terça, 26 de janeiro de 2021

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Estreia hoje em JP o longa metragem ‘Silêncio’

Audaci Júnior / 09 de março de 2017
Foto: Divulgação
Depois de não causar praticamente nenhum barulho no Oscar (sendo indicado apenas pela sua fotografia), estreia nos cinemas de João Pessoa Silêncio, drama histórico dirigido por Martin Scorsese.

O filme é uma adaptação do livro homônimo de Shusaku Endo (1923-1996), lançado por aqui pela Editora Planeta do Brasil, e que narra o martírio dos missionários jesuítas no Japão budista do século 17. Tema pertinente na filmografia do realizador nova-iorquino que já foi coroinha e colocou suas perspectivas religiosas e espirituais em produções como A Última Tentação de Cristo (1988) e Kundun (1997).

O longa-metragem – realmente faz jus ao termo, com seus 162 minutos de duração – acompanha a viagem clandestina para terras nipônicas de dois padres jesuítas portugueses (vividos por Andrew Garfield, protagonista de Até o Último Homem e o Homem-Aranha pós-Sam Raimi; e Adam Driver, o Kylo Ren de Star Wars – O Despertar da Força). Eles procuram o seu mentor (Liam Neeson, que encarnou outro jedi, o Qui-Gon Jinn, na trilogia “prelúdio” de Star Wars), que desapareceu no meio de tempos turbulentos, já que o catolicismo foi banido do país através da campanha do governo de cortar como uma espada de samurai todas as influências estrangeiras.

Por isso, perseguições e torturas são impostas aos missionários e aos poucos japoneses que se converteram ao cristianismo depois da derrota da rebelião de Shimabara, em 1637.

“Fui provocado a pensar mais sobre a questão da fé. Eu olho para trás e vejo que tudo na minha memória se reúne como em uma espécie de peregrinação: foi assim”, relembrou o cineasta, em entrevista para a revista La Civiltà Cattolica.

E essa peregrinação realmente demorou. Scorsese leu o romance à bordo de um trem-bala de Tóquio a Kyoto, em 1988, quando ele terminou de atuar como o pintor pós-impressionista Vincent van Gogh em Sonhos, de Akira Kurosawa. Adquiriu os direitos no começo dos anos 1990 e quase fez Silêncio mais de uma década depois, quando terminou de dirigir Gangues de Nova York (2002).

“Foi um longo processo, principalmente porque a primeira vez que li o livro senti que queria fazer o filme, mas não sabia como”, confessou o diretor. “Tinha muito que ver com as minhas próprias inclinações religiosas e minhas dúvidas”.

Para o realizador, que observa a produção como uma grande aprendizagem de tentativa e erro, Silêncio “narra a história de nossos antepassados, que deram a vida para manter a fé”.

Com a maior parte das filmagens realizadas em Taiwan, o longa teve também seu martírio atrás das câmeras para a equipe devido às condições meteorológicas da ilha.

Ken Watanabe (de A Origem e Batman Begins) chegou a ser escalado para o papel de um intérprete japonês, mas declinou do convite, sendo substituído por Tadanobu Asano (o Hogun da franquia Thor).

No final do ano passado, em Roma, Itália, mais de 200 jesuítas assistiram uma exibição especial do filme. O Para Francisco chegou a ler a obra que deu origem.

Punição. Como muitas crianças criadas pelos laços católicos na sua época, Scorsese, atualmente com 74 anos, relata que era oprimido e estava profundamente impressionado com o lado severo de Deus, aquele que pune com “raios e trovões”.

“É aquele que Joyce traçava em Retrato do Artista Quando Jovem, uma obra que teve um profundo efeito sobre mim”, aponta. “É claro, no país, era um momento dramático. Estava crescendo o caso do Vietnã, e essa tinha acabado de ser declarada uma ‘guerra santa’. E, portanto, em mim, assim como em muitos outros, havia muita confusão”.

Relembrando seu passado, Scorsese afirmou que tentou transmitir em Silêncio a ausência de dúvida de que sentia um sentido do sagrado na figura de Deus.

“De todos os modos, eu me lembro de que saía depois do fim da missa e me perguntava: ‘Como é possível que a vida siga em frente como se nada tivesse acontecido? Por que o mundo não é sacudido pelo corpo e pelo sangue de Cristo?’ É esse o modo pelo qual eu experimentei a presença de Deus quando eu era muito jovem”.

Famoso também pela violência do seu “cinema da crueldade”, o diretor se considera um obstinado pelo espiritual. “Sou obcecado pela pergunta sobre o que somos. E isso significa nos olhar de perto, olhar para o bem e para o mal em nós”, justificou. “Podemos alimentar o bem de modo que, em certo ponto futuro, na evolução do gênero humano, a violência, talvez, cesse de existir? No entanto, a violência é aqui. É algo que fazemos. Mostrar isso é importante”.

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