sexta, 18 de agosto de 2017
Especial
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Filho segue a profissão do pai e constroem história no futebol paraibano

Marques de Souza / 13 de agosto de 2017
Foto: Antonio Ronaldo
Todos os dias, quando à tarde ainda está começando, Jeová e Victor adentram nos portões do Estádio Presidente Vargas com o destino em comum: o gol. Lado a lado, caminha o homem com os cabelos desalinhados e a camisa por dentro do calção, e o menino, magro com estatura alta, e uma camisa verde-limão com o número nas costas quase que apagados.

Jeová Alves é o preparador de goleiros e Victor Muniz é um dos goleiros do elenco do Sport Campina, de Campina Grande, que está prestes a estrear na Segunda Divisão do Campeonato Paraibano. Além das semelhanças físicas e da proximidade do trabalho, Jeová e Victor estão ligados também fora de campo em um dos laços mais importantes da vida humana: a paternidade.

O pai, preparador de goleiros, e o filho, goleiro, convivem diariamente com o prazer e as cobranças de levarem para o futebol uma relação que esteve, antes de tudo, dentro do coração. São inúmeros cenários dentro de um treino. O preparador de goleiros que, encerrada a carreira, começou a apostar no filho. E o filho no gol, que quer fazer carreira para realizar um sonho e orgulhar o pai. Em meio a isso, o Sport Campina, que com a ajuda dos dois, busca estar na elite do futebol paraibano.

O pai jogador/preparador

Jeová Alves Freitas, 40 anos, começou a carreira no futebol aos 13 anos de idade nas categorias de base do Treze. A passagem no Galo durou três e anos e o volante se mudou para o Sertão do estado, quando assinou contrato com o Sousa, iniciando sua vida de atleta profissional. Desde então, não parou mais.

O próximo destino seria Recife, em Pernambuco, nos dois anos em que ele iria defender o Náutico. A carreira, no entanto, foi interrompida em 2005, quando estava no Corinthians de Caicó/RN. Entre os motivos, a dificuldade financeira que atrapalhava a vida do jogador e prejudicava no sustento da família. Na época, Victor era criança.

Dentro de campo não seria mais possível atuar. Fora dele, Jeová visualizou uma nova oportunidade de seguir no futebol, aquilo que mais gostava. Em 2010, um empresário de São Paulo resolveu apostar em um projeto na captação de atletas, e convidou o ex-jogador para liderar o negócio. O trabalho, porém, durou somente oito meses.

Em 2013, o agora ex-jogador iniciou sua trajetória na preparação física, no Palmeiras de Goianinha/RN. Na época, o goleiro treinado por Jeová foi eleito o melhor da competição. Logo, veio também a entrada no mundo acadêmico. Em 2018, Jeová conclui o curso de Educação Física. “Muita coisa aconteceu e surgiu a ideia de ser preparador de goleiros. Já que eu era do meio, comecei com esse trabalho. Algumas pessoas viram e me incentivaram a continuar na área. Eu também procurei me especializar”, disse.

Desafios da rotina

Nos gramados, na rotina do futebol, durante os treinamentos, Jeová e Victor procuram lidar da forma mais natural possível com os benefícios e desvantagens da relação pai e filho no ambiente de trabalho. De forma direta, o sonho do filho pode ser afetado de uma forma positiva pela presença do pai. E os aspectos vão desde o psicológico até o motivacional.

“É muito bom você estar presente no dia-a-dia e poder colaborar com a execução das atividades e ver a melhoria do desempenho, o esforço. A cobrança e a motivação são bem maiores. Como eu sou o pai dele, e também sou o treinador, ele precisa trabalhar mais que os outros. Conseqüentemente, eu cobro mais dele do que dos outros”, afirmou Jeová.

A corrida no gol do Sport Campina, porém, não têm favoritos. Atualmente, trabalham quatro goleiros: Victor, Matheus, Rafael e o Pantera. A cumplicidade da relação paterna é sempre deixada fora de campo pelos dois. O momento dos goleiros é sempre analisado antes da escolha do titular. “Ele sempre exige mais de mim, pra eu mostrar mais. Não podem achar que eu estou dando mole só porque sou filho dele. Ele sempre fala que sou filho dele do portão pra fora”, comentou Victor.

Pai e filho na primeira conquista

Em 2016, pai e filho vibraram juntos com a primeira conquista em uma equipe profissional onde os dois faziam parte. O Serrano, que na época estava na segunda divisão estadual, fez uma grande campanha, e a conseqüência foi o acesso à elite do futebol paraibano. Victor tinha 17 anos e era o terceiro goleiro da equipe.

“Foi um momento inesquecível, que vamos sempre lembrar. Fizemos um bom trabalho. Eu, o Victor, e o Dida, que depois foi para o Campinense. Foi uma experiência muito boa, que se repetia dia após dia durante o campeonato. A sensação de conseguir o acesso, com ele tão novo e já trabalhando comigo foi indescritível”, vibrou Jeová.

Na campanha do Serrano, o goleiro que dava seus primeiros passos na carreira não foi titular em nenhuma partida, mas teve a oportunidade de, ao lado do pai e de outros profissionais mais experientes, aprender ainda mais sobre a posição que quer atuar. “Foi muito bom estar no meio de pessoas que tinham vontade de ensinar e sempre me passavam conselhos. Foi um trabalho bem feito e colhemos os frutos”, analisou Victor.

Sonhos e futuro

Se o momento é de dedicação para almejar uma vaga no gol do Sport Campina, para o futuro Victor vislumbra uma carreira vitoriosa e com grandes defesas. O pai, porém, trata de manter os pés no chão e alertar sobre os desafios que é viver do futebol. Os dois sabem que a construção de um futuro sólido passa por um dia-a-dia de muito esforço.

“Quando ele tiver a oportunidade dele, ele vai ter porque vai estar bem. Ele hoje está em um grande momento, está pronto. Quando surgir a oportunidade ele vai agarrar. É importante que ele esteja sempre focado naquilo que é o correto, se esforçando nos treinos, que a hora dele vai chegar”, reforçou Jeová.

Durante os coletivos, em cada defesa feita ou tiro de meta cobrado, Victor deixa escapar e olha para o lado direito, onde sempre está o pai. E o pai, preparador de goleiros, abre um sorriso discreto, aprovando os acertos do jovem que ainda engatinha na grande área. Ainda faltam muitas etapas e objetivos na carreira do arqueiro. As dúvidas são inúmeras. De certeza, a presença do pai.

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