terça, 25 de junho de 2019
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Feminicídio: Quando o homem odeia a mulher

Beto Pessoa, do Jornal Correio da Paraíba / 03 de dezembro de 2017
Foto: Rafael Passos
Morta com 11 tiros no rosto, porque recusou um pedido de namoro. Apedrejada e alvejada na cabeça, no jardim de casa, pelo marido. Assassinada com golpes de chave de fenda no crânio, porque pediu para voltar para casa. Todos estes casos de feminicídio aconteceram na vida real e, segundo especialistas, colocam em foco um questionamento às vezes difícil de ser explicado: por que os homens odeiam as mulheres?

A resposta é mais complexa do que se imagina. Em primeiro lugar é preciso desmistificar as ocorrências, parar de tratar o feminicídio, assassinato de mulheres por motivação de gênero, como um crime passional, motivado por excesso de amor, defende a titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de João Pessoa, Josenise de Andrade.

“Já ouvi juristas dizendo: ‘Por amor se mata e por amor se morre’. Mas não! Termos como ‘crime passional’ foram usados por muito tempo porque tínhamos aquilo que se chamava legítima defesa da honra. É um termo que de certa forma inocentava o homem, como se ele tivesse matado por amor. Mas amor não mata. Os homens que matam mulheres são homens que odeiam as mulheres”, disse a delegada da Deam.

Crueldade

Ana Paula Santos passou por essas violências, nove anos atrás. As marcas hoje estampadas em seu corpo remetem a um passado de abusos dos mais variados tipos. “Se tivesse continuado com ele com certeza estaria morta. Ele começou me acusando de coisas que eu não fiz. Depois começou a me bater. Me furava, queimava, batia, sempre em lugares que não dava para ninguém ver”, disse.

Cabeça, região dos seios e costas eram os principais alvos do ex-marido. “Eu ficava com ele porque era sozinha com ele e meus dois filhos em São Paulo. Eu era presa, cheguei a pesar 35kg, só consegui escapar quando minha mãe foi me resgatar”, recorda.

Ana Paula escapou de entrar nas estatísticas do feminicídio, mas a forma como foi violentada tem a mesma motivação dos assassinatos por motivos de gênero: o ódio. Um homicídio comum, explica a delegada Josenise Andrade, tem por objetivo matar um indivíduo.

No feminicídio, por outro lado, a condição de ser mulher é determinante para o modo como esse assassinato é realizado, quase sempre desfigurando a mulher, como quem deseja não só matar, mas aniquilar sua existência e feminilidade.




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