabalho social feito com qualidade e dedicação. Ao longo dos 34 anos de existência do projeto, o coronel Hilton destaca com orgulho o gigante número de pessoas atendidas: mais de duas mil crianças e jovens. Hoje, muitos já são adultos, pais de família. Saíram, mas permanecem lá com um ato que parece renovar o trabalho: colocam seus filhos.

“É muito bom ouvir o depoimento deles. Às vezes me encontro, nem conheço mais e eles perguntam: “coronel, o senhor lembra de mim?”. Hoje eu sou um cidadão, um homem direito, porque passei pela sua escolinha. Esses depoimentos confortam muito. Nem toda criança tem a oportunidade de participar de um projeto como esse, principalmente o nosso, que é de baixa renda. É uma escolinha sem custos, a criança não paga nada”, comentou.

São adolescentes que, moldados pelo cuidado e pelo esporte, se tornam agentes transformadores da realidade em que vivem. Realidade normalmente difícil, mas que se renova a partir da esperança implantada pela ousadia do Coronel. E essa renovação acontece em um aspecto positivo. As manhãs e tardes no ginásio vão além de um jogo, é um exercício diário de ensinar o correto e valorizar as boas atitudes. Rotina que mudou o destino de Hilton. Um golaço de solidariedade.

“Eu sempre tive a consciência de que não adianta galgar posições e aprender as coisas, se não for para passar para os outros. Me ajuda muito a crescer, a gente conhece as limitações de cada um, as necessidades e também os problemas. Principalmente, junto as famílias. Tudo isso nos ajuda em nosso crescimento como cidadão”, comenta.

Grande família

Pai. É essa a palavra que resume a presença do coronel Hilton e os feitos do seu projeto para muitas das crianças e jovens que lá estão semanalmente. O senhor sério, mas de coração gigante e gesto acolhedor é referência para os meninos. E essa relação foi construída nos pequenos detalhes. Da forma cuidadosa ao recebê-los, na atitude em ir buscar e deixar após cada torneio, na preocupação em oferecer o melhor espaço.

Na verdade, o militar que resolveu fazer da assistência aos jovens uma prioridade de vida sabe a importância de se colocar no lugar do outro. Vindo de famílias desestruturadas, a bola de futsal que corre nas quadras e no coração se torna uma válvula de escape do cotidiano muitas vezes sofrido. Rotina cruel que é amenizada na entrada no ginásio. Ali, uma metamorfose acontece.

“A gente praticamente forma uma família. A criança entra com seis ou sete anos, e sai com 17 e 18 anos. Pela estima, podem ser considerados filhos. Muitos deles ficam mais aqui do que em casa. Às vezes, quando o treino termina, eles reclamam. Falam que é melhor estar aqui do que em casa. A maioria das crianças aqui são de famílias desestruturadas, muitos passam até a me chamar de pai. Hoje tem uns dois ou três adultos que ainda me consideram como pai”, afirma.

Desafios do dia-a-dia

Quando resolveu se doar para a manutenção do projeto, o coronel Hilton sabia que, junto com todas as alegrias e aprendizados que a presença de uma criança traz, as surpresas diárias seriam inevitáveis. A família, as más amizades, as ruas. Os problemas precisavam ser encarados. Um caso, em especial, marcou.

“Entrou um menino com seus sete ou oito anos. Bom menino, comportado. Quando ele foi completar 13 anos, foi ficando arisco, mal-educado. Se um jogador entrava forte nele, ele já queria revidar. E eu vi que aquilo não era o comportamento dele”, afirmou o coronel.

O episódio motivou o militar a ir em busca da solução. O que ele não esperava era que seria surpreendido por um cenário onde nem a pessoa mais pessimista desconfiaria. O adolescente, que mudou suas características, foi vítima de uma tragédia familiar.

“Eu disse que levaria ele em casa para conversar com sua mãe e seu pai. Logo ele me falou que morava com a avó. Eu disse: “E cadê sua mãe?”. Ele respondeu: “Morreu!”. Eu completei. “E cadê seu pai?”. Ele disse: “Matou minha mãe.”. E ele presenciou tudo isso. A partir daí eu comecei a entender tudo e procurei conversar, orientar. São muitos casos parecidos”, completou.

Cumplicidade

Durante as manhãs, quando as crianças entre sete e nove anos estão treinando, é comum ver as mães nas arquibancadas do ginásio. Essa presença e apoio das famílias é comemorada pelo coronel Hilton. Atualmente são 160 crianças que participam do projeto. As marcas do sucesso de um trabalho social a partir do esporte estão estampadas na alma e no rosto de cada uma.

Isaias Kelvin, de 14 anos, está no projeto desde 2011. O convite dos primos, que o levaram até o ginásio, mudou a vida do garoto. “É um projeto muito bom, não tenho palavras para descrever. Todos sempre me tratam muito bem, me dão muita atenção. E a gente fica muito feliz com isso. Queremos vir sempre, é quase a nossa casa”, afirmou Isaias.

A entrada de Thomas Arllen no projeto também foi através da família, há quatro anos. O irmão, que participa desde pequeno, o levou. Hoje, aos 12 anos, o garoto revela que é feliz no local. “Acabei gostando e estou até hoje. É muito legal. Como tenho a tarde livre, venho sempre. Todos os dias a gente aprende algo novo e também fazemos muitos amigos”, afirma.

Nome de rival

O coronel Hilton é torcedor do Náutico/PE, mas o projeto leva o nome do maior rival, o Santa Cruz/PE. A história parece confusa, mas tem uma explicação na história que foi protagonizada pelo acaso. Em 5 de maio de 1984, quando a equipe tinha cinco atletas, o Coronel foi em busca de comprar cinco camisas iguais em um camelô. A compra, no entanto, tomou um rumo diferente baseado no amor pela região.

“Procurei a camisa em todo canto e não encontrei. Até que encontrei uma listrada em preto, vermelho e branco do São Paulo/SP. Até com o escudo do São Paulo. Mas quando levei pra casa, pensei que não podia homenagear um time do Sudeste. E aqui no Nordeste, o mais próximo era o Santa Cruz. Então, mudei o escudo do time e passou a ser chamado Santa Cruz”, revelou. Além do futsal, o projeto também tem uma equipe de futebol de campo.

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