sábado, 21 de julho de 2018
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Evento debate vida e obra do paraibano José Siqueira

André Luiz Maia / 14 de junho de 2018
Foto: Reprodução
Maestro que dá nome à sala de concertos do Espaço Cultural, em João Pessoa,  José de Lima Siqueira (1907-1985) deixou um legado rico e importante para a música de câmara brasileira. No entanto, para o maestro titular da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Paraíba, Thiago Santos, o paraibano natural de Conceição não tem o reconhecimento devido em seu próprio estado de origem.

É com este pensamento que surge a Mostra José Siqueira, organizada por Thiago e pela professora Luciana Noda, do Departamento de Música (Demus) da UFPB. A programação acontece hoje e amanhã na instituição, promovendo debates, mesas-redondas, conferências, um recital e um concerto, todos em torno da contribuição de José Siqueira para a música nacional.

Filho de um mestre da bande cordão encarnado de sua cidade, começou a se interessar por música e aprender a tocar instrumentos como saxofone e trompete. Em 1927, mudou-se para o Rio de Janeiro. Em 1933, graduou-se em composição e regência no Instituto Nacional de Música (atual Escola de Música da UFRJ), onde, mais tarde, tornou-se professor catedrático.

“José Siqueira saiu daqui muito cedo, por volta dos 20 anos, em direção ao Rio de Janeiro. Já tinha começado seus estudos de música com o pai na sua cidade natal, mas ao ir para o grande centro cultural e econômico do país, se torna um dos grandes compositores brasileiros do século XX, ao lado de nomes como Francisco Mignone, Guerra-Peixe, Camargo Guarnieri. São grandes não só pela obra, mas também pelo impacto no Brasil e no exterior”, pontua o maestro Thiago Santos.

Suas contribuições, no entanto, o tornaram uma figura benquista no meio da música erudita. “Siqueira foi um dos fundadores da Orquestra Sinfônica Brasileira, em 1940, e também foi um dos nomes que contribuiu para a criação da Ordem dos Músicos do Brasil, também na década de 1940. Também esteve envolvido na criação da Orquestra Sinfônica Nacional, além de ter em seu catálogo quase 500 obras compostas, um número expressivo”, salienta.

A despeito dessa importância, Thiago atribui a lacuna em seu legado e reconhecimento a questões políticas. “Na época da ditadura, por conta de seus posicionamentos, ele sofreu retaliações”, pontua o músico. José Siqueira foi destituído de suas atribuições e cargo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde era professor de composição, e foi impedido de reger a Orquestra Sinfônica Brasileira.

Por conta destes impedimentos, ele funda a Orquestra de Câmara do Brasil com um grupo de amigos composto por músicos da Orquestra Sinfônica Brasileira e músicos independentes importantes. No concerto realizado na noite de sexta-feira, com repertório totalmente composto por obras de José Siqueira, várias das peças escritas neste período estarão presentes.

O concerto servirá como estreia para uma composição de José Siqueira nunca antes apresentada ao vivo, chamada “Concerto Grosso”. “Foi composta em 1975 e até então nunca teve uma performance. É uma das seis obras de José Siqueira tocadas na sexta”, conta o maestro. Antes da apresentação, o evento apresentará em primeira mão os detalhes de um encadernamento feito pela Academia Brasileira de Música, compilando todas as obras catalogadas do maestro até então em um único volume.

Na opinião do maestro Thiago Santos, a principal característica das obras de José Siqueira era o ar sofisticado que o músico dava às composições, inspiradas nas canções e tradições da cultura nordestina. “A música dele é essencialmente nordestina e modal, o esqueleto do cancioneiro popular da região, além de trazer elementos da música negra e indígena. É uma música com toque regionalista, mas que exibe uma técnica e uma excelência. Por isso, eu fico angustiado de vê-lo ser esquecido por seus conterrâneos”, completa Thiago.

Orquestra encerra o evento

A Mostra José Siqueira  tem apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e une atividades artísticas e acadêmicas. A Orquestra Sinfônica da UFPB tem papel crucial na execução do evento, bem como o  o Programa de Pós-graduação em Música da instituição.

A programação da mostra contará com a presença de professores pesquisadores com trabalhos sobre a obra de José Siqueira e figuras importantes na história da música nacional e da trajetória de José Siqueira, como o musicólogo e professor André Cardoso, vice-presidente da Academia Brasileira de Música, e  o compositor Ricardo Tacuchian, ex-aluno de Siqueira.

Durante o concerto da OSUFPB, outra surpresa. “Do grupo de músicos da orquestra de câmara fundada por José Siqueira na década de 1960, estamos trazendo o violoncelista Marcio Malard, que estreou boa parte dessas composições de José Siqueira”, destaca o maestro da OSUFPB. Malard deverá ofertar aos alunos da instituição uma master class em seu instrumento principal, o violoncelo.

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