sexta, 19 de abril de 2019
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Grupo Baianasystem lança novo álbum, ‘O Futuro não Demora’

André Luiz Maia / 01 de março de 2019
Foto: Cartaxo/Divulgação
BaianaSystem chama a atenção pela mescla inventiva de ritmos musicais de raízes baianas com os beats globais das pistas de dança. Com Duas Cidades (2016), o grupo despontou na cena musical independente brasileira com bastante força e intensidade. Em 2019, preservando o espírito híbrido, o grupo lança O Futuro Não Demora.

Ao colocarmos os dois discos lado a lado, nota-se uma abordagem diferente. Se em Duas Cidades, o som era uma pancada, aqui há momentos mais arejados, quietos, sem abandonar a força que lhes é característica.

“Os shows e a receptividade das pessoas em relação ao Duas Cidades foi bastante energética e intensa, já que se tratava de um repertório bastante testado em apresentações. Por isso, ao produzir esse novo CD, entramos em um processo de equilíbrio, recuando um pouco, mergulhando mais na pesquisa”, pontua Roberto Barreto, guitarrista e idealizador do projeto.

O BaianaSystem, por sinal, surge em 2009 pelo desejo de Roberto em explorar novas possibilidades sonoras ao estudar a guitarra baiana e propor um encontro com o sound system, sistemas de som bastante populares no Caribe. Para tanto, ele se alia ao vocalista Russo Passapusso, o baixista e produtor Sekobass (Marcelo Seco), além do responsável pelo conceito visual do grupo, Filipe Cartaxo.

O resultado desse encontro é um show potente, com personalidade forte e conexões simultâneas entre raízes e contemporaneidade. O Futuro Não Demora demonstra isso com bastante elegância, a começar pela faixa de abertura, “Água”, que une o ritmo do ijexá a elementos eletrônicos e cordas da Orquestra Afrosinfônica, que une a música clássica erudita ao canto popular africano.

Conceitualmente, o disco se divide em duas partes, sendo a primeira delas um poço de referências a elementos que envolvem água, com sonoridade mais arejada, a exemplo da solar “Bola de cristal”, que se aproxima da cumbia e de ritmos africanos, resultando em uma faixa envolvente. A segunda parte, mais intensa, lembra o “punch” de Duas Cidades.

Um exemplo disso é a penúltima música do disco, "CertohPeloCertoh", que une riffs de guitarras, a percussividade característica da música baiana e os versos com carga social de Vandal, rapper e cronista das ruas de Salvador. O resultado é uma atmosfera tensa e caótica, um dos destaques do álbum. "Esse disco tem um fio condutor, uma história contada de uma maneira específica, tanto é que não conseguimos lançar singles para apresentá-lo, pois uma música só não consegue resumir seu espírito", pontua Roberto.

O Futuro Não Demora é um disco com muitas participações e colaborações em todos os níveis, resultado natural do processo de estudo e investigação que o grupo veio fazendo ao longo dos últimos três anos. “Tem muitas coisas que a gente trouxe de nossas experiências à parte, como a participação da Orquestra Afrosinfônica, a entrada de Antônio Carlos e Jocafi... Não sabíamos exatamente onde isso tudo ia desaguar”, confessa o guitarrista.

Teve casos em que as músicas precederam as parcerias, a exemplo de "Sulamericano", que conta com a participação de Manu Chao, em uma parte do disco que mergulha nos ritmos da música latina e da América Central ao mesmo tempo em que traz as paisagens, os cenários e as tensões sociais dessas regiões em forma de mensagem.

A presença de Manu e de Vandal são momentos em que a carga política presente no disco fica mais evidente, no entanto, ela se manifesta de outras maneiras, menos óbvias, especialmente quando há a forte presença da natureza e da ancestralidade. “A maioria das pessoas não percebem, mas só o fator de ter um ijexá ali, tocado da forma que é, como o samba de lata do Senhor do Bonfim, aquilo tudo é um posicionamento político”, pontua Roberto Barreto.

Para produzir o novo disco, eles se valeram de uma mudança de perspectiva. “Em Duas Cidades, a gente estava falando da vida frenética da cidade que a gente vivia. Com nossas viagens, nos afastamos desse cenário e, ao pensar no disco, olhamos para a Ilha de Itaparica, vizinha a Salvador, buscando entender a importância do Recôncavo Baiano para nossa formação. Olhar Salvador de lá nos fez perceber a importância de desacelerar, de tirar um pouco a velocidade e a ansiedade que a gente está sentindo”, completa.

Sem deixar de estar atento às questões de sempre, BaianaSystem nos convida em O Futuro Não Demora a enxergar com outros olhos aquilo que nos constitui enquanto seres sociais e culturais.

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